Crítica | Superman: A Jornada de Um Herói (Action Comics #800)

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Justamente por ser um animal social, o homem sempre teve a “imitação”, o “espelho”, como parte do processo de aprendizado. Com o passar dos anos, tendo aprendido por imitar determinadas coisas, o homem vai reconstruindo, desconstruindo e modelando novas peças para o seu arcabouço de ideias, valores e formas de ver o mundo. Isso se chama maturidade e tem muito a ver com uma moral que sabe se enquadrar no mundo. E com honestidade também. Mas no meio de todo esse processo de aprendizado, a observação do mundo nos faz ter confiança em alguém, em alguma coisa. E queremos ser (simbólica ou fisicamente) aquela pessoa. Nos imaginamos agindo como ela. Imitamos os seus valores, porque gostamos deles. Esta é mais ou menos a relação que cada um de nós tivemos com os super-heróis em algum momento de nossas vidas. E foi rondando essa ideia que a edição #800 da revista Action Comics Vol.1 foi escrita.

O roteiro de Joe Kelly, aqui aumentado em número de páginas por esta ser uma edição de comemoração, recebe o trabalho visual de diversos artistas, cada um ilustrando um pequeno número de páginas dentro das duas visões gerais da obra, de um lado (sem cores, apenas com o lápis ou pouca arte-final) as histórias de pessoas que foram inspiradas pelo Superman, no Universo do Superman ou no nosso. De outro, os momentos da vida de Clark Kent que o fizeram amadurecer; as pessoas que conheceu e que o inspiraram; os eventos que o impulsionaram a vencer a timidez ou medo de errar e assumir de ver o nome que os cidadãos de Metropolis já davam para ele: “estão é isso; que seja Superman. Espero que eles gostem da capa“.

O impacto inicial da história não falha em atingir seu alvo. O roteiro não apela apenas par a nostalgia, mas passa por sentimentos, fases e personalidades diferentes, afetadas pelo Superman, indo desde uma criança que aprende a ler para poder acompanhar as tiras de jornal do herói, até o garotinho com câncer, usando um boné com o símbolo do Superman e fantasiando que expurgará toda a kryptonita de seu corpo, por isso não vai morrer. Para cada fase, época e idade das pessoas afetadas, um novo ensinamento é dado e o tom cronista para cada um desses momentos aumenta ainda mais a conexão de realidade que essas páginas preto e branco têm com o mundo do leitor.

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De um lado, uma garota que aprende a ler só para saber o que o Superman fala nas tirinhas. De outro, os Kent tomam a decisão que mudaria a história do mundo.

Mas infelizmente, nem todos esses blocos têm o mesmo peso. Isso pode ser explicado pela extensão do modelo utilizado ou por alguns desses contos não serem mesmo muito interessantes, mas fica uma grande diferença de qualidade entre um ponto em outro, o mesmo acontecendo com a história no lado do Superman. A narrativa de Joe Kelly não é igualmente relevante nas duas vertentes, ou seja, ela avança muito para o futuro na dimensão das pessoas inspiradas pelo Homem de Aço e tem um andamento muito mais lento na dimensão das pessoas que o inspiraram. O resultado disso é bastante curioso e parcialmente incômodo, porque temos entradas muitíssimo breves para ações do herói (em coisas importantes, como a descoberta de seus poderes, por exemplo) e longas e um pouco chateantes andanças dele adulto, viajando, aprendendo, entendendo o mundo antes de fixar-se de vez em Metropolis. A estadia na França e o momento na Itália são os mais estranhos de todos. A impressão que temos é que Kelly procurou dar a Clark a mesma sede de conhecimento e busca que um certo Bruce teve, empreendendo também uma viagem de reconhecimento e aprendizado. Mas isso não funciona bem com o Superman aqui.

O que não significa que a história se torne ruim por conta destes momentos. Não é isso. Claro, eles possuem um tom pouco palatável dentro da edição, mas estão ali servindo, bem ou mal, a um propósito anunciado, de modo que não devem ser descartados. E a mensagem de esperança, de inspiração e até de processo de formação para um herói consegue ser entregue de maneira muito bela ao final. Kal-El sobreviveu devido a esperança de seus pais biológicos; foi educado para ver o mundo de maneira positiva, sempre pronto para fazer o bem; e cresceu para ser um símbolo de esperança e bondade. A Jornada de Um Herói é uma das sagas do Superman que melhor conseguem capturar essa visão. E o melhor de tudo, considerando também o mundo problemático e desesperançoso do leitor no processo.

Action Comics Vol.1 #800: A Hero’s Journey (EUA, abril de 2003)
No Brasil:
 Superman #21 (Panini, 2004)
Roteiro: Joe Kelly
Arte: Pascal Ferry, Duncan Rouleau, Alex Ross, Tony Harris, Bill Sienkiewicz, Dave Bullock, Ed McGuinness, J.H. Williams III, Dan Jurgens, Klaus Janson, Kilian Plunkett, Jim Lee, Tim Sale, Lee Bermejo
Arte-final: Cam Smith, Marlo Alquiza, Scott Hanna, Duncan Rouleau
Cores: Moose Baumann, Jeromy Cox, Guy Major
Letras: Comicraft
Capa: Drew Struzan
Editoria: Tom Palmer Jr., Eddie Berganza
55 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.