Crítica | Stranger Things (quadrinhos)

  • spoilers da série.

Stranger Things foi um fenômeno pop instantâneo quando lançado em 2016 no Netflix, atraindo uma legião de espectadores de todas as idades pelo cativante elenco mirim e uma história com alta carga nostálgica. Chega a ser até estranho, portanto, que tenha demorado tanto tempo, mais precisamente até setembro de 2018, para que a série fosse aproveitada também nos quadrinhos, especialmente considerando a avalanche de produtos estampando a marca e os rostos das crianças que invadiu o mercado como em um passe de mágica.

Mas havia um problema de ordem prática. Se os quadrinhos não fossem uma adaptação das temporadas, o que eles poderiam ser? A Dark Horse Comics, que obteve a licença, partiu para o caminho mais difícil e escolheu apresentar material inédito ou, pelo menos, razoavelmente inédito em uma minissérie de apenas quatro edições de tamanho regulamentar. Como abordar eventos antes do início da 1ª temporada ou mesmo entre uma e outra poderia trazer problemas de desinteresse e/ou de inconsistências, a editora optou por abordar a temporada inaugural sob o ponto de vista de Will Byers, o garoto que passa quase o tempo todo no Mundo Invertido.

Sem dúvida é uma jogada inteligente, mas, claro, faz a minissérie funcionar apenas para quem viu a série de TV, já que Will trafega pelo lado de lá conectando-se de tempos em tempos com o lado de cá, falando com sua mãe pelo rádio, telefone e iluminação de Natal, além de testemunhando e até interferindo com eventos que são abordados na série. A questão é que só vemos a perspectiva de Will e o roteiro de Jody Houser é cuidadoso nesse sentido para não se trair, permitindo-se, tão somente, a paralelização da jornada de Will à de uma partida de Dungeons & Dragons que ele joga como Will, o Sábio com seus amigos e que vemos de tempos em tempos nas edições. É uma forma orgânica e lógica de também incluir Mike, Dustin e Lucas na narrativa, sem realmente inclui-los.

(1) Will vs. Demogorgon e (2) Will, o Sábio.

Em outras palavras, a minissérie é “companheira” da 1ª temporada da série, funcionando como a visão a partir do Mudo Invertido de todos os acontecimentos que seguimos no outro lado. Por isso mencionei que é uma abordagem inédita sem ser inédita, mas que complementa bem a mitologia e até acrescenta alguns elementos interessantes que desconhecíamos sobre as ações de Will em seu exílio. Por outro lado, exatamente por não mudar nada do que já aprendemos vendo a série, a HQ é “desnecessária” e só realmente terá valor para aqueles que querem conhecer cada detalhe da história, o que é perfeitamente legítimo e que, no final das contas, afasta o caráter de puro caça-níquel que a história poderia ter.

A arte de Stefano Martino é bonita e detalhada, reproduzindo o Mundo Invertido da série com um viés um pouco menos sombrio, algo em que ele é ajudado pelas tintas de Keith Champagne e pelas cores azuladas de Lauren Affe. Ele também é muito feliz ao criar o mundo fabulesco de D&D que é intercalado à história de forma onírica. No entanto, ele peca pela falta de dinamismo nas poucas sequências de ação e por picotar demais as páginas em pequenos quadros, algo desnecessário para o baixo grau de complexidade do roteiro de Houser. Martino teria beneficiado mais a minissérie se trabalhasse mais splash pages ou páginas duplas para lidar com os momentos mais importantes.

Stranger Things em quadrinhos é uma leitura agradável e rápida que acrescenta pequenos detalhes a esse fascinante universo nostálgico infanto-juvenil. Não é um tesouro, mas é sem dúvida um divertimento enquanto uma nova temporada não vem.

Stranger Things (Idem, EUA – 2018/9)
Contendo: Stranger Things #1 a 4
Roteiro: Jody Houser
Arte: Stefano Martino
Arte-final: Keith Champagne
Cores: Lauren Affe
Letras: Nate Piekos
Editoria: Spencer Cushing
Editora original: Dark Horse Comics
Data original de publicação: 26 de setembro, 31 de outubro e 28 de novembro de 2018 e 02 de janeiro de 2019
Páginas: 93

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.