Crítica | Stargate Origins: Catherine

Um dos meus maiores guilty pleasures (o maior, se contarmos a duração total) é Stargate. Do filme original de 1994, passando pelas três séries live-action entre 1997 e 2009 e uma série animada de 2002, chegando aos dois telefilmes de 2008, eu já assisti tudo e adoro tudo, mas sempre reconhecendo a qualidade no mínimo duvidosa de quase a integralidade do material. Só deixo de fora mesmo, por enquanto, os romances, as HQs e os games, porque não sou tão viciado assim no final das contas para garimpá-los. Mas a MGM parece não querer mesmo largar o osso da mais do que explorada franquia e, em 2017, durante a San Diego Comic-Con, ela anunciou o lançamento de uma web-série para comemorar o 20º aniversário da primeira série, SG-1, no ano seguinte.

Promessa feita, promessa cumprida e, em 2018, foram ao ar, entre fevereiro e março, os 10 breves episódios de Stargate Origins, com os primeiros três sendo liberados gratuitamente online e, os demais, por meio de assinatura do serviço Stargate Command. No meio do mesmo ano, a série convertida em longa-metragem de 104 minutos foi lançada nos serviços de VOD usuais, com o subtítulo “Catherine” e é essa versão, um pouco mais longa que a soma da duração dos 10 episódios e com alguns efeitos em computação gráfica melhorados (HAHAHAHAHA), que é objeto da presente crítica.

Como o título deixa muito claro, trata-se de um prelúdio ao filme de 1994 focado em Catherine Langford, a senhora idosa que contrata os serviços do egiptólogo e linguista Daniel Jackson para traduzir os hieróglifos do artefato circular achado originalmente por seu pai, em 1928, e que funciona como gatilho para toda a ação. Em Stargate Origins, a história começa não muito tempo depois da descoberta do portal estrelar, com Langford ainda jovem vivida por Ellie Gall e seu pai, o professor Paul Langford, vivido por Connor Trinneer. Ignorantes sobre o significado maior do objeto de pesquisa deles, o local é tomado por uma ridiculamente pequena força nazista comandada pelo Dr. Wilhelm Brücke (Aylam Orian) que parece saber ou pelo menos fortemente desconfiar para que serve o achado arqueológico. Como não poderia deixar de ser, não demora e todos – aí incluídos o capitão britânico James Beal (Philip Alexander), interesse romântico de Catherine e seu tenente egípcio Wasif (Shvan Aladdin) – acabam do outro lado do universo, no mesmo planeta desértico para onde décadas mais tarde iriam Jackson, o Coronel Jack O’Neil e equipe.

Em poucas palavras, o longa é um horror completo, daqueles que dá vontade de enterrar todas as cópias no deserto. Considerando que a produção é da MGM e que o objetivo era comemorar os 20 anos da primeira série, é incompreensível a qualidade abissal de tudo o que vemos ao longo de 104 minutos, começando por um roteiro inábil, direção para lá de burocrática (só para usar um eufemismo), elenco amador e efeitos especiais absolutamente patéticos. É quase como assistir a um fanfic feito no quintal de algum fã que não tem noção mínima do que é uma câmera de filmar e de conceitos básicos como montagem, fotografia e composição cênica. Além disso, não só os cenários parecem feitos de isopor pintado, como os figurinos provavelmente vieram do brechó mais próximo e o CGI foi renderizado por algo não muito melhor do que um TK-85 achado no sótão do avô do coitado que foi contratado por 10 dólares para fazer esse trabalho na produção.

Mercedes Bryce Morgan, diretora com um currículo composto de curtas obscuros que tenho até medo de ver, nem mesmo tentou disfarçar o orçamento pífio dessa produção com um jogo de câmera inteligente ou fotografia que maquiasse os problemas, com sombras e semi-transparências que estão no manual básico do filme de baixo orçamento feito com dois clipes e goma de mascar. Ao contrário até, tudo é às claras, deixando dolorosamente evidente até mesmo a maquiagem borrada dos personagens e amplificando a inépcia de todo o elenco, a começar por Ellie Gall, atriz tão ruim aqui que, em comparação, Stephen Amell, em Arrow, parece Laurence Olivier. Mas Morgan não é a única culpada por essa atrocidade – até porque a grande responsável é mesmo a MGM -, pois o roteiro de Mark Ilvedson e Justin Michael Terry (eram mesmo necessárias DUAS pessoas para escrever isso???) não tem uma linha de diálogo que se salve ou nada interessante para revelar. É como se eles tivessem arregimentado os serviços do primeiro miserável que passou na rua à frente do escritório deles para escrever qualquer coisa em 15 minutos para ganhar um cachorro-quente vencido como pagamento.

Alguns leitores que conhecem a franquia podem até estar se perguntando se esse prelúdio não altera significativamente a mitologia, já que Catherine Langford não sabia da função do artefato quando o filme de 1994 começa, e essa dúvida é mais do que justa. O que posso dizer para manter a presente crítica sem spoilers (se alguém realmente ainda tiver interesse mórbido em assistir isso…) é que os roteiristas dão um jeito na questão usando o “pozinho mágico do texto aleatório jogado de qualquer jeito no final” e nada acaba ficando contraditório. O que fica mesmo é a nítida sensação de que o espectador vai emburrecendo na medida em que a história progride.

Sou o primeiro a reconhecer que a franquia Stargate nunca foi o auge do sci-fi inteligente e bem acabado, mas Stargate Origins: Catherine, em perspectiva, transforma tudo o que veio antes em obras-primas irretocáveis. Talvez, pensando melhor, tenha sido justamente esse o objetivo secreto da MGM ao autorizar esse dromedário audiovisual.

Stargate Origins: Catherine (Idem – EUA, 2018)
Direção: Mercedes Bryce Morgan
Roteiro: Mark Ilvedson, Justin Michael Terry
Elenco: Ellie Gall, Connor Trinneer, Aylam Orian, Philip Alexander, Shvan Aladdin, Sarah Navratil, Salome Azizi, Lincoln Hoppe, Daniel Rashid, Justin Michael Terry, Michelle Jubilee Gonzalez, Tonatiuh, Derek Chariton
Duração: 104 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.