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Crítica | Summerland (2020)

por Davi Lima
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No cinema, muito se discute sobre o discurso literário e sua transposição para o discurso audiovisual, questionando-se até que ponto o trabalho cinematográfico não se torna apenas redigir um texto dramático, sem muito esmero, nas composições de um filme além do seu tema e conexões discursivas, ou preocupação com espaço e tempo na narrativa. Essa discussão pode ser trazida para o primeiro longa-metragem da diretora e roteirista Jessica Swale. Na experiência com a obra dela, evidencia-se muito mais um objeto literário sobre representatividade social e crença simbólica dentro da história, com ações fílmicas para trabalhar tematicamente a mulher social, do que valoriza o drama audiovisual e geográfico de uma trama de teor fideísta em meio ao contexto histórico da Segunda Guerra Mundial e de costumes britânicos mitológicos, que acabam por se tornarem artificiais.

O filme, de fato, parte de um objeto literário para iniciar sua história, assim como torna-o a suspensão de descrença, ou até mesmo uma justificativa para eventos convenientes como efeito dramático. A protagonista, Miss Lamb, é uma escritora de dois tempos, um em que já é idosa e outra na juventude, onde em ambas épocas a conexão é algum texto datilografado, ou algum registro de pesquisa. Soa até como um ambiente realista com teores de conto de fadas, em que uma personagem vive sozinha e isolada da vila de uma ilha britânica, perseguida por crianças ao ser tachada de bruxa. Até mesmo a caracterização da atriz Gemma Arterton incita o espectador a vê-la como alguém mais velha que sua idade, e especialmente o visual “sem maquiagem”. Nesses pontos, junto com a trilha sonora animada, numa montagem rápida e uma reatividade negativa de personalidade da protagonista Alice na vila, o filme esclarece um instinto suave e cômico, como algo transcrito para a tela, numa introdução literária de uma personagem em medidas objetivas, mas esmaecidas pelo audiovisual.

Se não bastasse isso, a introdução incisiva, sem muita explicação, de uma criança na trama como centro dramático dessa quebra introdutória, vai acelerando o filme dentro de sua proporção “clichê” da transformação de uma mulher isolada, solteira e escritora, ter o desafio de servir como mãe durante a Segunda Guerra, quando crianças londrinas eram evacuadas para o interior. Além disso, a tal ideia de uma bruxa no imaginário infantil, incentivada pelo preconceito dos adultos de uma mulher “solteirona” que traz o teor fabuloso e extremamente sutil, começa a ganhar discurso feminista pelas leituras arturianas sobre a Dama da Água e de outras personagens femininas da literatura clássica citadas; uma espécie de mitologia sobre o feminismo, outrora na literatura, num imaginário científico de Alice Lamb.

A roteirista Jessica Swale começa a propor em sua trama, inicialmente suave e objetiva, visões sobre a opressão da sociedade conservadora inglesa em que o criar sem pendor da criança chamada Frank, as conversas de um diretor de escola e os comentários de idosas, em um curto espaço de tempo, permutam a história para uma visão problematizante da tal introdução cômica. Nisso, a diretora consta ritmo, mas sem expressar além da curta edição as conexões para tal mudança de percepção sobre qual visão o filme quer passar, valorizando muito mais diálogos que extrapolam o tema de uma mulher pesquisadora de castelos voadores e de um céu pagão como objetivo de ser aceita socialmente. As ações fílmicas de personagens se movimentando e se interligando com outros personagens não passam de reduções de um texto literário descritivo que se torna audiovisual. Embora o longa-metragem não seja adaptação de nenhuma obra literária, o tratamento da diretora busca sempre algo sucinto, de um prolixidade inexistente, nem visual, nem textual, e muito menos de um desenvolvimento protelador para efeito dramático posterior. 

Em rápidas mudanças climáticas da trama com a mesma base de uma suavidade, que permanece no tratar do tema relevante de uma feminilidade auto suficiente, se revela com indícios de exigir do espectador algo simbólico na dimensão de uma mulher e uma criança na fé de um vislumbre científico, de uma refração específica no céu. Quando só um dos personagens enxerga, como princípio de um conflito de crenças, na verdade fomenta-se mais uma outra parte da temática simbólica implícita, em que o efeito conflituoso entre Mr. Lamb e o garotinho Frank parece proposto para ser rápido na edição de cenas, sem a intensidade que as atuações parecem clamar por atenção. Esse assunto sobre simbolismo e a ciência ainda por cima não se torna mais contextual nem pueril; é, na verdade, mais dependente de uma noção literária do drama envolto de conexões dramáticas. Embora pareça um fervor de desenvolvimento no quesito de equilíbrio de emoções para deixar melhor para o final, quando o espectador se atenta à transição de cenas e de emoções, parece mais uma página virada literalmente que trouxe uma informação ao leitor do que uma junção de imagens cinematográficas para quem assiste um filme.

Não que a obra imprima desonestidade ao abordar enfaticamente em sua primeira hora veloz em transição mutacional de humor entre os personagens; em verdade, é um artifício temporal, e mais uma vez literário, conseguir fundamentar sem ambiguidade visual onde seu tema feminista busca alcançar. Com flashbacks intercruzados, que junto com algumas cenas mais longas que exigem uma interpretação mais perdurante da atriz Gemma, são os apelos dramáticos audiovisuais mais claros, a representatividade feminina alcança a comunidade LGBTQI+, arranjado numa sororidade consequencialmente romântica no filme. Eis o fator emblematicamente dramático que o filme de fato queria alcançar, em que é o gancho inescapável de ouvir verbalmente a aceitação de um romance lésbico dentro do longa. Em meio ao processo de uma “bruxa” pré-conceitualmente chamada assim por crianças, em que uma criança aparentemente surge “do nada”, ela se torna o objeto, ou personagem, chamado Frank, em centro discursivo primordial de incutir um formato de família de uma mulher que amava outra, mas a parceira amava mais a maternidade como sonho. Assim, a diretora busca a conexão dos castelos voadores, do céu Summerland que dá nome ao filme, ao destino trilhado pela composição sonora do filme para um melodrama de guerra.

Esse tal ponto mais visual, de castelos criados por refrações da luz e da crença mitológica sobre eles, no qual a diretora alcança seu auge de transposição audiovisual, é a fé da diretora por alguns segundos que a imagem é capaz de dramatizar seus personagens virados para o céu digitalmente transformado com realismo. No entanto, isso também é a esperança induzida para proporções de uma virada dramática conveniente demais, embora conectada paulatinamente nos discursos literários plantados em uma montagem objetiva e talhada explicitamente para o tema, não o trabalho visualmente envolvente.

A aproximação concreta é com o apelativo, mesmo que não em termos negativos aqui, da representatividade, em vista que é a fala visual mais desenvolvida como noção aguda e melodramática da obra. Porém, em geral, todo o resto se torna artifício, não sintético, mas explanado em imagem, não interpretado por quem dirige. Nisso que consiste o envolvimento, mesmo que a centralização literária até soe natural do filme, seja como memória de escrita de Miss Lamb entre dois tempos propostos pelo datilografar, ou até mesmo para preservar conexões firmes sobre o feminismo; como uma menina, chamada Edie, ser uma criança que tangencia constantemente uma moral social como efeito de revelações na história.

Apesar disso, todos os termos que a diretora Jessica provoca como discussão interna entre Alice e Frank com caráter simbólico, realmente mitológico e fideísta numa linguagem realmente realista de filmar personagens e narrativa, se atenuam fortemente pela própria naturalidade que a diretora tenta propor da sua transcrição literal do seu roteiro na edição e montagem. Quem parece sofrer muito com isso é o ator Lucas Bond, que interpreta Frank, exatamente por reagir mais à protagonista e ao extra campo de pessoas conservadoras contra ela, e a edição em objetividade querer captar isso como suficiente de seu teatro. Ainda assim, por ser um filme realista, mesmo que meloso em anseios conclusivos de sua história, o ator, assim como Gemma Arterton, Gugu Mbatha-Raw e o resto do elenco, consegue se expressar em vista que a diretora, talvez em sua maior qualidade, seja extrair de maneira proveitosa atuação de atores.

Afinal, Jessica Swale parece derrapar, no olhar mais longo do audiovisual, em suas propostas discursivas e de longa duração. Inegável sua atenção para temáticas necessárias a serem problematizadas, e de ser expoentes singelos de representatividade, independente das discordâncias sociais com os temas. Há um vislumbre literário aconchegante ao discutir em meio à Segunda Guerra Mundial, e até audiovisual também, mas sem uma compreensão precisa, assim como o roteiro aparente, da extensão das dimensões do escrito para o gravado. Mesmo que haja conexões facilitadas pelos intérpretes e o ambiente de locação, a linguagem cinematográfica anseia por uma temporalidade espacial profunda do mesmo que se mostra no universo desse filme, seja num melodrama, seja no filme essencialmente representativo. 

Summerland (Summerland) – Inglaterra, 2020
Direção: Jessica Swale
Roteiro: Jessica Swale
Elenco: Gemma Arterton, Gugu Mbatha-Raw, Penelope Wilton, Tom Courtenay, Lucas Bond, Dixie Egerickx, Amanda Lawrence, Siân Phillips.
Duração: 99 min.

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