Crítica | Superman – Os Arquivos Secretos do Homem de Aço, de Matthew K. Manning

Colocar algum tipo de “ordem” nas publicações de super-heróis das duas maiores editoras de quadrinhos mainstream, pode ser um grande tormento. Claro que para alguns grupos, fases ou personagens individuais, a coisa pode funcionar mais tranquilamente, ou porque foram concebidos em um tempo onde já havia algo que podemos chamar de “preocupação com cronologia” ou porque possuíam uma história realmente simples, fácil de ser adaptada a qualquer crise, guerras secretas, realidades alternativas e ligação de fluxos temporais que pudessem inventar no meio do caminho. O Superman, no entanto, um dos medalhões da DC Comics, está do lado dos personagens difíceis nesse aspecto.

É por esse motivo que o livro Superman – Os Arquivos Secretos do Homem de Aço, Matthew K. Manning, lançado em 2013, é uma mão na roda para a criação de um entendimento geral diante da linha do tempo de Kal-El. O pondo central que precisa ser levado em consideração aqui é que estes arquivos secretos, compilados por Brainiac 5, são parte de uma jornada pela Era Moderna do Homem de Aço, ou seja, o período que vai de 1985 (pós Crise nas Infinitas Terras) até os acontecimentos que antecedem a chegada dos Novos 52, muito embora as páginas finais do livro ultrapassem o propósito angular do volume e tragam o tal “novo começo”, mesmo que não faça uma boa passagem para esta fase, como fizera na maior parte da obra.

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A chegada do bebê kryptoniano e o início da carreira adulta do Superman via imprensa.

Do ponto de vista narrativo, trata-se de um livro extremamente divertido de se ler. Ele é apresentado de um modo criativo, que deixa clara a intenção de coleção de informações ao longo dos anos, algo que percebemos pelos inúmeros recortes de jornal (boa parte deles produzidos para o livro, enquanto outros, compilado dos quadrinhos do Superman) e arte de diversas revistas do herói (colocados como “fotografias” desse mundo), pontuando eventos da vida do Superman através do olhar de seu amigo Brainiac 5, com sua visão particular a respeito de casos e pessoas. É um tipo de narrativa que atrai e ao mesmo tempo dá a esperada sensação de pesquisa sugerida no início da obra, jogada inteligente do autor para manter a narração ligada à crônica da vida do herói de Metropolis, desde a sua saída de Krypton, momentos antes do cataclismo final, até a sua versão dos Novos 52.

Passamos por acontecimentos marcantes, como a Origem Secreta contada por Geoff JohnsGary Frank; a base de histórias da Action Comics entre 1987 e 2011; a saga da morte e retorno do Superman; a série Adventures of Superman entre 1986 e 2011 (lembrando que esta é a renomeação pós Superman #423); as revistas do Superboy e Supergirl, além das principais minisséries e arcos do Homem de Aço durante esse período, passando igualmente por personagens como Aço, Erradicador, Superciborgue, pela versão renascida com uniforme preto, pelas versões azul e vermelha… ou seja, um verdadeiro apanhado de coisas boas e ruins pelas quais o Último Filho de Krypton passou nas últimas décadas. Os únicos momentos falhos do volume são os “pontos cegos” em relação à passagem de uma fase, crise ou mudança radical para outra.

Se estamos falando de um arquivo secreto, algumas fases mereciam uma ligação melhor trabalhada por parte do autor, principalmente no miolo da obra e na interação de personagens que apareceram entre a morte e a ressurreição do Super. Uma vez que essa parte da cronologia gera certo desconforto na organização dos fatos, uma opção mais livre de amarras, delimitada por análises através da narrativa de Brainiac 5, seria muito bem vinda. E vejam, eu não estou cobrando nada que a própria obra não nos dê em outros momentos. Brainiac 5 faz inúmeras dessas incursões nos arquivos, especialmente na primeira parte; portanto, não é como se isto fosse algo que o autor não quisesse tomar para si. Ele arriscou nesse ponto algumas vezes, por isso é um pouquinho frustrante que na parte mais necessitada dessa intervenção narrativa, ele tenha se ausentado.

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Um textinho do pequeno Clark Kent e, anos depois, o início de sua carreira jornalística.

Maravilhosamente ilustrado — as artes são as originais da bibliografia do personagem na DC durante o período narrado, ou seja, temos centenas de artistas creditados aqui — e com informações importantes para fãs antigos e recentes do Azulão, estes arquivos secretos são uma excelente oportunidade para relembrar e tentar clarear as ideias a respeito desse que é um dos três maiores super-heróis de todos os tempos (alguns diriam “o maior”, mas sobre isso podemos discutir nos comentários abaixo, se quiserem). Mesmo sendo um livro que tenha a clara necessidade de atualização periódica — afinal, mudanças gigantescas vivem acontecendo na DC e alteram uma série de coisas na linha de seus heróis –, trata-se de um livro instigante e muito criterioso nas informações para o período que se propõe retratar. Realmente vale a pena conferir.

The Superman Files (EUA, novembro de 2013)
Autor: Matthew K. Manning
Editora original: Andrews McMeel Publishing
Editora no Brasil: LeYa (com apoio do Omelete)
Tradução: Dandara Palankof
312 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.