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Crítica | Sucker Punch: Mundo Surreal – Versão do Diretor

por Iann Jeliel
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Sucker Punch

  • Confira aqui, a crítica de outro colunista da versão dos cinemas.

Versão estendida não “salva” filme ruim. Se ele já tem problemas, é possível até corrigi-los numa extensão de corpo de duração, colocando ou retirando uma ceninha ou outra para melhorar um contexto maior, trocar de filtro para deixar sua identidade mais regular, porém essencialmente, a ideia cerne do filme sempre irá persistir, não importa o quanto de coisa a mais se adicione para tentar mudá-la – certo Liga da Justiça de Zack Snyder?

Diante dessa afirmação, antes de analisar essa “versão do diretor” – como se o original já não fosse a coisa mais autoral para o bem ou mal, do Zack Snyder – de Sucker Punch: Mundo Surreal, preciso admitir primeiro, que não gostava nada do filme quando vi a primeira vez. Coisa que aconteceu faz um tempo considerável, tanto que não lembrava mais de praticamente nada dele. Por questões obvias, optei por não o rever desde então, e continuou assim, para o cenário desta análise. Portanto, já fui direto para a versão estendida que me ajudou a recuperar a memória do original a ponto de afirmar com convicção, que a minha percepção do filme em geral melhorou, independente dela. Ainda que, em termos comparativos, existam sim, as diferenças (classificação indicativa agora é para maiores, ou seja, esse é mais violento), melhorias e as piorias de uma para outra, onde o que o filme já tinha de bom melhor e do que tinha de pior, piorou.

Estudando as diferenças para os pontos positivos, temos boa parte dos 17 minutos acrescentados são destinados a pontuais melhorias na ação das sequências do tal “mundo surreal”, que se assemelha figurativamente a fases de um jogo de videogame da cabeça criativa do Snyder. Ainda são cenas sem muito critério logístico, mas dentro da narrativa, por serem parte de uma terceira camada conceitual, funcionam justamente pela liberdade visual proposta. Analisando hoje, a aleatoriedade daqueles videoclipes na trama me soa algo positivo, pois são os momentos em que a narrativa consegue ser importante na despretensão, tornando-o as outras duas fossem apenas bases para torna-la um ambiente ideal, onde o Snyder pode se soltar e entregar o que ele tem de melhor: a ação artificializada e estilosa.

O excesso de computação gráfica e referências jogadas em tela não se tornam um problema, porque dentro daquela bolha, qualquer coisa possui a verossimilhança dada ludicidade de um gameplay. A falta de critérios só parece deixar a ação mais inventiva e não um enxerto de coisas que o Snyder adora inserir para deixar o filme mais “denso”, principalmente porque nessa época o diretor ainda era pragmático na direção, controlando seus vícios característicos de estilo, como câmera lenta, violência sombria e musicalidade, dosando entre os momentos realmente oportunos para aparecerem e potencializar aquele entretenimento particular. E de fato, o Snyder parece estar se divertindo com a mistureba conceitual que criou. Algo que por exemplo, o recente Army of the Dead, não conseguiu fazer. Nessa época o diretor ainda não havia mergulhado totalmente na neura egocêntrica. Ele queria fazer algo para ele próprio, sim, mas sem uma necessidade de autoafirmação. Consequentemente, trazendo uma diversão honesta para quem comprou a jornada do inicio.

Há de se questionar, claro, os pormenores do desenvolvimento dessa jornada na articulação geral da narrativa. Especialmente no final, onde se localiza alguns dos graves problemas do filme. Não tem jeito, o Snyder não consegue evitar e tenta se levar mais a sério do que pode ou precisa, fechando algo que intencionalmente passa a querer ser supercomplexo, com a mesma objetividade conquistadora do exercício particular anterior. Pelo menos, isso demora de acontecer em Sucker Punch e quando acontece passa rápido, quase abruptamente, dando um efeito de que o filme não quer se explicar muito mesmo, só trazer um fechamento sentimental a história, por mais malfeito que seja. No entanto, a versão estendida piora esse final, ao adicionar duas cenas longas querendo expandir os horizontes do final em “aberto”, ainda dando explicações dos conectivos entre os três mundos mentais apresentados.

Não só fornece mais material a quem acusa o longa de uma sexualização esdruxula das personagens – algo que particularmente, não vejo como problema, porque é mais um artificio visual para a ação, mas que na cena nova, pessimamente inserida com o Jon Hamm, é uma reclamação bastante plausível –, como leva a importância narrativa, que antes parecia ser na fantasia gamificada livre, para esse lugar mais sóbrio, dramático, reflexivo e simbólico do abuso feminino e suas consequências do transtorno mental. Se tivesse um diretor com mais habilidade e conhecimento para trazer a densidade temática da superfície, talvez as interessantes viradas propostas por Snyder, funcionariam melhor, pensando em exercício de gênero, mas fica difícil quando ele – repetindo o que fez em Army of the Dead – leva isso para um lado quase poético. Até dava para funcionar se o filme não adotasse as três camadas mentais de forma literal. Sem a diferenciação, ficou difícil a amarração do raciocínio em uma unidade, que já estava coerente, enquanto o quarteto de garotinhas indefesas badass, somente eram personificações avatares do jogo da premissa.

Mesmo com essas problemáticas, em comparativo ao que o Snyder se tornou, conseguir simpatizar mais com Sucker Punch agora. Retificando, não por conta da versão estendida, mas sim por repensar sobre o que achava do filme em si, através dela. Para quem se arriscar a assistir, não espere grandes mudanças no filme, ou da sua impressão geral sobre ele – a depender do quão familiarizado esteja com sua experiência inicial. Como sempre costumo falar, versões estendidas/versões de diretor não são um filme novo, mas sim um complemento de algo que essencialmente está pronto como ideia e não irá mudar radicalmente por acréscimos de minutos. No máximo, só retificarão mais a visão do diretor sobre sua obra, que é somente uma, das igualmente válidas, visões de qualquer um acerca do material artístico quando solto no mundo.

Quero ver quando o redundante Snyder, vai aprender isso. Pelo jeito, nunca né? Já que está rolando por aí, campanha para um “Sucker Punch do Zack Snyder”. Que se acontecer, diferente dessa, dificilmente vai ser querer somente um novo e inocente complemento a primeira versão, mas sim “outro filme”, noutro exercício para ele malhar seu egocentrismo inseguro. Torço para o dia que ele consiga terminar seus filmes, numa tacada só.

Sucker Punch: Mundo Surreal – Versão do Diretor (Sucker Punch Director’s Cut | EUA, Canadá, 2011)
Direção: Zack Snyder
Roteiro: Zack Snyder, Steve Shibuya
Elenco: Emily Browning, Abbie Cornish, Jena Malone, Vanessa Hudgens, Jamie Chung, Carla Gugino, Oscar Isaac, Jon Hamm, Scott Glenn, Richard Cetrone, Gerard Plunkett
Duração: 127 minutos

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