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Crítica | Ste. Anne

por Gabriel Zupiroli
186 views (a partir de agosto de 2020)

Ste. Anne é um filme que trabalha sobretudo com uma ideia de fragmentação. Seja a da narrativa, que se apresenta muitas vezes descolada de uma lógica visível, seja a da encenação, utilizando-se de recursos imagéticos e sonoros para recortar o que está sendo contado em tela, fazendo com que soe quase como uma apresentação onírica. A trama é simples: uma mãe retorna à casa após quatro anos e o que acompanhamos é a interação entre ela, sua filha deixada para trás e as pessoas que ficaram. Nunca sabemos mais do que isso: seus motivos, seus passados e suas conexões diretas não importam. O que existe é, de fato, a vontade de fragmentar toda essa torrente de relações em função de mostrar como é tão “deslocalizada” qualquer ideia possível de memória.

A opção de Rhayne Vermette, a diretora, de trabalhar com uma câmera que se preocupa muito com detalhes, evidencia essa dinâmica. Constantemente somos jogados a esses pequenos gestos, objetos e ações que intensificam essa noção de destruição de uma totalidade, fazendo com que a própria imagem se constitua de pequenos pedaços existindo em função de algo que paira no ar. Assim, tanto as festividades tradicionais, quanto os diálogos que minimamente aprofundam as relações tornam-se muito menos componentes de uma narrativa, e mais registros de uma cotidianidade, de um estar e ser no mundo muito próprio do local relatado, Manitoba, no Canadá.

E todos esses detalhes, toda essa destruição de uma possibilidade de totalidade é algo que se direciona à memória (ou à falta dela), ao existir como passado e como presente em um local delimitado e quais as significâncias disso. O constante ato de mãe e filha de olhar velhas fotografias e tentar decifrar quem são aquelas pessoas produz uma dupla condução: na mulher adulta, que abandonou qualquer possibilidade de família e agora retorna reprimida, trata-se de uma tentativa desesperada de conexão com algo que já foi; na criança, uma busca incessante pelo passado para tentar não apenas, quase inconscientemente, traçar uma linha lógica com o agora, mas sobretudo para, talvez, encontrar uma conexão com essa figura estranha que agora recebe o nome de mãe.

Ste. Anne se faz, portanto, sobre essa ideia conflituosa de como noções temporais tão esparsas são constituintes da própria compreensão de si como sujeito presente no mundo. E colocar a perspectiva da criança como protagonista é uma maneira inteligente de fazer isso. O problema é que justamente essa ideia toda de fragmentação entra em conflito com uma tentativa de tornar a “história” algo universal. Não em um sentido filosófico, mas sim de maneira simples: desestruturar a possibilidade cênica de algo estabelecido entra em choque direto com o consequente esforço de produzir uma narrativa tradicional.

Não sejamos injustos: não é um filme que busca por essa tradição, mas acaba que a forma como as peças se encaixam conduz a isso. Como se fosse uma obra que busca escapar de uma determinada estrutura, mas apenas a reforça na maneira como o faz. E pior: nessa tentativa, os artifícios que procuram quebrar com esse todo apenas acabam soando vazios. Assim, tanto as vozes sobrepostas e não alinhadas com as cenas, quanto as constantes interferências na imagem (como luzes e “queimaduras” no “filme”) aparecem como meros mecanismos na tentativa de uma emulação “poética” que é, de certa forma, abortada. Não se efetua o esperado, o que faz com que o filme se torne uma longa jornada extensa sobre algo que não se efetua, por mais que possua ótimos momentos.

Ste. Anne é, sem dúvida, uma tentativa de uma direção que possui um olhar muito sensível. Propõe-se completamente como uma experiência sensorial na tentativa de investigar como passado e presente se sobrepõem na localização do sujeito. Mas talvez um pouco mais de entrega a essa ideia e mais cuidado na forma de se articular tal narrativa (difícil de se fazer, diga-se de passagem) poderiam formar um filme mais sólido, que justificasse a utilização de todos esses artifícios.

Ste. Anne – Canadá, 2021
Direção: Rhayne Vermette
Roteiro: Rhayne Vermette
Elenco: Isabelle D’Eschambault, Jack Theis, Rhéanne Vermette, Valerie Marion, Dolorès Grosselin, Roger Vermette, Andrina Turenne, Denise Tougas, Yvette Deveau, Paulette Cooksey
Duração: 80 min.

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