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Crítica | Street Fighter: A Última Batalha

por Ritter Fan
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A década de 90, mais precisamente o ano de 1993, com o lançamento cinematográfico de Super Mario Bros., marcou a entrada de Hollywood nas adaptações de videogames, ao mesmo tempo que, infelizmente, marcou o tom do que seria a grande maioria de tais produções ao longo das décadas até hoje em dia, ou seja, vergonhas alheias que, se fossem enterradas juntamente com as fitas de Atari de E.T. – O Extraterrestre, ninguém sentiria falta. Street Fighter: A Última Batalha foi a terceira dessas adaptações e a segunda baseada em jogo de luta, com Double Dragon, que chegou aos cinemas nem dois meses antes, tendo a dúbia honra de ter sido o primeiro.

Baseado especificamente em Street Fighter II, da Capcom, um dos jogos de maior sucesso da história, o roteiro de Steven E. de Souza, que já tinha em seu currículo os clássicos de pancadaria Comando para Matar, O Sobrevivente, Duro de Matar e Duro de Matar 2, já revela o que seria uma tendência nas adaptações futuras de jogos semelhantes: a insistência em se criar uma história mais complexa do que o necessário que acaba empurrando o que realmente interessa, no caso, as lutas, para segundo ou terceiro plano. Afinal, o que mais o longa precisava ser que não uma versão com personagens ainda mais espalhafatosos de O Grande Dragão Branco? A escalação de Jean-Claude Van Damme como o Coronel William F. Guile já era indicação suficiente disso, mas, infelizmente, o ator belga é quase um coadjuvante aqui, com lutas de verdade com ele só acontecendo nos 20 minutos finais.

E o roteiro, por incrível que pareça, é apenas parte do problema, pois Steven E. de Souza também colocou o boné de diretor, em seu único trabalho nessa cadeira para o cinema, o que garantiu a lerdeza da progressão da história que estica um fiapo narrativo do resgate de reféns sequestrados pelo malvado ditador General M. Bison (Raul Julia) pelas forças análogas às da ONU comandadas por Guile, com direito a personagens extras sem muita função na história e que estão lá apenas para cumprir a cota do que os fãs do jogo esperam, como é o caso de Chun-Li (Ming-Na Wen), Ken (Damian Chapa), Ryu (Byron Mann) e Cammy (Kylie Minogue), dentre vários outros. Arriscaria dizer que, com uma direção minimamente mais eficiente e econômica, a bobagem histriônica que Street Fighter sem dúvida é poderia ter resultado em algo mais próximo do que Paul W.S. Anderson viria a fazer logo no ano seguinte, com Mortal Kombat.

Mas bobagem é a palavra-chave aqui e pelo menos nisso de Souza acerta. O filme não se leva a sério em momento algum e se mostra muito mais preocupado em criar figurinos bem próximos do que vemos nos jogos para seus protagonistas e antagonistas, incluindo aí o vestido-fetiche de Chun-Li e o monstruoso Blanka (Robert Mammone) que usa a infalível tecnologia moderna da série setentista O Incrível Hulk: tinta verde na pele e cabelo de Bombril tingido. Ao ser muito claramente uma autoparódia, mesmo que ela seja toda desengonçada e cansativa, o filme ganha seus pontinhos, pois não há nada mais irritante do que uma obra desse naipe e orçamento tentando um enfoque sério ou realista.

Aliás, Raul Julia, que aceitou o papel por insistência de seus filhos que eram fãs do jogos, percebeu isso de imediato e o que ele faz é abraçar o absurdo total inflando o peito para fazer seu Bison da maneira mais ridícula possível, algo em que é ajudado pelo seu figurino vermelho de machucar os olhos (incluindo o roupão que compete com o do Senhor Frio em Batman & Robin como o mais ridículo da Sétima Arte) e os poderes que ele manifesta ao final completamente do nada, sem a menor contextualização. O grande ator porto-riquenho viria a falecer dois meses antes da estreia do longa, que viria a ser seu penúltimo, mas tenho certeza que ele foi sorrindo – e não arrependido – por lembrar da besteirada de seu papel em Street Fighter. Diria também que até Van Damme entrou nesse espírito, ainda que sua latitude dramática se encaixe facilmente em seu papel, lógico.

A gigantesca bobagem que Street Fighter é salva o filme de ser um daqueles exemplares intragáveis do subgênero de adaptação de games. É ainda muito, muito ruim, não tenham dúvida, mas em uma tarde chuvosa cercado de amigos saudosos pelo game para zoar a adaptação, ela tem seu mínimo valor.

Street Fighter: A Última Batalha (Street Fighter – EUA/Japão, 1994)
Direção: Steven E. de Souza
Roteiro: Steven E. de Souza
Elenco: Jean-Claude Van Damme, Raul Julia, Ming-Na Wen, Damian Chapa, Kylie Minogue, Simon Callow, Byron Mann, Roshan Seth, Andrew Bryniarski, Grand L. Bush, Robert Mammone, Miguel A. Núñez Jr., Gregg Rainwater, Kenya Sawada, Jay Tavare, Peter Tuiasosopo, Wes Studi
Duração: 102 min.

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