Crítica | Superman: Ano Um – Livro Três

O terceiro e último capítulo do Ano Um do Superman conforme as visões de Frank Miller e John Romita Jr. contém sementes de histórias que deveriam ter sido o foco de toda a minissérie da dupla. Infelizmente, porém, o que temos é um encerramento que não só torna supérfluas as duas partes que vieram antes, como também germinam as narrativas plantadas aqui com velocidades vertiginosas que retiram todo e qualquer impacto do que se pretendeu criar. Parece que Miller e Romitinha não sabiam muito bem o que fazer com sua versão do Azulão e, com isso, trafegaram sem rumo por um pot-pourri de momentos marcantes na vida do herói sem, na verdade, desenvolver o personagem.

E o mais frustrante disso tudo é que a edição anterior, que focou no romance do Superman com a sereia Lori, algo que vem do cânone do personagem, mas que emprestou um sabor diferente e autoral à história, já havia melhorado substancialmente o começo insosso dele lá em Smallville no Livro Um. E, esfregando sal na ferida, todo o primeiro terço do Livro Três, dedicado ao primeiro encontro do herói com Lois Lane, sua admissão como jornalista no Planeta Diário e a criação de seu famoso e simples disfarce que foca nas roupas, nos óculos e na postura de Clark Kent, prometia uma história redentora e significativa para o personagem, que merecia destaque e desenvolvimento por toda as 66 páginas da edição.

No entanto, esse começo nostálgico, mas muito bem trabalhado logo abre espaço para a vilania de Lex Luthor durante uma missão do Superman para salvar vítimas de um sequestro, a entrada do Batman na história e, depois, a da Mulher-Maravilha. Ou seja, em relativamente poucas páginas, Miller e Romitinha introduzem quatro “novos” e importantíssimos personagens para a mitologia do Superman dentro de uma estrutura narrativa que vinha leve e prosaica, quase que literalmente dizendo algo como “olha, nosso espaço está acabando e precisamos inserir chamarizes para nossos leitores que não se contentarem só com o Superman”. O resultado é que Luthor, Batman e principalmente a Amazona caem de paraquedas na história, sem introdução, sem um começo, sem uma contextualização maior do que balões expositivos de rolar os olhos tamanha é a preguiça do roteiro.

E vejam bem: é compreensível que os autores contassem com o conhecimento prévio do leitor sobre a dinâmica entre esses personagens. Não é disso que estou falando. Não esperava de forma alguma “histórias de origem” para os coadjuvantes de luxo dessa edição, até porque o foco é no Superman e não poderia ser diferente. O ponto é que, sob qualquer aspecto que se interprete o literal despejo dos personagens na narrativa, não é assim que se escreve uma HQ, especialmente uma em formato prestígio e anunciada como a origem para acabar com todas as origens. Chega a ser constrangedor ver como Luthor é transformado em um vilão bufante daqueles que sorriem revelando seus planos ou como o Batman é trabalhado de maneira a ser exatamente igual ao que ele se tornaria no futuro do Millerverso do Homem-Morcego, ou seja, roubando-lhe qualquer arco de crescimento. E a Mulher-Maravilha, bem, esta é sem cerimônias colocada no meio dos dois heróis como uma mediadora de uniforme colorido dando lições de moral nos dois jovens despreparados e brigões. É bobo, infantil mesmo, como se Miller e Romita Jr. estivessem escrevendo um livro de colorir para crianças de até cinco anos de idade.

Pior do que isso tudo é a pressa para estabelecer uma continuação. No lugar de fazerem uma história fechada, os autores decidiram (ou foram obrigados pela editora, não sei) deixar o final em aberto, com a introdução de uma famosa ameaça ao Superman que existe única e exclusivamente a partir de uma confissão forçada de Luthor. Como eu disse, essa HQ aqui tinha história suficiente para ser contada em diversas edições, até mais do que apenas três, mas não, a perda de foco a que foram vítimas as edições anteriores – que, repito, são basicamente ignoradas no fechamento – impediram que a verdadeira grande história fosse contada, com praticamente tudo tendo que ser comprimido em não mais do que duas dezenas de páginas. Não há texto que resolva isso sem partir para longas explicações e introduções meteóricas de conceitos nunca antes sequer mencionados. Não há arte que consiga atenuar o problema narrativo evidente.

Aliás, sobre a arte, apesar de Romitinha mostrar-se inspirado em alguns belos painéis de página inteira (como esse na chuva de onde recortei a imagem de destaque) e trabalhar de maneira eficiente a progressão narrativa no primeiro terço da edição, quando o texto dele e de Miller ainda fazia sentido e contava uma boa história, o fato permanece que o que ele desenha em termos de proporções humanas são inadvertidamente hilárias figuras que parecem sair do brinquedo infantil Polly Pocket, ou seja, corpinhos com cabeções. A imagem dupla no meio do presente texto em que a Mulher-Maravilha interfere na tentativa do Batman de surrar o Superman mostra muito bem isso, já que as cores vibrantes de Alex Sinclair deixam ainda mais evidente as desproporções anatômicas que orgulhariam a Mattel.

Superman: Ano Um chegou prometendo mundos e fundos, mas começou de maneira, continuou de forma surpreendente e original, dando esperanças de que viria um final épico, mas a terceira parte se perdeu completamente em devaneios sem rumo de seus autores. O Azulão merecia mais.

Superman: Ano Um – Livro Três (Superman: Year One – Book Three, EUA – 2019)
Roteiro: Frank Miller, John Romita Jr.
Arte: Frank Miller, John Romita Jr.
Arte-final: Danny Miki
Cores: Alex Sinclair
Letras: John Workman
Editora original: DC Comics (DC Black Label)
Data original de publicação: 16 de outubro de 2019
Páginas: 66

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.