Crítica | Sua Alteza Real, de Thomas Mann

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À época do lançamento de Sua Alteza Real (1909), Thomas Mann já era um escritor respeitado pelos seus muitos contos, novelas e pelo seu estrondoso romance de estreia, Os Buddenbrooks (1901). Suas obras vendiam bastante e desde muito cedo o anúncio de um novo livro ou qualquer outra produção que estava realizando causava grande expectativa. Foi, portanto, com bastante ânimo que o público recebeu este conto de fadas meio ácido, um verdadeiro relato de transformação pessoal e social que se passa no Grão-Ducado de Grimmburg, na virada do século XX. Mas se o público em geral se animou com a saga, a crítica e uma enxurrada de futuros estudioso do autor simplesmente… olharam com frieza para a obra.

É verdade que Sua Alteza Real é bastante diferente daquilo que normalmente se espera de uma obra de Thomas Mann, e essa diferença pode ser percebida em diversos aspectos do livro: no desenvolvimento dos personagens, na maneira um tanto fantasiosa como explora alguns de seus temas favoritos (a doença e a decadência pessoal e de instituições) ou como trabalha os muitos simbolismos dentro de uma jornada realista e com fortes referências pessoais (à esposa, ao irmão, ao seu país e a algumas personalidades de sua época).

Em vários aspectos geográficos e econômicos cedidos ao Grão-Ducado, é possível ver o olhar cirúrgico do autor criticando os caminhos da Alemanha sob o governo de Guilherme II, que historicamente se provaria um governo de rupturas, quedas e decadências. Na trama, vemos uma aproximação entre a aristocracia (da qual o grande destaque é o Príncipe Klaus Heinrich) e a burguesia (representada pela família Spoelmann, com destaque para Imma, futuro interesse romântico de Klaus), dois mundos de valores e idades distintas, mas com interesses em comum na presente conjuntura histórica, fazendo com que se unam e busquem aquilo que tem de melhor para se oferecer: o garbo da tradição e importância entre pares políticos de um lado, e o dinheiro e abertura econômica com diversos novos parceiros desse jogo burguês do outro.

A velha Europa monárquica olha agora para os valores americanos renovadores. A presença da família Spoelmann no Grão-Ducado abre as portas para uma porção de dilemas que Thomas Mann explora através de delicadezas emotivas, de necessidades institucionais e de diversos tipos de simbolismo, indo de uma profecia curiosa sobre “o príncipe que com uma mão só faria mais pela nação do que todos os anteriores” (Klaus tem uma mão atrofiada…), até o uso de uma roseira para costurar diversos momentos da história e para a qual a narrativa volta de tempos em tempos, como um porto seguro e ponto de partida para um novo ato.

O leitor não é apresentado de passagem a este Universo em decadência, ao contrário, começamos de fato a entender os pormenores de todas as situações em jogo. O autor nos dá o contexto necessário para olharmos criticamente certas atitudes e ver a evolução dos personagens que sofrem mais pelo conflito de valores que por qualquer outra cosa. Bem… à exceção de Klaus, por quem temos uma profunda admiração, o que é justificado pelo tempo que passamos ao seu lado, vendo-o aprender os muitos rituais dignos de um príncipe, os valores da dinastia e do Reino e as intrigas que paradoxalmente contrastam com todas aquelas teorias pomposas para as quais quase ninguém dá muito mais atenção. E claro, para a chegada do amor em sua vida, momento a partir do qual toda a perspectiva do livro se torna mais doce, mesmo quando oposta à crise fora dessa bolha de flerte, desejo e promessas.

Em Sua Alteza Real, Thomas Mann faz uso de motivos simples para criar um mundo em transformação. A dinâmica utilizada pelo autor atravessa as muitas mentalidades individuais, encontra-se com problemas físicos e psicológicos dos indivíduos e barreiras numéricas na administração de um Estado, juntando essas situações para brincar com os “ventos da mudança”. Surgem nessa trajetória caminhos que muitas vezes parecem inocentes demais ou demasiadamente fantasiosos, mas sempre com um charme estilístico e a presença de um protagonista a quem nos afeiçoamos — e que justamente por isso nos faz aceitar o final que o autor dá para ele e para seu país (bem, pelo menos no meu caso foi assim). Não é um livro denso, nem profundamente reflexivo, mas é um daqueles que não deixa ninguém indiferente, seja pelo bem, seja pelo mal.

Sua Alteza Real (Königliche Hoheit) — Alemanha, 1909
Autor: Thomas Mann
Edição original: Neue Rundschau
Edição lida para esta crítica: Nova Fronteira (2000)
Tradução: Lya Luft
324 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.