Crítica | Submersão (2017)

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Submersão (2017) é um romance de caráter analítico e lírico, baseado no livro homônimo de J.M. Ledgard, lançado em 2011. Nesta adaptação dirigida por Wim Wenders, a história de amor, essencialmente dividida em dois blocos, nos faz pensar sobre diferentes aspectos da vida de pessoas que se apaixonam, mas são de Universos profissionais, pessoais e detêm valores morais e éticos imensamente diferentes, o que, no caso dos protagonistas desta obra, é um grande empecilho para qualquer esperança de final feliz.

Alicia Vikander é Danielle, uma bióloga marinha que tem uma tese de caráter matemático (?) para provar uma ideia adicional sobre a origem da vida na Terra. Ela conhece James (James McAvoy) em um hotel e ambos se engajam em um relacionamento rápido, fora dos clichês comuns do “amor à primeira vista”. James é um espião britânico que carrega a fachada de ser responsável por levar água para alguns lugares da África, tendo, supostamente, residência em Nairóbi, Quênia. No momento em que o filme acontece, os personagens estão em momentos essenciais de suas carreiras e também de suas vidas. Danielle está prestes a fazer o mergulho que passou anos esperando, para colher amostras raras em profundas camadas do Oceano. James está prestes a embarcar em uma arriscada missão anti-terrorista na Somália. Pautado o encontro entre esses personagens interessantes a partir da dicotomia de seu relacionamento, esperamos que o roteiro vá desenvolver o romance, considerando, claro, os obstáculos que pudessem aparecer. Mas não é isso que acontece.

Algumas leituras da obra podem apontar para o fato de que o roteiro de Erin Dignam é vítima de sua ambição, ao querer trabalhar tantos temas ao mesmo tempo, o que é verdade e não é. A apresentação de muitas ideias em um roteiro não necessariamente é sinônimo de uma obra atropelada, de ritmo caótico e com dinâmicas narrativas que dão nó em si mesmas, como acontece em Submersão. Daria perfeitamente para abordar profissões e momentos distintos na carreira de dois amantes, discutir pontualmente os meandros de cada mundo (a ciência de um lado e a geopolítica de outro) e mesmo assim ter um texto fluído. Mas este não é o caminho que Dignam toma em seu roteiro. A obra até pode funcionar na apresentação, ganhando alguns pontos estéticos pela inserção dos indivíduos nos espaços de suas profissões e, futuramente, em um espaço comum (o hotel e arredores), onde irão se conhecer. A direção de fotografia, a cargo de Benoît Debie (Irreversível, Love), consegue encorpar bem o isolamento de cada um e, através do mesmo escrúpulo imagético, criar um ambiente onde a resistência se quebra (ajudada pela trilha sonora) e existe uma entrega de ambos os lados, isso tudo sem clichês de paletas quentes ou intensificação sintomática de luz.

O roteiro, todavia, não acompanha esse tratamento maduro da imagem. E a tiracolo, a montagem vai em direção ao mesmo abismo. A partir do momento em que uma separação (supostamente temporária) acontece entre o casal, o texto ganha um ar de crônica que não pertence a nada que se tinha apresentado até então. Sonhos individuais acabam sendo parcialmente boicotados pela ausência de comunicação e não entendemos qual é o real propósito da obra, visto que cada um filosofia, diz frases bonitas e são expostos a diversas provações sem que nada de novo ou dramaticamente sólido aconteça em favor do filme. O bloco da Somália é o que mais sofre nesse sentido. A despeito dos esforços de James McAvoy e do elenco de apoio, a missão passa batido, abrindo-se em diversas possibilidades que não se concretizam, caindo na armadilha de romantizar a dor de um espião com base em um amor recente. Como se fosse necessário o sofrimento para justificar as ações de “entrega” do personagem. É até risível, se pensarmos no verdadeiro significado disso dentro do filme.

Sem dar conta do escopo político ou ideológico e tratando muito mal os aspectos líricos que permeiam a relação em jogo, sobra pouquíssima coisa de Submersão para elogiarmos. A assinatura de Wenders de nada adianta nesse processo. Como não existe unidade ou coesão no enredo, fica difícil ver a direção entregar algo positivo pelo menos a médio prazo, o que é inconcebível para um filme de um diretor do porte de Wim Wenders. Os bons momentos, nesse aspecto, seguem em companhia da direção de fotografia, com ótimas panorâmicas sobre paisagens, mas é só isso mesmo. A burocracia do roteiro acaba impedido qualquer coisa mais interessante que poderia vir do diretor, fazendo de Submersão um filme que depois de nadar intensamente, com um propósito alardeado aos quatro ventos, morre, miseravelmente, na praia dos maus enredos.

Submersão (Submergence) — Alemanha, França, Espanha, EUA, 2017
Direção: Wim Wenders
Roteiro: Erin Dignam (baseado na obra de J.M. Ledgard)
Elenco: Alicia Vikander, James McAvoy, Alexander Siddig, Jannik Schümann, Reda Kateb, Celyn Jones, Jess Liaudin, Mohamed Hakeemshady, Godehard Giese, Harvey Friedman, Andrea Guasch, Clémentine Baert, Alex Hafner, Thibaut Evrard, Adam Quintero
Duração: 112 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.