Crítica | Steampunk Ladies: Choque do Futuro

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Com um trabalho de ambientação excelente aqui em Steampunk Ladies: Choque do FuturoZé Wellington mais uma vez trabalha a ficção científica de forma divertida e criticamente relevante, ingredientes também observados em outra de suas histórias, Cangaço Overdrive (2018), e que vemos agora chegar a um Reino Unido governado pela Rainha Vitória, numa típica história de “passado tecnológico em crise” que nunca aconteceu.

Choque do Futuro é a sequência de Vingança a Vapor (2015), mas o leitor que não conhece a obra anterior — como eu — pode aproveitar sem problemas a presente aventura. Nela, Sue e Rabiosa, duas mulheres recém-chegadas dos Estados Unidos à Inglaterra, estão procurando por duas coisas: tecnologia roubada e pessoas que agora possuem essa tecnologia. Toda a Primeira Parte do volume (Grandes Expectativas — e a referência exposta no capítulo também se dá nos dois seguintes, a saber, Prometeias Modernas e Orgulho e Preconceito) cria de maneira inteligente os pontos de tensão, focando bastante na personalidade das mulheres e dando indicações do tratamento que elas recebiam nessa sociedade.

O interessante aqui é que o roteiro não utiliza a tecnologia steampunk de maneira encantada e fanzoca, armadilha na qual muitos escritores caem e que não é necessariamente ruim, mas acaba tirando o tempo de desenvolvimento dramático do Universo (como estrutura social mesmo) e também dos personagens, especialmente quando ligados a questões caras ao gênero: problemas de classe, disputas de poder (estatal, econômico ou de outra ordem, dependendo da obra), belicismo e dilemas morais ligados à tecnologia. No capítulo de abertura nos são dadas noções dessas camadas, ao passo que nos é entregue uma ótima apresentação dos personagens principais. A sororidade também aparece logo no início e se fortalece no decorrer da trama, que traz reais problemas do século XIX para as páginas (jornada de trabalho excessiva, miséria e violência urbanas, movimento sufragista, etc.) e engaja as mulheres na luta pela igualdade, deslocando o sentimento feminista para essa realidade e através deles, fazendo uso prático das máquinas malucas que a arte retrata tão bem.

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Sabendo que a obra tinha vários artistas, eu já imaginava as mudanças de estilo ao longo da edição, mas a primeira grande passagem disso na obra me incomodou um pouco. Talvez por estar mergulhado demais no roteiro, eu não cheguei a raciocinar que era apenas a mudança da arte de Sara Prado para a de Wilton Santos. De repente, ali estava um Albert Calvin que parecia bem mais velho e uma Rainha Vitória que passara de uma representação livre para uma mais próxima do retrato da monarca. Então por uns segundos eu li os balões e fiquei pensando: “ué, eles estão falando de algo que acabou de acontecer, mas parece que passou muito tempo de uma página para outra!” e só então foi que caiu a ficha. Não posso dizer que gostei dessa primeira passagem — e é bom deixar claro que não tem nada a ver com os artistas, pois gosto de todos os estilos aqui, embora em níveis diferentes — mas depois que notei o que estava acontecendo, o sentimento se dissipou.

Meu maior destaque na imagem vai para as páginas de flashback, para a excelente aplicação de cores pelo trio Ellis Carlos, Ale Starling e Thyago Brandão e para o ágil e instigante terceiro capítulo da obra, desenhado por Leonardo Pinheiro. A organização da edição também merece ser mencionada, porque traz dois excelentes textos que servem como aprofundamento e análise de conjuntura para o leitor (no início, escrito por Lívia Stevaux, e no final, por Dana Guedes), além de um bom tratamento editorial, em especial para a bela capa. Uma história sobre mulheres em guerra, num tempo ainda mais perigoso do que o historicamente conhecido, mas aberto a um bom número de possibilidades de luta contra a opressão. E acreditem: as Steampunk Ladies não perdem a chance e começam a necessária mudança. Haja coração!

Steampunk Ladies: Choque do Futuro (Brasil)
Editora:
Draco, 2019
Roteiro: Zé Wellington
Arte: Sara Prado, Wilton Santos, Leonardo Pinheiro
Cores: Ellis Carlos, Ale Starling, Thyago Brandão
Letras: Deyvison Manes
71 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.