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Crítica | Star Wars: Uma Nova Esperança (Dramatização Radiofônica)

por Ritter Fan
57 views (a partir de agosto de 2020)

estrelas 5,0

Star Wars foi um sucesso imediato e tornou-se presença marcante na cultura pop de todo mundo, sendo adaptada para praticamente todas as mídias. Mas o primeiro filme foi lançado em 1977 quando as dramatizações radiofônicas já vinham perdendo a força e imaginar a adaptação da franquia para um programa de rádio já era algo improvável. Não falo aqui de um audiodrama, algo comum até hoje em dia, mas sim de um clássico programa de rádio, transmitido por ondas hertzianas em capítulos, como era padrão nas décadas de 30 e seguintes com propriedades importantes tal qual, por exemplo, Superman.

No entanto, Richard Toscan, diretor-associado da Universidade da Califórnia, era um entusiasta da mídia e, juntamente com John Houseman, responsável pela produção da famosa adaptação radiofônica de A Guerra dos Mundos com Orson Welles, começou a mover uma engrenagem que levaria o primeiro filme da franquia ao ar em 9 de março de 1981, com produção da KUSC-FM, rádio do campus da universidade, juntamente com a National Public Radio e com a BBC. George Lucas, que havia estudado na mesma universidade, licenciou todos os direitos à KUSC-FM pelo valor simbólico de um dólar (por filme), direitos esses que incluíram o uso da trilha sonora de John Williams e dos efeitos sonoros dos filmes. Do elenco original, a produção conseguiu contratar Mark Hamill (Luke Skywalker) e Anthony Daniels (C3-P0) apenas.

O resultado desse esforço conjunto é absolutamente impressionante e uma joia para qualquer fã de Star Wars. Brian Daley, responsável pelo roteiro, teve acesso não só ao roteiro efetivamente usado no filme, como também, às versões anteriores, o que lhe permitiu expandir enormemente a narrativa. Não só ouvimos as quase míticas sequências de Luke com Fixer e, depois, de Luke com Biggs ainda em Tatooine, mas também versões ampliadas destas mesmas cenas, dando estofo e um passado a Luke.

Mas o mesmo acontece com os demais personagens principais, com criações 100% de Daley. A primeira vez que ouvimos Leia, por exemplo, não é em sua nave Tantive IV gravando uma mensagem para Obi-Wan Kenobi, mas sim ainda no planeta Toprawa., sendo cortejada de forma grosseira por um oficial do império, Lord Tian. Lá, descobrimos como os planos da Estrela da Morte chegam a ela e há uma sequência passada em Alderaan, em que ela conversa com seu pai e o convence a parar de resistir ao Império e começar a lutar contra o Império, amplificando a tragédia que é a destruição de seu planeta mais para a frente.

Com isso, a adaptação não só obedece a estrutura que a mídia radiofônica exige, como – e mais importante – realmente acrescenta elementos novos e interessantíssimos à história, por vezes nos dando justificativas para diversas ações que viriam adiante. Luke e Leia, claro, são os personagens que mais ganham desenvolvimento, o primeiro com uma abordagem da amizade dele com Biggs e a segunda com seu pai e com Lord Tian (que quer casar com ela) em seu planeta natal, com a confirmação, durante um jantar, sobre a existência de uma estação espacial mortal sendo construída pelo Império, com poder suficiente para destruir planetas inteiros. Da mesma forma, vemos a ligação direta entre Leia e o General Kenobi, já que seu pai a envia para alistar Obi-Wan para a luta contra o Império.

O trabalho de vozes do elenco é exemplar. Cada ator e atriz está realmente investido em seus personagens e mesmo os fãs mais fanáticos da franquia não sentirão falta das vozes originais. Enquanto Mark Hamill e Anthony Daniels reprisam seus papeis com grande qualidade e energia, Ann Sachs faz uma Princesa Leia que não deixa nada a desejar à versão de Carrie Fisher. Perry King – que havia feito audição para viver Han Solo no filme – faz o contrabandista de sua própria e eficiente maneira que, ainda que não consiga alcançar a qualidade malandra de Harrison Ford. Talvez a voz que mais cause estranheza seja a de Brock Peters como Darh Vader, mas muito mais pelo modulador que é utilizado do que pela voz em si. Mas o que se ouve na dramatização é uma dedicação que impressiona e dá gosto, tornando a audição fácil e agradável ao ponto de entristecer o ouvinte quando acaba.

E ela demora a acabar. O filme original tem 121 minutos, mas a dramatização, com todos os seus enxertos, chega a quase seis horas. Mas esse tempo é muito bem aproveitado e passam voando, ainda que a melhor forma de ouvir a performance seja obedecendo a estrutura de 13 capítulos, exatamente como ela foi ao ar originalmente, já que cada capítulo é substancialmente auto-contido, o que mais uma vez demonstra a qualidade do trabalho de Daley no roteiro.

O uso da música original de John Williams e dos efeitos sonoros de Ben Burtt dão o toque final à produção, emprestando-lhe legitimidade e um caráter de superprodução. Estão presentes todos os leit motifs dos personagens e cada som de blaster, sabre de luz e respiração de Vader, além das naves e explosões. Realmente parece que estamos escutando o filme em diversos momentos, ainda que, claro, haja uma carga maior nos diálogos em razão das restrições da mídia.

A dramatização radiofônica é, simplesmente, a melhor forma de se “ver” Star Wars depois do próprio filme. Nenhum fã que entenda fluentemente o inglês pode se dar ao luxo de perder essa obra-prima. E, aos que não falam inglês, vale o esforço de aprender só para ouvir essa pérola.

Star Wars: Uma Nova Esperança (Star Wars: A New Hope, EUA – 1981)
Direção:
John Madden
Roteiro:  Brian Daley (baseado em obra de George Lucas)
Elenco: Mark Hamill, Anthony Daniels, Ann Sachs, Perry King, Bernard Behrens, Brock Peters, Keene Curtis, John Considine, Stephen Elliott, David Ackroyd, Adam Arkin, Kale Browne, David Clennon, Anne Gerety, Thomas Hill, David Paymer, Ken Hiller
Duração: 5h57′ (13 partes)

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6 comentários

tbporto 15 de maio de 2017 - 01:16

Acompanho suas críticas sobre cinema e séries faz um tempo, principalmente as sobre The Walking Dead (Lia toda vez que terminava de assistir um episódio) mas é a primeira vez que vejo fazê-lo em outra mídia. Ótima crítica, como sempre! Gosto muito do seu trabalho.
Mas me tira uma dúvida, caso você saiba: Onde eu posso encontrar as dramatizações para ouvir?

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planocritico 15 de maio de 2017 - 01:24

Obrigado, @tbporto:disqus ! Eu escrevo também em quadrinhos, se interessar!

Olha, essas dramatizações podem ser encontradas em CD na Amazon.com. As minhas eu comprei via Humble Bundle – para download – em uma promoção que eles fizeram há algum tempo. Pesquisei agora e não encontrei mais lá para vender, porém.

Abs,
Ritter.

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Dan 11 de maio de 2017 - 14:31

Adorei esta crítica principalmente por trazer mais detalhes desta obra. Eu acreditava que era apenas um control c control v do filme.
Fiquei curiosíssimo pelas sequências da Leia em Aldeeran e em Toprawa.
Estas “novidades” foram aprovadas por Lucas? Foram baseadas em alguma ideia descartada por ele?
E os demais filmes, tb tiveram versões radiofônicas?
Abs

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planocritico 11 de maio de 2017 - 15:42

@disqus_PJzxCFXBon:disqus , se você (1) é fã de Star Wars; (2) entende bem o inglês e (3) gostaria de ver algo diferente, mas ao mesmo tempo “igual” nesse universo, é uma obrigação correr atrás desse programa. Não é algo barato, pois, como beneficia uma faculdade e uma rádio públicas o preço é acima do que se paga por um audiolivro, até porque a dramatização é MUITO superior e foi muito mais cara do que fazer um áudiolivro. É como teatro mesmo, só que sem imagens. Eu comprei pela Humble Bundle há algum tempo, em uma promoção imperdível deles. De repente, fica de olho neles!

Sobre Lucas, ele aprovou cada novo elemento. Sua participação no projeto foi bem próxima e ele deu acesso irrestrito aos arquivos da Lucasfilm. Até a Disney comprar a Lucasfilm, as dramatizações eram consideradas canônicas.

E sim, há dramatizações dos três filmes da Trilogia Original. E eu trarei as críticas para o site. Sábado passado foi Uma Nova Esperança, no que vem é Império e, no seguinte, Retorno. Fique ligado aqui!

Abs,
Ritter.

Responder
Dan 11 de maio de 2017 - 16:32

Obrigado pelas respostas!

Poxa, que bacana, então quer dizer que antes de Rogue One já houve uma história oficial sobre os planos da Estrela da Morte chegando até a Leia!?

Como 1) sim, 2) sim e 3) sim acho que vou procurar o programa! hehehe 🙂

Abs!

Responder
planocritico 11 de maio de 2017 - 16:49

@disqus_PJzxCFXBon:disqus , sim, houve uma história oficial bem “simplifcada” de como os planos chegaram às mãos de Leia. É divertido ouvir essa versão de “baixo orçamento” depois de assistir à grandiosidade de Rogue One! E o melhor: dá para conciliar as duas. Quando você escutar, perceberá como!

Abs,
Ritter.

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