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Crítica | Succession – 3X01: Secession

Formando o Conselho de Guerra.

por Ritter Fan
1.631 views (a partir de agosto de 2020)

  • spoilers. Leiam, aqui, as críticas das demais temporadas. 

Com razoável atraso em razão da pandemia e com a baixa de um episódio, totalizando nove, a 3ª temporada de Succession começa com o inteligentemente intitulado Secession, que parece marcar de vez a linha que separa o magnata Logan Roy de seu filho Kendall, depois que este último, ao final da temporada anterior, desobedece as ordens paternas e, no lugar de assumir a culpa pelo escândalo dos cruzeiros da empresa, diz com todas as letras que seu pai sabia de tudo e fez esforços para acobertar os crimes. O capítulo de abertura começa não muito tempo depois da coletiva de imprensa em que Kendall fez a revelação, com ele, em Nova York, tentando cercar-se de conselheiros de guerra, por assim dizer, com o pai e demais membros da família, executivos e agregados ainda na Europa tentando escolher a melhor estratégia.

Como acontece muito na série, Secession é um daqueles episódios em que o espectador inspira no minuto inicial e só vai se lembrar de expirar quando os créditos finais começam a rolar, já que a direção de Mark Mylod, seguindo a pegada semidocumental que a câmera levemente tremida da série estabelece, parece tratar todas as sequências como se fossem longas tomadas ininterruptas. Não são, que fique bem claro, mas Mylod usa sua familiaridade com a série e sua verve como cineasta para trabalhar uma decupagem que não diria que chega a ser frenética, mas sim que ela consegue perfeitamente passar a ansiedade e excitação que Kendall sente da mesma maneira que consegue por vezes parar e deixar o espectador sentir e “ouvir” os pensamentos do patriarca da família lidando com o caos que imediatamente se forma ao seu redor e, claro, com a eterna questão de quem o sucederá já que sua primeira decisão é temporariamente afastar-se como presidente da Waystar-Royco, mas deixando claro que continuará manipulando tudo por trás.

O roteiro do criador e showrunner Jesse Armstrong dá a vitória, nesse primeiro round, justamente a Kendall que, com a vantagem de estar em seu ambiente, sua cidade, consegue arregimentar uma equipe de relações públicas, além da cobiçada advogada Lisa Arthur (Sanaa Lathan), amiga de Shiv que, um pouco antes, tenta contratá-la, falhando miseravelmente e, com isso, perdendo sua chance de ser a presidente interina, cargo que vai para Gerri. Jeremy Strong, ator com quem tive dificuldade de me adaptar no papel que lhe era exigido, desenvolveu-se muito ao longo da temporadas e, ao final da 2ª, encontrou o equilíbrio perfeito entre o filho frágil e submisso e o executivo ambicioso e capaz de fazer o que for necessário para conseguir o que quer. É essa segunda persona dele que se mostra a dominante nesse começo de temporada, o que faz sentido já que ele está surfando no efêmero “sucesso” por ter feito algo contra o pai de um lado e por passar a ser visto com outros olhos pelas pessoas, por outro. Mas, como sabemos, essa segurança toda, que, aliás, já mostra que não é tão forte assim em seu embate passivo com a ex-esposa Rava, em cujo apartamento monta seu quartel-general, não deve durar muito tempo e ele deverá passar maus bocados muito em breve.

Seja como for – e sei que é chover no molhado – mesmo do lado momentaneamente perdedor, é impressionante ver como Brian Cox vive seu personagem. Na falta de uma palavra mais técnica, o ator é um monstro (aliás, seu personagem também, só que em outro sentido), alguém que é capaz de passar uma variedade de sentimentos apenas sentado olhando para uma pista de decolagem, alguém que, mesmo em segundo plano em uma cena, comanda presença de tal maneira que por vezes é até difícil prestar atenção nos demais membros do elenco, por melhores que eles sejam (e são!). Sem sequer levantar uma sobrancelha, Cox constrói um Roy que até nem fala muito neste episódio, mas que é um misto de orgulho pelo que o filho fez, reconhecendo a coragem e independência dele e de confiança de que não será necessário muita psicologia para fazer ruir essa fachada de grande executivo. É interessante como podemos ver essa conclusão nos olhos do pai e como o roteiro usa Roman (Kieran Culkin continua muito, mas muito bem em seu papel) para verbalizá-la no momento em que ele, discordando de Shiv, decide sugerir a estratégia de jogar o irmão na fogueira.

Falando em Shiv, ela não tem um descanso sequer, pela segunda vez chegando na boca de chegar à posição que almeja somente para o pai colocar outra pessoa no lugar. Sarah Snook vive sua personagem como a única dentre os filhos de Logan que ainda consegue manter um resquício de decência, a única que conseguimos imaginar que, como presidente da empresa, talvez – um talvez distante, mas mesmo assim um talvez – tratasse do assunto de maneira minimamente ética e responsável, sem ser completamente subserviente ao pai. Mas calma, pois Shiv não é boazinha. Nem de longe. Aliás, ninguém é nessa série, nem mesmo o aparvalhado do Greg, mas ela é como aquele candidato a algum cargo público em que votamos porque é o “menos pior”, para fazer um paralelo eleitoral, porque nos forçamos a achar que ela é quem fará menos imoralidades.

Portanto, com Secession, Succession continua a lidar exemplarmente com o lamaçal dos ultra ricos sem seguir o caminho mais fácil, que seria o de eleger um “herói” por quem podemos torcer. Se a torcida existe, ela provavelmente se deve às atuações – eu sou #teamlogan até o fim por causa do Brian Cox, por exemplo – desse mais do que azeitado elenco que, com um trabalho técnico comandado por Armstrong, conseguiu lidar com o “dia seguinte” da revelação de Kendall quase dois anos depois sem qualquer solução de continuidade visível e, mais importante ainda, sem desviar o propósito da série. Só que, claro, nas guerras entre os Roys e dos Roys contra o mundo, só existe mesmo um verdadeiro perdedor, o mesmo de todas as guerras…

Succession – 3X01: Secession (EUA – 17 de outubro de 2021)
Criação: Jesse Armstrong
Direção: Mark Mylod
Roteiro: Jesse Armstrong
Elenco: Brian Cox, Jeremy Strong, Sarah Snook, Kieran Culkin, Alan Ruck, Nicholas Braun, Matthew Macfadyen, Peter Friedman, J. Smith-Cameron, Natalie Gold, Justine Lupe, Sanaa Lathan, Hiam Abbass
Duração: 57 min.

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