Crítica | Surfista Prateado: O Grande Terror

Marvel Fanfare Vol 1 51 surfista prateado o grande terror

Senhoras e Senhores, bem-vindos à Terra-900651, a Terra onde o Surfista Prateado nunca consegue se livrar da prisão imposta por Galactus, ou seja, jamais consegue ultrapassar uma porção do nosso Sistema Solar, surfando o mais próximo da Terra possível. A bem da verdade, esta poderia ser uma aventura da série O Que Aconteceria Se…. Para entender sua origem, no entanto, é preciso voltar um pouquinho no tempo, para antes de sua publicação. O próprio coeditor da revista, Al Milgrom, explica que, por volta de 1985, a Marvel Comics estudava fazer uma minissérie em 12 edições do Surfista, provavelmente para lançamento ao longo de 1986. O processo de preparação, no entanto, foi sendo constantemente modificado e, em 86, o material já produzido para esta minissérie foi abandonado. Seu autor, Steve Englehart, já tinha sido escalado para um outro projeto e outra série regular do Singrador do Espaço (Silver Surfer Vol.3), acabou estreando em julho de 1987. Só em 1990 o material para a série abandonada foi finalizado e lançado como The Great Terror.

Pois bem, nesta realidade alternativa, a primeira sequência que vemos do Surfista Prateado é fora da atmosfera da Terra, momento em que ele reconhece uma nave e é atacado por ela. Um cruzador Kree. Um dispositivo especial drena os poderes do herói, que cai de volta no planeta, enquanto os dois Kree responsáveis pela operação conseguem se safar e aterrizam tranquilamente, tentando seguir com o plano-master de dominação. Todos esses eventos são assistidos por Mephisto, que pretende mais uma vez manipular o Surfista para seus próprios fins. Basicamente, Steve Englehart brinca com os acontecimentos prévios da vida do herói, empurrando-o, nesse caso específico, para uma posição familiar e ao mesmo tempo curiosa e um tanto… forçada.

Os desenhos John Buscema e a arte-final de Jack Abel funcionam muitíssimo bem quando têm espaço suficiente, destacando-se aí os quadros de explosões, as boas lutas do Surfista e suas representações de voo com a prancha, que são sempre muito estilosas e atrativas. O problema é que a diagramação aqui não ajuda muito e, em dado momento da história — talvez para relevar o caráter de invasão alien ou o tom cósmico ligado ao Surfista e destacar o já citado elemento familiar forçado –, o roteiro ganha uma linha extremamente verborrágica, o que tira a majestade dos desenhos para botar grandes balões e quadros narrativos [o que não seriam um problema se estivessem desenvolvendo algo muito bom para a saga, mas não, este não é o caso].

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O mais estranho de tudo acontece depois do encontro desse Norrin de uma Terra alternativa com o Tocha Humana, Namor, Alicia Masters e a forma astral do Doutor Estranho. Até aí, imaginamos que as coisas irão girar em torno da perda temporária de poderes (drenados) do personagem e os invasores do planeta. Até a presença de uma curiosa divisão da SHIELD entra na parada e também parece se relacionar bem com a proposta de “caminhos para um enfrentamento final“. Todavia, os Kree são apenas uma desculpa aqui, assim como Mephisto, Mangog e a Inteligência Suprema. A mini galeria de vilões serve unicamente para forçar o Surfista a alguns limites, mas não possuem um real propósito na história, que é o que de fato incomoda aqui, porque o leitor não consegue nem aproveitar o lado de “criação de laços” proposto pelo roteiro e nem se engaja de verdade em uma jornada de luta contra vilões. Desse modo, O Grande Terror fica como uma trama francamente aleatória.

Na parte dos laços, vemos Mantis e seu filho Sprout aparecerem como a “âncora que dará sentido à vida terráquea do Surfista Prateado“. É muito, muito difícil atravessar as páginas dessa parte da revista sem revirar os olhos. Isoladamente, temos bons momentos na forma como Buscema desenha as cenas entre o “casal” (sim, até a busca por Shalla-Bal, em Zenn-La) ou em algumas falas existencialistas e angustiadas do Surfista. No todo, porém, vemos o que poderia ser uma grande saga de defesa da Terra, junto com um teste de resistência — ou condições emocionais do Surfista, definitivamente preso — virar um melodrama barato, revestido de super-heroísmo. A história até que começa bem, mas o final realmente desaponta. Ainda bem que não é uma saga canônica.

Marvel Fanfare Vol.1 #51: The Great Terror (EUA, junho de 1990)
Roteiro: Steve Englehart
Arte: John Buscema
Arte-final: Jack Abel
Cores: Christie Scheele
Letras: Rick Parker
Capa: John Buscema
Editoria: Al Milgrom, Jim Salicrup
53 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.