Crítica | Stumptown – 1X01: Forget It Dex, It’s Stumptown

Tento fugir o máximo que posso de séries de canais abertos da televisão americana por elas normalmente serem longas demais e estruturadas ao redor do “caso da semana”. Nem sempre sou bem sucedido como foi o caso de Agents of S.H.I.E.L.D., por ter sido a primeira a fazer parte do UCM, e, mais recentemente, o reboot de S.W.A.T., por razões inteiramente nostálgicas. No caso de Stumptown (um apelido de Portland, no Oregon, onde a ação se passa), fiquei curioso por ser uma adaptação de HQ de Greg Rucka, fui atraído por ser protagonizada por Colbie Smulders, atriz que basicamente só conhecia como Maria Hill (não, nunca assisti sequer um segundo de How I Met Your Mother), e fui fisgado pelos frenéticos e divertidíssimos primeiros dois minutos do piloto, embalados por “Sweet Caroline”, de Neil Diamond.

E olha que falo de uma história cuja premissa é mais do que batida, com Dex Parios (Smulder), veterana da Guerra do Afeganistão, sendo contratada por Sue Lynn Blackbird (Tantoo Cardinal), proprietária do cassino onde joga o dinheiro que não tem, para achar sua neta Nina (Blu Hunt), sumida há alguns dias, em troca do perdão de sua dívida. Padrão, não é mesmo? Mas não, não é exatamente padrão, por incrível que pareça.

Para começar, esse primeiro episódio é uma história de origem, ou seja, como Dex torna-se uma detetive particular, já que ela é apresentada apenas como alguém que vive dia após dia, lutando contra o transtorno de estresse pós-traumático causado por uma tragédia particular durante a guerra e como a irmã carinhosa de Ansel (Cole Sibus), jovem com Síndrome de Down. A investigação do paradeiro de Nina, que ela inicia a contragosto e seu envolvimento com o detetive Miles Hoffman (Michael Ealy) a leva na direção detetivesca, forçando-a a fazer uso de seus poderes de observação empregados durante o serviço militar. De certa forma, é perfeitamente possível ver, em Dex, uma versão sem poderes e razoavelmente mais meiga de Jessica Jones, mas Stumptown não se leva tão a sério e não parece interessada em lidar com assuntos realmente pesados.

Mas, além de ser uma história de origem (na HQ ela já começa detetive), temos o charme e o timing cômico sutil de Cobie Smulders, algo que o roteiro de Jason Richman, também showrunner, aproveita ao máximo com diálogos espertos, personalidade bem definida e um passado razoavelmente complicado, ainda que clichê. Seu relacionamento com Ansel é bonito e natural, assim como é o suporte dado a ela por seu amigo de longa data Grey McConnell (Jake Johnson, o Peter Parker de Homem-Aranha no Aranhaverso) que, desconfio, é apaixonado por ela, o que seria mais um clichê, claro.

Como se isso não bastasse, há um personagem não humano que é maravilhosamente bem usado: o muscle car já bem combalido de Dex. Mas calma, pois não há nada sobrenatural ou mesmo tecnológico como Super Máquina ou Transformers aqui, ainda que a inspiração em Bumblebee da franquia robótica pareça uma conclusão razoável. É que o carro, caindo aos pedaços, tem um toca-fitas (sim, fitas) com vontade própria que, a cada solavanco, providencialmente começa a tocar canções que perfeitamente se encaixam ou comentam o que está acontecendo na cena sem que ninguém tenha controle sobre ele. A jogada funciona muito bem ao longo de todo o episódio, a começar pelo já mencionado uso de “Sweet Caroline”, mas pode ser que essa rotina tenha vida curta se repetida muitas vezes.

Outra coisa que tem potencialmente vida curta é a estrutura de caso da semana que parece ser o caminho a ser doravante adotado. Não gosto dessa possibilidade, mas a grande verdade é que Dex Parios é uma personagem apaixonante o suficiente para permitir que o espectador passe por cima disso e que pode render bons frutos se Smulder continuar inspirada como se mostra aqui e se os roteiros souberem extrair mais do que apenas o básico da atriz e da personagem. Como também não sei quantos episódios a temporada terá (se alguém souber, avise-me!), diria que a ABC e Richman têm um diamante bruto em Stumptown que não parece ser lá muito difícil de lapidar, mas que, perigosamente, também não é tão difícil assim de estragar.

No entanto, só o tempo dirá se a série tem fôlego para sobreviver às armadilhas impostas pelo modelo utilizado. Seja como for, Forget It Dex, It’s Stumptown é um começo sólido e surpreendentemente divertido para um material tão básico em uma TV aberta. Tomara que continue assim!

Stumptown – 1X01: Forget It Dex, It’s Stumptown (EUA, 25 de setembro de 2019)
Showrunner: Jason Richman (baseado em criação de Greg Rucka, Matthew Southworth e Justin Greenwood)
Direção: James Griffiths
Roteiro: Jason Richman
Elenco: Cobie Smulders, Jake Johnson, Cole Sibus, Michael Ealy, Adrian Martinez, Camryn Manheim, Tantoo Cardinal
Duração: 45 min.

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.