Crítica | Superação: O Milagre da Fé

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Deixe que nosso filho lute pela sua vida.

Filmes gospel são cinematograficamente conhecidos por se limitarem a um linguajar tipicamente recitado para o público de sua doutrina, distanciando-se de uma conexão arbitrária mais universal dos dilemas da fé, que para quem pratica ou não religiosidade é sempre muito relacionável, principalmente nos momentos de risco à vida. Em vez disso, escolhe-se o caminho de uma romantização e apelo gráfico de que o subjetivo irá resolver tudo no fim, validando o seu movimento religioso. 

Superação – O Milagre da Fé tem até méritos de se distanciar um pouco desse discurso dogmático, e de certo modo, participa de uma crescente evolutiva que esses filmes vêm tendo nos últimos anos, acompanhando a reforma católica de Francisco e modernizando alguns conceitos, além de em pequenos elementos buscar um status “pop” para atingir outros horizontes de admiração, fora a considerável evolução técnica, apresentando atores de mais calibre e um refinamento mais detalhista de elementos cênicos. Contudo, todos esses méritos, nesse caso, ainda ficam muito na intenção e não dialogam diretamente com a unidade religiosa ainda tradicional e superficial do filme. 

O roteiro segue a cartilha estrutural batida dos efeitos sobrenaturais nos personagens ao redor da vítima. Apresenta-se uma série de personagens que se comunicaram com John Smith pouco tempo antes de sofrer um acidente no lago, para a partir daí, justificar pouco a pouco o efeito cascata da comoção gerada em torcida pela sua recuperação improvável. Em busca de elaborar esse sentimento com realismo, o texto encontra o caminho inverso, já a princípio não consegue nem sustentar o background dramático dos personagens, que se mostram com falhas de mais para serem aceitáveis, e de uma hora pra outra, ressentirem e demonstrarem todo tipo de compaixão pela tragédia.

O mais problemático é o que o texto até tenta mostrar o falso pragmatismo de algumas dessas pessoas, seja duvidando que o melhor pode acontecer, ou a compaixão mais criada pela culpa de não o ter tratado bem na escola, mas na narrativa, parecem cenas deslocadas que não ajudam a comunhão da verossimilhança, mesmo com a facilitação de estar “adaptando” fatos. A coragem do roteiro só vai até certo ponto de comodidade, preferindo arriscar no mais do que no eficiente, pois ao atirar para todos os lados, existem, em especial, dois arcos diretamente críveis dentro dessa mescla com o realismo, no caso as tramas dos personagens de Mike Coulter e Topher Grace, que essencialmente não funcionam tanto só por serem restritos a poucos minutos e encaixados ali como mais um. 

Mesmo assim, dá para aproveitá-los bem isoladamente, principalmente como conflitos, o primeiro, um clichê do ateu questionado, e o segundo, um pastor moderno de métodos que incomodam a mãe da protagonista, que aos poucos vai se desvinculando do preconceito (algo que muitos religiosos tradicionalistas ainda têm com esse tipo de pastor), à medida que ele vai fornecendo a ajuda no tratamento, criando um laço sincero e envolvente de amizade. Inclusive, o próprio drama materno do filme tem um bom sustentáculo, além de uma interpretação gestualmente controlada de Chrissy Metz, o roteiro expõe as dificuldades ideológicas entre ela e o marido ao lidarem com essa situação, por mais raso que seja, dentro da ideia do realismo, é um ponto de ajuda para a ideia da desvinculação.

Fechando essa linha, um último ponto importante a citar são as músicas, que corroboram didaticamente para o público médio compreender o novo status “pop” do pragmatismo. Tanto as criadas para o filme, assim como as inseridas pensando em ritmar melhor o evento, são colocadas para explicar a aceitação de diferentes modos de religiosidade ainda na lógica da crença. Em outras palavras, o filme quer se justificar para o próprio público do jeitão descolado, comunicando-se mais diretamente com os jovens e falando para os adultos o porquê de estar fazendo isso, refletindo ainda mais sua insegurança. Já que há pouco ou nenhum destaque para personagens jovens no filme, inclusive o próprio protagonista, que tinha background para uma potencial dramatização sobre sua questão adotiva, mas acaba ficando para escanteio em meio às subtramas.

Assim, como dito, é um filme que abre muitos raciocínios e não consegue, ou não busca, explorá-los ou levá-los para algum lugar mais profundo dentro da história, estão ali mais como pano de fundo, um disfarce para que suas armadilhas pareçam bem preparadas e impactantes, quando na verdade só as deixa mais artificiais. O teor lúdico do milagre ao fim nem recebe o devido contraponto para fortalecê-lo, algo que era até então ameaçado pela presença do médico e do próprio ateu, que conseguem humanizar a jornada, mas se entregam a uma confirmação inapropriada da presença divina misteriosamente comportada nas conveniências e desaparecida em todo o meio-tempo. Ao menos, a ludibriação segura mais tempo do que a obviedade constante, se ela viesse cedo, mas não se deixe enganar, ainda é um filme gospel, feito por crentes, para eles mesmos.

Superação: O Milagre da Fé (Breakthrough, EUA – 2019)
Direção: Roxann Dawson
Roteiro: Grant Nieporte
Elenco: Chrissy Metz, Topher Grace, Josh Lucas, John Trammell, Denis Haysbert, Mike Colter.
Duração: 116min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a engenheiro da computação que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.