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Crítica | Sua Última Façanha (1962)

por Ritter Fan
352 views (a partir de agosto de 2020)

Assistir Sua Última Façanha dá uma dorzinha incômoda no coração. Esse é um daqueles filmes que tenta nos mostrar que valores outrora existentes hoje nem mais nos passam pela cabeça. É um filme que opõe o moderno ao antigo e o faz de forma pessimista e fatalista e, no final, nos coloca em contemplação pensando em um outro mundo, em uma outra época.

A narrativa é enganosamente simples e já começa magistralmente com a oposição entre dois mundos que convivem aos trancos e barrancos. Uma tomada em plano geral de uma bela paisagem montanhosa e semi-desértica típica de filmes de faroeste logo nos localiza ao menos temporalmente na fita, algo que é amplificado pelo foco na égua arisca que não demora e aprendemos que se chama Whisky, além do típico cowboy John W. Burns (Kirk Douglas) ou apenas Jack, para simplificar, com direito a botas, chapéu e indumentária típicas. Essa imersão, então, é logo quebrada por um som anacrônico: motores de avião a jato em algum lugar. Mas como assim? E, olhando para o céu, Jack vê, de fato, dois aviões singrando os ares, imediatamente desfazendo aquilo que aparentemente sabíamos sobre o filme.

O contraste entre a modernidade e o passado de poucos anos atrás continua com um momento simplíssimo e genial em que Jack, montado em Whisky, tem que atravessar uma rodovia, quase sendo atropelado diversas vezes, para chegar até a casa da única família que conhece, a de sua ex-namorada Jerry (Gena Rowlands) que se casou com seu amigo Paul (Michael Kane). A longa ausência de Jack desse convívio é logo sentida pela forma efusiva como ele é recebido, mesmo que, depois, descubramos que Paul, na verdade, está para ser enviado para uma penitenciária para cumprir pena de dois anos por ajudar imigrantes ilegais mexicanos a encontrar comida e emprego do lado de lá da fronteira.

Os princípios imutáveis de Jack o levam a um único caminho: tentar tirar o amigo da delegacia onde se encontra. Mas, no momento derradeiro, Paul decide não arriscar fugir, pois ele tem uma família para quem voltar e ele teria que passar a vida toda em fuga e, se fosse pego, cinco anos seriam adicionados à sua pena. Mas Jack não tem nada a perder – as únicas coisas que o esperam do lado de fora é Whisky e a sua tão querida liberdade – e ele parte por uma fuga com a égua pelas montanhas, sendo perseguido pela equipe coordenada pelo xerife Morey Johnson (Walter Matthau), escrito como um alívio cômico leve, inteligente e elegante.

A fita não tem pressa em nenhum momento, mantendo um passo contemplativo que combina perfeitamente com o estado de espírito pacífico, mas inamovível de Jack, um homem que, ao ver uma cerca, tem o hábito de cortá-la e para quem viver no espaço confinado de uma casa – ou de uma cela de prisão – é algo completamente impensável. Ele é um com a natureza, sempre foi e pretende ser para sempre assim mesmo que a “evolução”, a chamada “modernidade”, imponha determinadas normas que até ele precise obedecer.

Kirk Douglas, então já completamente consolidado como ator, procurava seguir o mesmo caminho como produtor, ao mesmo tempo em que mantinha firme suas crenças. Uma delas era a oposição ao macartismo e à lista negra imposta a alguns artistas hollywoodianos considerados como simpatizantes do comunismo. Seu primeiro ato importante na posição de produtor foi em Spartacus, quando ele demitiu o diretor original, Anthony Mann, substituindo-o por ninguém menos do que Stanley Kubrick. Mas o épico também tinha problemas no roteiro e, para resolver isso, Douglas trouxe o roteirista Dalton Trumbo, que passara os dez anos anteriores escrevendo sob pseudônimo por não poder aparecer em Hollywood, de volta aos holofotes, prometendo e concedendo créditos corretos a ele (esses fatos pode ser vistos em Trumbo: Lista Negra, cinebiografia do escritor).

E, seguindo essa linha, Douglas, que se interessara pelo romance The Brave Cowboy, de Edward Abbey, entregou a tarefa de criar um roteiro novamente para Trumbo, que precisava lidar com problemas da obra como a justificativa para Paul, o amigo de Jack, ter sido encarcerado. No romance, ele recusa o alistamento obrigatório por considerá-lo inconstitucional, mas, como esse assunto era proibido pelo Código de Produção em vigor à época, Trumbo faz algo visionário e estabelece que Paul ajudava imigrante ilegais a se reposicionarem nos EUA. Com isso, o estabelecimento da persona de Paul, que quase não aparece na fita, o coloca muito próximo do que é o próprio Jack. Nenhum dos dois concorda com divisões territoriais, placas de “proibido” ou cercas limitando o “ir e vir”, mas Paul conseguiu criar raízes e Jack não.

A fotografia em preto-e-branco de Philip H. Lathrop, diretor de fotografia que trabalhara em Bonequinha de Luxo sem receber crédito e manteve-se parceiro profissional de Blake Edwards por um bom tempo, é estupenda. Trabalhando com grandes tomadas em plano geral em locação com a mesma facilidade que aborda espaços confinados como a casa de Jerry, o bar e, claro, a prisão, ele usa o negativo preto e branco para aumentar a impressão de anacronismo que o filme procura passar, mas sem chocar o espectador (ainda que os muito jovens, tenho certeza, acharão surreal um cowboy com chapéu, botas e cavalo em meio a automóveis) e tirando o melhor dos close-ups em Douglas.

Alias, falando em Douglas, este é, sem dúvida, um de seus grandes papéis. O diretor David Miller mantém o ator compenetrado em todos os momentos, mas ao mesmo tempo nos passando a impressão de um homem que tem plena consciência de que seu estilo de vida acabou. Ele é o anacronismo personificado, mas não demonstra rancor, raiva ou mesmo nostalgia em especial pelo passado. Seu Jack vive sua vida da melhor forma possível, tentando fugir das limitações da modernidade e seguindo seus princípios, de forma não muito diferente da própria vida de Douglas, o que torna este papel particularmente intimista para ele e memorável para nós.

O roteiro e a direção não tentam esconder o pessimismo da pegada da narrativa. Há  uma subtrama paralela que parece completamente aleatória – ela envolve um caminhão com um carregamento sanitário -, mas que já estabelece fluidamente o que veremos ao final. Jack é o último cowboy. O último bastião de um tipo de vida que as brumas do tempo levaram e que nunca voltará. Há poesia em seu fim, o que demonstra uma belíssima circularidade no roteiro de Trumbo e uma forte melancolia nas tomadas de Miller focando em Douglas e sua vida selvagem e seu amor e respeito pela bela Whisky, com suas crina e rabo brancos contrastando com o couro mais escuro. Homem e animal representam uma coisa só aqui e, na medida da progressão do filme, seu final é o único que faz sentido.

E é justamente por isso que o espectador sofre em antecipação, sofre por Jack e por Whisky. Sofre por ver um mundo que provavelmente nunca conheceu desaparecer perante seus olhos, quadro-a-quadro, sequência a sequência. Sua Última Façanha pegará mesmo o mais durão dos espectadores de jeito e não terá dó de seu coração. Um filme inesquecível.

Sua Última Façanha (Lonely Are the Brave, EUA – 1962)
Direção: David Miller
Roteiro: Dalton Trumbo (baseado em romance de Edward Abbey)
Elenco: Kirk Douglas, Gena Rowlands,  Walter Matthau, Michael Kane, Carroll O’Connor, William Schallert,  George Kennedy, Karl Swenson
Duração: 107 min.

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2 comentários

Lavreh 29 de abril de 2020 - 09:11

A mim só incomoda o desfecho: não me desce aquela atitude do xerife diante do caubói. No mais, acho perfeito. Da forma como contrapõe modelos sociais e estilos de vida à eletrizante subida da montanha, tudo me encanta.

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planocritico 1 de maio de 2020 - 16:31

Eu acho que a atitude dele faz sentido. Mas que bom que você gosta desse filme!

Abs,
Ritter.

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