Crítica | Suspiria (1977)

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Primeira parte da Trilogia das Três MãesSuspiria (1977) é um daqueles filmes particularíssimos onde o resultado final, muito mais do que em qualquer outra obra de arte, onde este é o padrão de leitura, vai depender da real imersão (ou não) do espectador. E de cara é preciso citar aqui o já muito conhecido e repetido fato que torna o roteiro do longa problemático em verossimilhança. Para mim, no entanto, este aspecto acaba não sendo um real problema, pois ganha melhor perspectiva ou justificativas se exposto ao simples fato de concepção do filme: uma fantasia urbana e claustrofóbica envolvendo bruxas e magia. Já o fato conhecido sobre a obra é que Dario ArgentoDaria Nicolodi conceberam o roteiro pensando em uma escola de dança formada por adolescentes, mas o co-produtor do filme e pai do diretor, Salvatore Argento, vetou a proposta.

Ele argumentava que seria um problema conseguir distribuir uma película com assassinatos estilizados tendo uma boa parte do elenco formato por garotas, além do fato de o filme poder ser banido de diferentes países, o que não seria nada positivo para o investimento. Ocorre que na mudança de faixa etária de garotas para jovens no início da vida adulta, a obra não recebeu um novo tratamento de roteiro. Assim, permaneceram os diálogos infantis, um estranho conformismo diante das mortes e coisas estranhas que ocorrem na escola e as mais descabidas e incômodas perguntas feitas por personagens. As que realmente me incomodaram e que acabam não fazendo sentido nenhum diante do estudo e idade de Suzy (Jessica Harper) são as que ela faz para o psicólogo (Udo Kier) e depois para o professor especialista em estudo de bruxaria (Rudolf Schündler). Fora este momento, os meus problemas em relação aos diálogos e até de condução da história diminuem bastante, pelo motivo citado no parágrafo anterior.

Esclarecido esse ponto, vamos ao que realmente importa em Suspiria, aos dois itens que o colocam na lista dos filmes de terror mais bonitos e com a melhor trilha sonora da História. Quando dirigiu o longa, em 1977, Argento já tinha a fama de grande esteta. Seu primeiro longa-metragem, O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), estabeleceu isso logo de saída e a carreira do diretor até aquele momento, pelo menos nos gialli, não havia negado esse caminho. Em Suspiria ele se junta ao grande fotógrafo Luciano Tovoli (que já tinha Profissão: Repórter e O Deserto dos Tártaros no currículo) e cria uma verdadeira roda cromática de emoções, com os personagens mergulhados em ambientes com filtro vermelho e azul ao longo de quase toda a projeção e, em momentos particulares, também em verde e amarelo, esta última, a cor que traz o fim à Rainha Negra que dominava a escola de dança. Também se destaca aqui a direção de arte, repleta de padrões para todos os cômodos, com um rigor que em breves momentos nos faz lembrar Wes Anderson, outro grande esteta, de uma geração futura.

Ao lado da banda Goblin, com quem já havia trabalhado em Prelúdio Para Matar (1975), o diretor cria uma trilha sonora assustadora e envolvente, utilizada de maneira aplaudível e servindo de delineação para o grande medo que toma o espaço não só da escola, mas qualquer lugar onde a magia possa chegar e ferir ou matar àqueles que se colocam contra os praticantes das artes das trevas. É por isso que entendo o filme como um produto cujos erros normalmente apontados como grandiosos motivos para derrubar-lhe a qualidade, se justificam prontamente: se é possível aceitar bruxas e bruxaria dominando uma escola de dança e lançando feitiços pela cidade, também é possível alocar mentalmente a estranha passividade das meninas, uma boa parte dos diálogos bovinos por elas proferidos (algo que nem a dublagem, nem as atuações ajudam, sejamos sinceros) e certas decisões tomadas pelo diretor, notadamente no que se refere à morte de uma personagem ou os impasses ligados à fuga do amaldiçoado local.

Com base em Suspiro das Profundezes (Suspiria de Profundis), obra de Thomas De Quincey, Argento cria um conto de fadas incomum, com poucas mas inesquecíveis mortes e um elemento fantasioso que oprime e perturba personagens e espectadores. Um filme que por muitos motivos fez escola e, mesmo que não seja uma obra-prima, tem uma importância conceitual muito grande para o gênero terror, principalmente para diretores que não estão apenas preocupados em gerar o medo puro e simples, mas em também criar, através da beleza, uma porta de entrada para o macabro sobrenatural.

Suspiria (Itália, 1977)
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Daria Nicolodi (baseado na obra de Thomas De Quincey)
Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Susanna Javicoli, Eva Axén, Rudolf Schündler, Udo Kier, Alida Valli, Joan Bennett, Margherita Horowitz, Jacopo Mariani, Fulvio Mingozzi, Franca Scagnetti
Duração: 98 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.