Crítica | Superman: Ano Um – Livro Dois

No Livro Um de Superman: Ano Um, Frank Miller e John Romita, Jr. começaram sua interpretação do começo da carreira do Azulão de maneira pouco inspirada e para lá de burocrática, terminando com o jovem Clark Kent, do nada, decidindo alistar-se nas Forças Armadas. Agora, no Livro Dois, que, vale comemorar, saiu sem atraso, os co-autores resolveram soltar-se um pouco, entregando uma narrativa que aborda Kent como recruta em treinamento e, bizarramente, depois, faz o Superman surgir em uma aventura submarina com direito a sereias e monstros marinhos mitológicos. Não se pode dizer, portanto, que eles estão acomodados em uma linha narrativa comum para esse Homem de Aço do selo Black Label da DC Comics.

Estruturalmente, porém, essa segunda edição é muito claramente dividida em duas histórias que quase não se comunicam. O treinamento de Kent na marinha logo demonstra o óbvio, ou seja, que ele é bom demais para algo comum, o que lhe vale a transferência para a divisão dos Navy SEALs na base naval de Coronado, em San Diego. Lá, ele conhece o capitão Jacob Kurtzberg (uma bela homenagem a Jack Kirby, já que esse é seu nome verdadeiro), que se torna seu mentor e admirador, o único na base inteira que percebe que o jovem é muito especial. É também lá que Kent encontra-se pela primeira vez com Atlântida e as sereias, especialmente Lori Lemaris, personagem da mitologia clássica do Superman que também tem seu nome como uma aliteração de Ls.

É interessante a abordagem que Miller e Romitinha dão a Clark Kent em seu tempo como recruta: nada o afeta, nada é um esforço para ele. Temos que fechar os olhos para o fato que ninguém acha a não ser Kurzberg acha isso estranho e que não haja nenhum acidente de deixe claro que o garoto é super-poderoso. Mas, se conseguirmos fazer isso – e é necessário um pouco de esforço, confesso – a forma passiva do herói diverte demais. Há até um leve subtexto de superioridade racial que os balões de pensamento de Clark Kent deixam entrever, algo que não só é completamente “fora” do personagem clássico, como também um tantinho preconceituoso (mas divertido mesmo assim).

Poseidon zangado com o Azulão.

Tenho, porém, sinceras dúvidas sobre a função narrativa para a formação de Clark Kent sobre tudo que ele passa como recruta. Suas constatações na linha de que o “ser humano é fraco” são redundantes ao extremo, pois ele obviamente sabia disso já. Da mesma maneira, sua despreocupação em manter seu segredo escondido, em uma guinada de 180º em relação a tudo que Martha e Jonathan Kent lhe ensinaram é de coçar um pouco a cabeça. E, como se isso não bastasse, apesar de uma ação no final que mostra um lado de Kent que se preocupa com a vida humana, isso é tratado de maneira muito corrida e pouco relevante, dando a entender que o que ele faz é muito mais uma brincadeira, um teste, do que algo que ele realmente sinta.

Quando essa história acaba – e ela acaba mesmo, de maneira bem definitiva – o protagonista volta para o mar e para Lori, vivendo uma versão super-heróica e doentia de Romeu & Julieta, já que Poseidon, pai da moça, não gosta nada do romance, já que ele quer desposar a filha(!!!). Com isso, Superman (com uniforme e tudo) precisa passar por todos os testes que o Rei dos Sete Mares (até o Aquaman aparecer, claro) joga em cima do kriptoniano, começando com uma espécie de gárgula e terminando com não um, mas dois Kraken (Release the Kraken!). Nesse ponto, os autores repetem a estratégia de Kent recruta e fazem com que não haja um enfrentamento propriamente dito, mas sim um Superman quase bocejando levando raios, pancadas e tudo mais, o que eu vejo como uma crítica divertida ao overpower do personagem, o principal fator que, ao longo das décadas, em minha visão, impediu a criação de um número considerável que histórias solo dele realmente memoráveis.

Se a primeira parte do Livro Dois é narrativamente mais interessante que a segunda parte, o inverso acontece em termos artísticos. Miller e Romitinha de certa forma não têm espaço para arroubos criativos no começo, mas, quando a ação é integralmente transportada para Atlântida, eles soltam o freio de mão e se divertem com splash pages descomunais em um trabalho de encher os olhos. A própria recriação de Lori e de seu povo é muito bonita e elegante, ainda que o palácio de Poseidon desaponte um pouco.

A segunda parte (de três) de Superman: Ano Um é bem superior à primeira, mas não necessariamente por criar um conjunto harmônico e sim por sair da “caixinha” e cambar para a bizarrice completa que é colocar Superman, em seu primeiro contato com o mundo exterior à Smallville, em uma aventura amorosa com sereias. É uma escolha definitivamente estranha, mas que abre oportunidades para belas artes e para momentos divertidos de demonstração de poder mais do que exagerado.

Superman: Ano Um – Livro Dois (Superman: Year One – Book Two, EUA – 2019)
Roteiro: Frank Miller, John Romita Jr.
Arte: Frank Miller, John Romita Jr.
Arte-final: Danny Miki
Cores: Alex Sinclair
Letras: John Workman
Editora original: DC Comics (DC Black Label)
Data original de publicação: 21 de agosto de 2019
Páginas: 65

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.