Crítica | Supergirl – 4X09: Elseworlds, Parte 3

– Há spoilers.

A terceira e última parte de Elseworlds vem dar os contornos definitivos daquilo que o crossover anual da CW se propôs a realizar e, com isso, coloca em perspectiva tanto o que funcionou quanto o que acabou ficando pelo caminho. Se o episódio de Supergirl consegue ser a melhor parte da trilogia, em grande parte isso se deve ao fato de que o capítulo consegue se organizar em torno de batidas de roteiro condizentes com sua premissa super-heróica, explorando sob ângulos diferentes o cenário da mais nova transformação de realidade promovida por John Deegan (Jeremy Davies) e seu Livro do Destino.

A dinâmica entre Barry (Grant Gustin) e Oliver (Stephen Amell) permanece afiada, e continua a surpreender positivamente. Livres das amarras dos dramas cíclicos e dos arcos arrastados de suas respectivas séries, os personagens conseguem funcionar melhor e aproveitar de forma mais completa seu tempo de tela. Isso vai ao ponto de permitir funcionar a premissa pouco promissora de transformá-los em uma versão estapafúrdia dos Gêmeos do Gatilho, caracterizados como punks-valentões genéricos de algum programa infantil dos anos 90 (OK, pra ser mais exato, eles me lembraram dos infames Bulk & Skull de Power Rangers).

A missão da dupla em obter a ajuda de um vilanesco Cisco (Carlos Valdes), viajar até a Terra-38 e recrutar o verdadeiro Superman (Tyler Hoechlin) para enfrentar a versão delirante de John Dee acerta na tonalidade e no ritmo quadrinhesco, apoiada obviamente pelas alta doses de fanservice envolvidas. Porém, ao contrário do que ocorreu na introdução da Batwoman no episódio anterior, a coisa aqui consegue não tropeçar na própria enxurrada autoreferencial e se preocupa antes em contar uma história focada em elementos selecionados de seu material de inspiração. É nessa linha narrativa que dão as caras — antes tarde do que nunca — algumas das coisas que se esperaria da premissa de Elseworlds como aquilo que se revelou ser no final das contas: uma trama sobre terras paralelas em pequena escala que visa preparar o terreno do multiverso para um evento ainda mais grandioso.

Pode parecer que estou me apegando a um detalhe ou deixando o lado fanboy falar mais alto (as duas coisas estão certas, provavelmente), mas as cenas envolvendo Barry e Oliver confrontando o Monitor foram alguns dos momentos mais memoráveis de todo o evento para mim. Eu sou daqueles que pensa que o multiverso é o verdadeiro tesouro da DC Comics, e que o charme e apelo do conceito está justamente na sua simplicidade: nada de “apertar” demais os pontos narrativos, mas explorar justamente o que há de mágico e simples nessas variações possíveis em torno das mesmas ideias e símbolos. O Flash não é um traje ou um conjunto de poderes, assim como Barry Allen não é Wally West, Hal Jordan não é John Stewart e por aí vai.

Mais interessante do que permutar as fantasias e poderes dos heróis entre seus atores (e certamente mais assistível do que acompanhar Iris refestelar no dramalhão sem sentido de “Ai meu Deus com quem é que eu tô casada afinal de contas!? Vou chorar!”) é explorar aquilo que cada um tem de único em situações diversas. Assim, temos Barry e Oliver desprovidos de poderes (e de trajes respeitáveis), porém agindo como uma dupla de heróis em meio a uma crise. Não é preciso um discurso motivacional que nos lembre explicitamente pela enésima vez as motivações e os dramas pessoais e origens do Flash e do Arqueiro: eles simplesmente agem de acordo com isso tudo — Oliver pronto a negociar com o Monitor e ser o primeiro a sujar as mãos até onde for necessário em nome do que vê como valores mais nobres do que os de sua própria pessoa, e Barry como o jovem herói pronto a se sacrificar para proteger a todos que ama. A montagem do combate final, que toma em paralelo o corre-corre supersônico de Barry e Kara (Melissa Benoist), a batalha entre Superman e Deegan e o resultado incerto da negociação de Oliver com o Monitor brinca bem com todos esses elementos, e com isso consegue convencer mais do que o usual para situações do tipo nesse universo televisivo.

OK, é um fato que a narrativa se apóia — poderíamos dizer preguiçosamente — sobre o caráter icônico de nos provocar com um possível sacrifício de Kara Zor-El e de Barry Allen no bojo da revelação de que isso tudo não passou de um prelúdio para uma adaptação arrowversiana da Crise nas Infinitas Terras, a chegar no ano que vem causando intriga, revolta e discórdia entre os vários tipos de DCnautas.  Mas das preguiças, a menor: ao menos o motivo narrativo é conquistado de forma mais orgânica dentro da própria trama, conseguindo ser mais do que uma referência vazia. A batalha final traz ares de um combate da Liga da Justiça, com cada núcleo de personagens atuando em uma frente distinta e a dinâmica dos confrontos conseguindo cobrir a ligeira inconsistência da qualidade da ação.

O bom uso de Superman e Lois Lane (Elisabeth Tulloch) é essencial para a obtenção desse efeito: desde a semelhança de Tulloch com a versão icônica de Margot Kidder até a exploração de imagéticas bem conhecidas do personagem, a trama faz um bom uso da posição em que se encontra essa versão do Super no arrowverse. Não sendo protagonista de uma série própria, essa versão de Clark Kent nos aparece efetivamente como um visitante de outra Terra do qual a maior parte do que sabemos é através de relatos indiretos. Que a dupla “roube a cena” em alguns momentos acaba sendo um bom uso da presença do personagem na trama — já que não sabemos muito bem de onde ele veio, nem para onde ele vai, a não ser a partir da perspectiva indireta de nossos heróis. Com isso, o roteiro consegue brincar com elementos do personagem e fazer referências a lugares-comuns de sua mitologia sem se preocupar tanto com a articulação disso no status quo de uma temporada longuíssima — leveza da qual a estreante Batwoman não parece ter conseguido desfrutar em sua introdução desajeitada.

Mesmo entregando um desfecho empolgante, o episódio sofre com as inconstâncias da montagem do evento. A principal delas se deve justamente ao seu segundo ato. Claro que introduzir Gotham e a Batwoman foi um atrativo importante para captar números provavelmente exorbitantes de audiência. A maneira com que isso foi feito, no entanto, foi desarticulada ao ponto de que a digressão acabe soando explicitamente aquilo que intentava ser: o backdoor pilot para este conceito de série. A pergunta é: isso não poderia ter sido guardado para depois? Tenho certeza que tanto The Flash quanto Supergirl disporiam de tempo suficiente em suas grades horárias para revisitar um John Dee já deformado e preso no Asilo Arkham em um momento futuro de suas longas temporadas. Isso para nem entrarmos no mérito da forma preguiçosa com que um crossover que se propõe a abordar o tema do multiverso introduzir Gotham, com Batman e tudo, bem no meio da Terra-1 do arrowverse

O corre-corre atrás do livro fez com que os elementos centrais de Elseworlds acabassem relegados todos a este último episódio. Hoechlin entrega uma boa atuação nas duas versões do Superman (eu, que não curti muito o que já tinha visto do cara, acabei surpreso positivamente) — e não tem muito como errar em termos visuais com um design trevoso da roupa do Super como vilão de um crossover porradeirão. Porém esse potencial acaba não sendo aproveitado, já que Deegan tem pouquísismo tempo de tela para ser trabalhado e explorado minimamente. Sabemos que essa versão do Homem de Aço é um delírio infantil dele, mas sua natureza vilanesca é apresentada de maneira totalmente caricatural: a única pista que temos é ele quebrando o painel de sua base em um acesso relativamente contido de fúria. Com isso, o que poderia ser uma trama de “precisamos derrotar um maníaco que se transformou em uma versão deturpada do Superman” se transforma em uma menos empolgante “precisamos tirar o livro mágico das mãos desse coitado que não sabe bem o que está fazendo”. E o Oliver tenta jogar um guindaste nos civis na rua, que é isso minha gente (OK, depois ele vem com um caô de que não ia acontecer nada, mas ainda assim…)!?

Por fim, impossível não frisar que dos protagonistas da trama, a pior servida novamente é a Supergirl, cujo arco dramático acaba quase todo investido na interação chororosa com Alex (Chyler Leigh). Embora o diálogo aqui não seja tão pavorosamente desprovido de sentido quanto os dramas West-Allen vistos na primeira parte do evento, o cenário se alonga por tempo demais e faz com que a personagem acabe “chegando atrasada” para o desfecho da história, que ocorre no episódio de sua própria série…  De maneira geral, muito do tempo gasto percorrendo temas repetidos poderia ser investido na exploração desse novo mundo, sendo que Kara teoricamente encontrava-se livre para protagonizar toda uma subtrama própria que ajudasse nesse ângulo expositivo.

A sensação que fica é que o cenário do início deste episódio poderia ter ocorrido já na passagem para o segundo ato do crossover. Com o episódio de Arrow equilibrando muito mal seus dois propósitos e fazendo andar a passo de formiga a trama central, a parte final de Elseworlds acaba tendo pouco tempo para construir e reverter uma realidade distorcida com potencial para ser melhor explorada. Prova desse potencial é que, ainda assim, o desfecho consegue divertir e entregar bons momentos para diversos dos personagens escalados, ao menos encerrando a investida em seu momento mais empolgante.

O caráter de teaser descarado para a vindoura Crise deve empolgar os delirantes otimistas e apavorar os menos entusiastas, ao mesmo tempo em que busca lançar as bases para aproveitar melhor o universo compartilhado entre as séries. No fim das contas, o misto zoneado de backdoor pilot e prelúdio a um evento futuro que provavelmente não se encontra nem muito bem planejado acaba rendendo uma bagunça divertida que deve agradar tanto aos fãs da série, quanto entreter ao menos moderadamente o leitor dos quadrinhos curioso por mais essa empreitada da CW. Como é tradicional, ficamos na torcida pra eles aprenderem com seus erros…

p.s.: Superdeegan chega voando por trás do Flash e se prepara para quebrar seu pescoço sem cerimônia — ao que é prontamente confrontado pelo Arqueiro Verde empunhando uma flecha de kryptonita. Barry decide abrir a boca e estraga completamente o momento gritando literalmente: “Não Arqueiro, por favor, não canalize sua escuridão por mim!”. Essa sequência resume perfeitamente a montanha russa de emoções que é acompanhar essas séries da CW…

Supergirl – 4X09: Elseworlds, Parte 3 — EUA, 11 de dezembro de 2018
Direção:
 Jesse Warn
Roteiro: Derek Simon, Robert L. Rovner
Elenco: Melissa Benoist, Mehcad Brooks, Chyler Leigh, Jesse Rath, David Harewood, Stephen Amell, Grant Gustin, David Ramsey, Carlos Valdes, Danielle Panabaker, Tyler Hoechlin, Jeremy Davies, Ruby Rose, LaMonica Garrett, Elizabeth Tulloch, Bob Frazer
Duração: 43 min.

GIBA HOFFMANN . . Graduado em Ciências Mutantes pelo Instituto Xavier Para Estudos Avançados, realizou trabalho de pesquisa em Historiografia Mutagênica sob orientação do Prof. Charles Xavier. Mestrado interrompido em Transmutação Humana sob orientação do Prof. Doutor Van Hohenheim. Doutorado em Transcendência Dimensional de Cômodos sob orientação do Professor Doutor John Smith. Atualmente realiza curso por correspondência (escrita) sobre Combate a Vampiros com o uso de Stand, pelo Instituto Speedwagon.