Crítica | Super 8

Eu sei que é sua câmera, senhor, mas tecnicamente, esse é meu filme.

Charles Kasnyk

Na oportunidade do diretor J.J. Abrams fazer seu filme em homenagem a Steven Spielberg, ele também exercita, no cinema pós-moderno, a revitalização do drama familiar com o típico suspense alienígena, usando uma interface metalinguística que a câmera Super 8 proporciona para o filme alcançar a conjugação do mundo infanto-juvenil com o universo militarizado de invasão extraterrestre.  

Quando se conhece melhor a filmografia de Steven Spielberg, é possível compreender sua linguagem de encantamento para os temas tratados em seus filmes. Recursos como zoom, gradualmente usado em rostos que olham para o horizonte, escondem do espectador a perspectiva frontal, limitando apenas à perspectiva do personagem que observa algo. Outro recurso é com um movimento de câmera chamado dolly, quando há uma dramatização do contexto e lugar, um tipo de zoom sem mexer na lente, apenas nos trilhos em que a câmera se movimenta, levando quem assiste ao filme a uma aproximação do local em que haverá uma ação determinante na narrativa. O diretor J.J Abrams não apenas utiliza a mesma forma técnica de maneira mais ágil como também homenageia Spielberg pela história que conta. A temática familiar como centro dramático do filme e a trilha sonora melancólica/esperançosa do compositor Michael Giacchino, que reafirma esse centro repetidamente, humanizam o suficiente para que o fantasioso seja válvula de escape e o suspense caminhe para contribuir na ressignificação do conflito do tema. 

Dessa forma, pode-se lembrar de Contatos Imediatos do Terceiro Grau e E.T. de Steven Spielberg, mas apesar de semelhanças, Abrams utiliza o deslocamento temporal (1979), que remete ao mesmo espaço temporal desses filmes de Spielberg, para possibilitar sua narrativa ambivalente em nostalgia fílmica e atendimento a anseios mais contemporâneos. O foco do filme parece ser um acidente de trem, em que alguns garotos e uma garota (Elle Fanning) presenciam por estarem gravando seu filme de zumbi com uma Super 8. Mas quando se entende nas primeiras cenas do filme que a mãe do protagonista Joe Lamb (Joel Courtney) trabalhava em uma metalúrgica e cuidava do filho enquanto o pai era subdelegado da polícia e vivia fora de casa, compreende-se a proposta pós-moderna de retratar uma mulher em um ambiente de trabalho com maioria masculina, assim como uma mãe atenciosa. J.J enfoca em verdade nesse drama familiar, concedendo um mistério quanto a interpretação de uma tragédia envolvendo Elisabeth Lamb (Caitriona Balfe), mãe de Joe, e colocando os homens adultos de seu filme em posições frágeis, em que precisam se provar autossuficientes, seja em seus empregos ou por ausências de mulheres em casa para cuidar de seus filhos. É nessa situação que o grande suspense do monstro escondido é usado como artifício visual, alavancando principalmente os dramas entre Joe e seu pai Jackson Lamb (Kyle Chandler).

A partir dessa nova dinâmica familiar, principalmente se comparada a de E.T. – em que o pai é quem na verdade desaparecia na história daquele filme – a tarefa autoral do roteiro de Abrams começa a ser colocada à prova. Os adolescentes, ao trazerem à tona a gravação de filmes, com a especificação criativa de cada integrante, colocam em pauta o exercício de conexão de um mundo miniaturizado para efeitos especiais e o valor de produção do mundo real. Ou seja, um reflexo do mundo deles no subúrbio de Ohio em comparação ao mundo aparentemente cinematográfico de eventos descomunais envolvendo militares, explosões, armas e mortes de verdade e não falsas como no filme de zumbi que eles constantemente aparecem gravando dentro do filme Super 8. É nisso que consiste o revitalizar do drama, pois é das relações familiares tratadas no filme de maneira mais particular que a metalinguagem transforma tanto o drama, como permite o alcance mais interligado da melancólica situação familiar ao suspense de invasão alienígena.

Por isso pode-se perceber como o diretor usa conexões objetificadas para usar sua metalinguagem como interface. O carro que é mostrado no prelúdio dramático – sobre o acidente com a mãe de Joe – é, também, o utensílio para o engate da aventura dos adolescentes de gravar o filme. Na ação da Super 8 no filme existe tanta a captação da atuação de Elle Fanning como personagem Alice, como também a esposa do detetive no filme de zumbis. Nesse processo, há dois gatilhos: o primeiro para o drama circunstancial, causado pela atuação multifuncional de Alice que emociona Joe e seus amigos, o segundo para relembrar o drama prelúdio, pois há uma esposa pedindo atenção ao marido de cargo investigativo – semelhante ao pai de Joe -, e o terceiro para a preparação do suspense, quando um trem passa pelo cenário da gravação, um valor de produção literal, como diz o juvenil diretor Charles (Riley Griffiths).

Ao longo da narrativa, além de Alice, que serve como atriz, Joe como maquiador, Cary (Ryan Lee) como projeto de Michael Bay com efeitos práticos de explosões, Preston (Zach Mills) como captador de som, Martin (Gabriel Basso) como intérprete do detetive de zumbis e Charles como diretor, todos os integrantes servem minuciosamente para a progressão da história. No caso de Joe, Alice e Charles, suas funções são reflexo de suas personalidades dramáticas e interações que injetam a problematização da puberdade, esfera controlada se comparada a um ambiente caótico que a cidade (Lillian) deles se transforma.

Como é de praxe em filmes de invasão extraterrestre, ou de mistério com alienígenas, o governo, por meio dos militares, torna o sigilo em insegurança, enquanto ataques diretos e indiretos à população ocorrem. Assim como a função dos garotos na produção do filme, a função profissional do pai de Joe como policial influencia da mesma forma no interligar do contexto maior de caos social – que um policial deve proteger – como no contexto familiar, que ironicamente como pai também deveria proteger o filho. Então, na busca de proteção, de superação da perda da mãe, ele é maquiador de sua realidade, o que faz trens de brinquedos e carrega a lembrança de sua mãe a todo momento no bolso, uma espécie de mcguffin – objeto que move parte da narrativa, mas é irrelevante em boa parte do tempo – que J.J Abrams utiliza em seus roteiros. Mais uma objetificação do drama, assim como o carro, mas agora de maneira mais explícita e por vezes tão reincidente que soa simplista demais em proporção à sutileza que organiza o drama do filme  

E assim como o filme constantemente se rearranja para que a realidade verdadeira venha a ser trabalhada, seja em retomar o drama familiar, no aparecer do ser misterioso, ou com a interface metalinguística de fazer um filme de zumbis, Alice e seu pai Louis (Ron Eldard) são a conexão final que o diretor alcança a humanidade que submete toda a sua trama.

Alice não é uma mera paixonite adolescente e Louis, um pai irresponsável ou frágil sem a esposa. O casting de Elle Fanning se torna precioso pois a atriz carrega o trabalho difícil de trazer Joe à realidade de maneira convincente. Ela precisa interpretar seus personagens nos filmes dos garotos e sua própria personagem Alice que, em conjunto, faz a realidade maquiada de Joe ser real, que ele se importe novamente com sua vida, como sua mãe aparentemente lhe causava. Joe não permite que seu trem de brinquedo seja destruído e toma a iniciativa de resolver o mistério do filme. Da mesma forma, quando Louis vê o monstro e se mostra enlouquecido, isso também se torna conexão à realidade da invasão que Joe passa a acreditar, quando conversa com pai de Alice . Enquanto seu pai, Jackson, precisa entrar no gênero de ação, assim como nos filmes do filho, para entender a realidade, se travestir de militar para assumir o papel de pai. Desse modo, a interface da metalinguagem vai se esvaindo até Abrams entregar um filme de invasão extraterrestre, principalmente quando o diretor Charles confronta o maquiador que conquistou a garota e fica de fora da ação para cuidar de Martin, seu ator protagonista.

Por fim, se torna um filme sobre conexão emocional em si, que até o alien consegue sentir. E o resultado de que tudo não passa de um acidente, um fato fatídico. Na verdade, isso não torna o filme de conclusão aleatória, e sim de que as coisas não acontecem por acaso, embora não se discuta sobre as transformações. Tais mudanças são exercitadas na imagem, objetos e funções de roteiro que podem até “tecnicizar” o filme pretensamente intimista de J.J. Abrams; porém, em seu espírito “spielberguiano” de inocência é que sua tal técnica modernizada inspirada em Spielberg é um espelhamento do filme como um todo. Os zoom e a captação de olhares que se abrem para uma nova realidade, ou melhor, para a verdadeira realidade.

Super 8 (Super 8) – EUA, 2011
Direção: J.J. Abrams
Roteiro: J.J. Abrams
Elenco: Joel Courtney, Ryan Lee, Zach Mills, Riley Griffiths, Gabriel Basso, Elle Fanning, Kyle Chandler, Ron Eldard, Glynn Turman, Caitriona Balfe, Noah Emmerich.
Duração: 112 min.

DAVI LIMA . . . Depois de uma onda de experiência na infância com Terror e Comêdia Romântica ao lado da irmã cinéfila, fui transferido para uma Galáxia Muito Muito Distante, Há Muito Muito Tempo Atrás. A Força conhecida inspirou comentários sobre várias obras artísticas, porém foi preciso ter um contato com alienígenas de uma língua circular e entender que existe brasilidade em Star Wars que compreendi que o fracasso é o melhor professor para melhorar a argumentação. Então Roger Ebert ensinou que o cinema é uma máquina de empatia e Hans Rookmaaker mostrou que a estética vem do Divino. E cá estou aqui, tentando entender os mistérios da forma e do conteúdo para formar a arte, e estudando como pesquisar e lecionar História para compreender como a temporalidade faz mais obra prima que textos críticos. Sempre firme e forte para duvidar de um filme, até mesmo se for do Steven Spielberg, e apreciar o audiovisual na mesma medida.