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Crítica | Surfista Prateado #1 a 6: Livre

por Kevin Rick
221 views (a partir de agosto de 2020)

Após ter sido punido por Galactus pela sua traição, o Surfista Prateado se encontra preso à Terra por uma barreira cósmica imposta pelo devorador de mundos. É a partir dessa ideia de aprisionamento do personagem, inicialmente físico e posteriormente com camadas emocionais e existenciais, que esta HQ constrói o arco em busca de liberdade em todos os aspectos possíveis de Norrin Radd, nossa querida personificação da Marvel da procura humana pelo significado da vida, do Universo e por propósito em ser.

O cárcere do protagonista é facilmente – de forma hilária – quebrado depois de uma ideia simplista do Coisa, enquanto o Sr. Fantástico e o Surfista passaram um grande tempo quebrando a cabeça com soluções científicas mirabolantes. O rápido rompimento com o problema inicial, além de ser divertido, abre espaço para pegar o tema de liberdade já apresentado e destrinchá-lo para caminhos mais filosóficos e pessoais do Surfista, na clássica maneira que grandes roteiristas escrevem o personagem procurando pelo sentido de “tudo isso”, com a engenhosa adição do conceito de ser livre misturado à procura por conhecimento (aliás, só é livre quem entende, certo?), enquanto propõe uma divertidíssima leitura de viagem cósmica, um paradoxo simbólico da vastidão universal com a trama de enclausuramento psicológico do protagonista.

Surfista Prateado

À medida que a odisseia de aventura cósmica avança, o personagem vai lentamente perdendo suas amarras através de múltiplos contos espaciais, primeiramente de Galactus, da saudade de sua casa e da privação de estar com sua amada Shalla-Bal, contudo, a idealização de felicidade do Surfista é rapidamente destruída pela realidade. Daí entra a narrativa especial de Steve Englehart, navegando na falta de aceitação do personagem, sempre em busca de algo, significado para sua escolhas, propósito no amor e seu papel como Surfista Prateado, e não como Norrin Radd. Aliás, essa problematização de personalidade compõe o ótimo estudo de personagem na segunda metade do arco, no qual vemos o Surfista tão obcecado por ser livre que decide esquecer da sua própria identidade. A “liberdade” do eu para um papel, sendo livre dos lamentos que acompanham sua vida pessoal, afinal, o propósito do Surfista é mais simples e direto, ser o herói, sem se preocupar com as questões que afligem o interior humano.

A inserção de Mantis nas edições finais dão um ótimo toque dramático ao arco do personagem, pois sua sabedoria “natural”, com um divertido pezinho filosófico na fauna e na flora – até me lembrando o “verde” do Monstro do Pântano –  somado ao cósmico do Surfista Prateado, trazem um paralelo interessante do questionamento científico versus a aceitação da ordem natural da vida, além de um gostoso romance espacial. Meu problema com o quadrinho jaz nos antagonistas da narrativa, em menor medida os Elders que fazem seu papel de motor narrativo, porém nada além disso, mas especialmente a guerra Kree X Skrull como pano de fundo de elaboração para o próximo arco, continuamente fragmentando o ritmo da leitura cósmica divertida.

Por fim, Livre é a típica história do Surfista Prateado vagando pelos cosmos em busca de resposta, eternamente procurando liberdade emocional, mental e existencial enquanto cumpre seu papel de protetor espacial. Steve Englehart bebe dos elementos clássicos de Stan Lee e constrói uma série de divertidas aventuras do personagem com a temática da liberdade permeando os questionamentos do protagonista. O desfecho acaba sendo um cliffhanger para um arco posterior, mas cumpre seu papel de expor a negação ao ponto da perda de identidade, e como o Surfista determina seu futuro pelas eternas perguntas da humanidade, nunca sendo verdadeiramente livre.

Surfista Prateado #1 a 6: Livre (Free) — EUA, 1987
No Brasil:
Grandes Heróis Marvel 1ª Série – n°33 (Editora Abril, 1991)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: Marshall Rogers
Arte-final: Joe Rubinstein
Cores: Marshall Rogers
Letras: John Workman (#1 a 5), Ken Bruzenak (#6)
Capas: Marshall Rogers, Joe Rubinstein
Editoria: Michael Higgins, Mike Rockwitz
144 páginas

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6 comentários

Chinchila Cósmica 17 de março de 2021 - 17:59

Que legal, ótima crítica.
Eu só li duas histórias desse arco, porém, faz tempo. Mas o que você achou do personagem do Surfista Prateado? Você achou que ele foi bem representado? Ele é fiel ao Surfista Prateado feito por Stan Lee e do John Buscema?
Gosto muito desse personagem, ele está no meu Top 3 de heróis favoritos, ao lado do Demolidor e do Homem-Aranha.

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Kevin Rick 17 de março de 2021 - 20:11

Eu acho que foi. É uma abordagem um tantinho diferente da procura eterna por respostas e existencialismo do Stan, indo mais no caminho da busca por liberdade, mas, claro, os temas são tão próximos que dá para ver várias similaridades.

Em suma, achei ele muito bem representado, fiel a vários conceitos do Stan, mas, felizmente, com uma abordagem um pouco diferente. A procura por como ser livre emocionalmente do que no conhecimento, seria como eu colocaria a diferença, que acaba não sendo tão diferente assim hahahaha

É uma HQ mais sobre Norrin Radd que o Surfista, se você me entende. Também adoro ele! Um dos meu favoritos da Marvel.

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Chinchila Cósmica 17 de março de 2021 - 23:13

Muito obrigado pela resposta. Tenha uma boa noite.

Responder
Chinchila Cósmica 17 de março de 2021 - 23:13

Entendi. Muito obrigado pela resposta. Tenha uma boa noite.

Responder
Luiz Santiago 17 de março de 2021 - 13:34

Eu realmente fico feliz que você tenha gostado. Li as duas primeiras edições do arco e cara… não estava suportando mais!

Responder
Kevin Rick 17 de março de 2021 - 17:59

Não gostou? HAHAHAHA O começo é meio chatinho – apesar de divertidinho – com o lance do quarteto fantástico, mas quando passa disso, putz, fica muito bom.

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