Crítica | Still Screaming – The Ultimate Scary Movie Retrospective

Ao lado de Scream – The Inside Story, o memorialístico Still Screaming – The Ultimate Scary Movie Retrospective se comporta como um complemento das histórias de bastidores e observações críticas dos envolvidos no filme que deu novos rumos para o terror em meados da década de 1990. Com maior tempo de tela dedicado ao primeiro exemplar da franquia, o documentário dirigido por Ryan Turek preocupa-se com a contextualização, mas passa rapidamente pelos detalhes já mencionados na produção que divide o mesmo espaço que o seu no bojo dos documentários de “crítica genética”.

Se o interessante “The Inside Story” já havia radiografado com eficiência Pânico, o seu material, lançado em 2011, algum tempo antes da exibição de Pânico 4, objetivou trazer depoimentos de outros membros do elenco e análise dos filmes Pânico 2 e Pânico 3. De maneira didática, com direção de fotografia assinada por Pete Young e Anthony Masi, o documentário editado por Monica Daniel não abandona as “cabeças falantes” tradicionais, tampouco os “stills” com fotos, recortes de jornais da época, trechos de reportagens televisivas e outros materiais memorialísticos que resgatam a história da recepção dos filmes da franquia.

Com produção assinada por Anthony Mais, o documentário traz a condução sonora de John Corlis para acompanhar os depoimentos, músico que contou com a mixagem de som de Joseph Bishara, atualmente mais conhecido pelo desenvolvimento das trilhas sonoras dos filmes oriundos do universo de James Wan e sua franquia Invocação do Mal. Os efeitos visuais da dupla formada por Jon Yaus e Jason Pietka permitem dinamismo aos depoimentos que seriam entediantes se estivessem distantes do tratamento narrativo proposto pelo documentário. Eles criaram legendas, títulos e outros mecanismos visuais atrativos e conectados com os aspectos semióticos dos quatro filmes da saga de Wes Craven e seu assassino mascarado.

Logo em sua abertura, há uma análise do antagonista Ghostface na cultura pop, alvo de releituras constantes. Wes Craven, Marianne Maddalena e Cathy Konrad narram detalhes de produção: a escolha de Santa Rosa como local para filmagem, as dificuldades por conta de um passado obscuro na cidade, relacionado ao assassinato de uma jovem, além da preocupação com a temática da violência. Por outro lado, havia a interessante retomada da região no mapa de interesses dos Estados Unidos, afinal, até então a região vivia a calmaria semelhante ao espaço ficcional do filme, alardeado pelos impactos da violência depois do aparecimento de “Ghostface” e seus planos de vingança.

Mais adiante, Neve Campbell, David Arquete, Jammie Kennedy, Matthew Lillard, dentre outros, depõem e contam casos que não surgem apenas como fofocas de bastidores, ao contrário, são reflexões sobre o “fazer fílmico” na seara dos filmes de terror. Há de se observar a ausência de Courteney Cox e Kevin Williamson, dois nomes importantes que por algum motivo ficaram de fora da produção. Já em Scream – The Inside Story, a interprete de Gale Wheaters aparece por meio de trechos dos features do primeiro Pânico, haja vista a direção de arte e cenografia do espaço em que seus depoimentos são captados, diferentes dos demais envolvidos no documentário que teve design de produção próprio. Aqui, acontece a sua total ausência, ministrada por meio de fotos e observações de outros envolvidos: Patrick Lussier, Marco Beltrami, Jerry O’Connel, W. Earl Brown, Heather Matarazzo, Elise Neal, Parker Posey, Liev Schreiber, Henry Winkler, dentre outros.

Williamson, roteirista que também é parte integrante na produção, ficou de fora dos depoimentos, mas é citado constantemente, seja por seus sucessos paralelos (Eu Sei O Que Vocês Fizeram No Verão Passado, Prova Final, Tentação Fatal) e a confusão que o deixou de fora do terceiro filme da franquia, escrito por Ehren Kruger, profissional que teve como desafio a elaboração do roteiro de um filme muito esperado pelo público, em exatas seis semanas. No desenvolvimento do terceiro filme, o roteiro desloca-se para Hollywood, numa crítica genial aos processos obscuros que engendram “testes do sofá”, “cultura do estupro”, afetividades do mundo das celebridades e a transformação da miséria alheia em espetáculo ficcional.

O filme, inclusive, antecipada a polêmica com Harvey Weinstein, poderoso produtor de cinema com o nome no limbo por conta dos escândalos que estouraram recentemente. Patrick Dempsey, membro importante no desenvolvimento da história também aparece apenas por fotos e depoimentos alheios. Tratado como uma produção com estratégias narrativas ao estilo Scooby-Doo, Pânico 3 foi sucesso de bilheteria, apesar de receber algumas críticas negativas dos especialistas, haja vista algumas escolhas dramáticas que fragilizaram a trama. A migração para Los Angeles também pode ser explicada pelo interesse em dissociar juventude, educação, escola e violência, pois os estadunidenses estavam traumatizados com os impactos da tragédia em Columbine.

Os videogames, a música e o cinema eram apontados como responsáveis pela exaltação da violência entre adolescentes, debate que de alguma forma poderia prejudicar o desenvolvimento do filme. O público, na expectativa de dois assassinos, levou uma rasteira da produção, focada desta vez no assassino mais focado, com dilema pessoal a ser resolvido com a catalisadora da tragédia, Sidney Prescott, final girl que apesar de aparecer em vários trechos, ganhou pouco destaque, não se sabe por qual motivo. Sabemos, em meio aos seus depoimentos curtos e objetivos, a sua agenda na época, envolvida com a série de TV Party of Five e com uma comédia, algo que a deixou bastante preocupada, já que diferente do segundo filme, não havia assinado contrato obrigatório. Como Pânico fez sucesso, a sua participação na sequencia já havia sido assinada.

Pânico 3, por questões cronológicas, é o terceiro filme a ser analisado, antecipado pela abordagem dos elementos que fizeram de Pânico 2 um sucesso digno do primeiro filme. Além do ótimo roteiro e discussão social empreendida pelos diálogos dos atores em processo de amadurecimento de seus perfis, o filme é uma representação talentosa do uso adequado de metalinguagem. O filme dentro do filme logo na cena de abertura, as referências hitchcockianas, o primoroso debate numa sala de aula, focado na polemica discussão sobre os impactos da violência cinematográfica na vida real, juntamente com o frequente tópico sobre continuações sempre inferiores aos filmes “originais”: esse é o clima do filme que encerra, temporariamente, a jornada trágica de Sidney no local mais apropriado que existe para tanta catarse: o palco do teatro da universidade.

Interessante como a produção organiza a história recente do cinema. Aponta a decadência do slasher na virada dos anos 1980 para os primeiros anos da década de 1990, período fraquíssimo e entediante para o gênero, tendo pouquíssimos filmes de destaque. O lançamento de Pânico traz novo fôlego, estabelece regras que são copiadas exaustivamente, algo que se modifica com o surgimento do fenômeno independente de 1999, A Bruxa de Blair, guinada nos filmes de terror, reinventados constantemente pela indústria, mas nunca ausentes, pois tal como traz Matthew Lillard e determinado trecho, os filmes de terror produzem “descargas emocionais e refletem medos próprios do público espectador”, afirmação que já foi inclusive discussão no bojo da análise do gênero em perspectivas psicológicas e sociais.

Na seara das curiosidades, há a participação de Roger Corman no terceiro filme da franquia, produção que também teve a presença de luxo de Carrie Fisher. Roger Jackson foi o destaque entre as tantas fitas com gravações de testes para a imortal voz de Ghostface. A cena 1:18 do primeiro filme, o assassinato de Tatum (Rose McGowan) teve até camisa padronizada por membros da equipe, vestimenta que destacava “eu sobrevivi a cena 1:18”, considerada a mais complexa da produção. Freddy, Jason e Michael, o trio do horror dos anos 1970 e 1980 são delineados na abertura, considerados os antecedentes dos crimes de Woodsboro. Lançado próximo ao período natalino, o filme foi recebido com desconfiança, mas logo se tornou sucesso absoluto de público e crítica. O fluxo de informações é extenso, por isso, creio que uma visita ao documentário seja válida, para que você mesmo possa extrair os pontos que considerar mais relevantes, tudo bem, caro leitor?

Still Screaming – The Ultimate Scary Movie Retrospective (Estados Unidos – 2011)
Direção: Ryan Turek
Roteiro: Ryan Turek
Elenco: Wes Craven, Neve Campbell, Courteney Cox, Robert Englud, Rose McGowan, David Arquette, Kevin Williamson, Matthew Lillard, Jamie Kennedy, Patrick Lussier, Marco Beltrami, Howard Berger, Roger Jackson, Marianne Maddalena, Bob Weinstein, Jerry O’Connel, Elise Neal, Roger Corman, Ehren Kruger
Duração: 93 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.