Crítica | Survive

Survive é o segundo filme em capítulos (mais conhecido como minissérie) que chega a seu fim no Quibi, depois do drama When the Streetlights Go On e é o primeiro a realmente parecer mais o que o marketing do novo serviço de streaming diz que é, já que, diferente do trabalho de Rebecca Thomas, não há uso de estrutura episódica. Ou pelo menos não há muito uso dessa estrutura, pelo menos.

Infelizmente, porém, Survive engana o espectador. Usando como porta de entrada o que parece ser um engajante drama psiquiátrico em que Jane (Sophie Turner) precisa enfrentar seus demônios internos quando sai de uma clínica sofisticada, a história até consegue surpreender ao converter-se em um filme de sobrevivência depois que o avião em que ela estava sofre um acidente e cai em uma cordilheira nevada nos EUA em que só ela e mais um outro passageiro – Paul, vivido por Corey Hawkins – sobrevivem. Jane, que não tinha mais razão para viver, encontra em Paul e em todo o seu périplo, uma luz no fim do túnel.

Essa fusão de assuntos em tese completamente díspares chama logo a atenção, assim como a atuação de Turner, que se mostra muito eficiente particularmente antes de o avião cair (o que acontece ao final do terceiro mini-episódio). Mas os pontos positivos param por aí, basicamente, já que o roteiro de Richard Abate e Jeremy Ungar, o primeiro estreante na cadeira e o outro apenas em seu segundo longa, não é mais do que meramente protocolar, deixando toda e qualquer profundidade desaparecer rapidamente na medida em que os obstáculos da dupla sobrevivente são ultrapassados.

Survive, portanto, de algo bastante promissor logo torna-se uma sucessão mal-ajambrada de clichês do gênero de “filmes de acidente”, com Jane e Paul obrigatoriamente se conhecendo no aeroporto antes do acidente (ó, o destino…), um dando força para o outro em sistema de revezamento quando começam a descer a montanha e, claro, aquela boa e velha sucessão de historinhas para chorar (ou bocejar…) sobre os passados terríveis dos dois para criar aqueles momentos “mágicos” de conexão. É como um novelão, só que em misericordiosos – e talvez até longos demais – 97 minutos com um ou dois momentos que talvez, lá de longe, criem alguma tensão se perdoarmos a ilogicidade de praticamente tudo o que os dois fazem ao longo da descida.

A direção de Mark Pellington, que de melhor em seu currículo tem o bom O Suspeito da Rua Arlington, é burocrática, só destacando-se quando consegue extrair de Turner uma boa atuação, mostrando por poucos minutos que a atriz talvez seja, afinal de contas, mais do que apenas um rostinho bonito que não encontra papeis bons. Ele não tem a mesma sorte com Hawkins, que parece ter vontade demais de mostrar que está atuando e isso acaba transparecendo em seus cacoetes faciais e corporais. A fotografia de David Devlin, especialista em videoclipes, é baseada quase que exclusivamente em tomadas aéreas com drones que, ainda que se aproveitem bem da paisagem nevada e desolada das montanhas, não é nada particularmente especial. Qualquer turista com um pouquinho de jogo de cintura e um aparelho semelhante capturaria imagens com a mesma qualidade para servir de establishing shots.

É realmente uma pena que não haja uma cola eficiente entre o drama psiquiátrico que a minissérie ensaia no começo e o drama de sobrevivência que toma oito de seus 12 episódios. Havia uma história boa ali, algo que realmente fugisse do óbvio ululante, algo que conseguisse ir um pouquinho além e criasse uma ponte narrativa que tornasse a personagem de Turner realmente interessante do começo ao fim. Infelizmente, porém, do jeito que Survive ficou, ele pode ser facilmente arquivado na categoria de obras completamente esquecíveis, sem um pingo de personalidade.

Survive (EUA, 06 a 17 de abril de 2020)
Direção: Mark Pellington
Roteiro: Richard Abate, Jeremy Ungar
Elenco: Sophie Turner, Corey Hawkins, Caroline Goodall, Jo Stone-Fewings, Lewis Hayes, Ivars Auzins, Armands Ikalis, Jurijs Djakonovs, Thomas Flynn, Dane Foxx, Nikki Pocklington, Andrew Regan
Duração: 97 min. (divididos em 12 mini-episódios)

RITTER FAN. . . . Aprendi a fazer cara feia com Marion Cobretti, a dar cano nas pessoas com John Matrix e me apaixonei por Stephanie Zinone, ainda que Emmeline Lestrange e Lisa tenham sido fortes concorrentes. Comecei a lutar inspirado em Daniel-San e a pilotar aviões de cabeça para baixo com Maverick. Vim pelado do futuro para matar Sarah Connor, alimento Gizmo religiosamente antes da meia-noite e volta e meia tenho que ir ao Bairro Proibido para livrá-lo de demônios. Sou ex-tira, ex-blade-runner, ex-assassino, mas, às vezes, volto às minhas antigas atividades, mando um "yippe ki-yay m@th&rf%ck&r" e pego a Ferrari do pai do Cameron ou o V8 Interceptor do louco do Max para dar uma volta por Ridgemont High com Jessica Rabbit.