Home FilmesCríticasCatálogos Crítica | Suspiria (1977)

Crítica | Suspiria (1977)

por Luiz Santiago
2001 views (a partir de agosto de 2020)

Primeira parte da Trilogia das Três MãesSuspiria (1977) é um daqueles filmes particularíssimos onde o resultado final, muito mais do que em qualquer outra obra de arte, onde este é o padrão de leitura, vai depender da real imersão (ou não) do espectador. E de cara é preciso citar aqui o já muito conhecido e repetido fato que torna o roteiro do longa problemático em verossimilhança. Para mim, no entanto, este aspecto acaba não sendo um real problema, pois ganha melhor perspectiva ou justificativas se exposto ao simples fato de concepção do filme: uma fantasia urbana e claustrofóbica envolvendo bruxas e magia. Já o fato conhecido sobre a obra é que Dario ArgentoDaria Nicolodi conceberam o roteiro pensando em uma escola de dança formada por adolescentes, mas o co-produtor do filme e pai do diretor, Salvatore Argento, vetou a proposta.

Ele argumentava que seria um problema conseguir distribuir uma película com assassinatos estilizados tendo uma boa parte do elenco formato por garotas, além do fato de o filme poder ser banido de diferentes países, o que não seria nada positivo para o investimento. Ocorre que na mudança de faixa etária de garotas para jovens no início da vida adulta, a obra não recebeu um novo tratamento de roteiro. Assim, permaneceram os diálogos infantis, um estranho conformismo diante das mortes e coisas estranhas que ocorrem na escola e as mais descabidas e incômodas perguntas feitas por personagens. As que realmente me incomodaram e que acabam não fazendo sentido nenhum diante do estudo e idade de Suzy (Jessica Harper) são as que ela faz para o psicólogo (Udo Kier) e depois para o professor especialista em estudo de bruxaria (Rudolf Schündler). Fora este momento, os meus problemas em relação aos diálogos e até de condução da história diminuem bastante, pelo motivo citado no parágrafo anterior.

Esclarecido esse ponto, vamos ao que realmente importa em Suspiria, aos dois itens que o colocam na lista dos filmes de terror mais bonitos e com a melhor trilha sonora da História. Quando dirigiu o longa, em 1977, Argento já tinha a fama de grande esteta. Seu primeiro longa-metragem, O Pássaro das Plumas de Cristal (1970), estabeleceu isso logo de saída e a carreira do diretor até aquele momento, pelo menos nos gialli, não havia negado esse caminho. Em Suspiria ele se junta ao grande fotógrafo Luciano Tovoli (que já tinha Profissão: Repórter e O Deserto dos Tártaros no currículo) e cria uma verdadeira roda cromática de emoções, com os personagens mergulhados em ambientes com filtro vermelho e azul ao longo de quase toda a projeção e, em momentos particulares, também em verde e amarelo, esta última, a cor que traz o fim à Rainha Negra que dominava a escola de dança. Também se destaca aqui a direção de arte, repleta de padrões para todos os cômodos, com um rigor que em breves momentos nos faz lembrar Wes Anderson, outro grande esteta, de uma geração futura.

Ao lado da banda Goblin, com quem já havia trabalhado em Prelúdio Para Matar (1975), o diretor cria uma trilha sonora assustadora e envolvente, utilizada de maneira aplaudível e servindo de delineação para o grande medo que toma o espaço não só da escola, mas qualquer lugar onde a magia possa chegar e ferir ou matar àqueles que se colocam contra os praticantes das artes das trevas. É por isso que entendo o filme como um produto cujos erros normalmente apontados como grandiosos motivos para derrubar-lhe a qualidade, se justificam prontamente: se é possível aceitar bruxas e bruxaria dominando uma escola de dança e lançando feitiços pela cidade, também é possível alocar mentalmente a estranha passividade das meninas, uma boa parte dos diálogos bovinos por elas proferidos (algo que nem a dublagem, nem as atuações ajudam, sejamos sinceros) e certas decisões tomadas pelo diretor, notadamente no que se refere à morte de uma personagem ou os impasses ligados à fuga do amaldiçoado local.

Com base em Suspiro das Profundezes (Suspiria de Profundis), obra de Thomas De Quincey, Argento cria um conto de fadas incomum, com poucas mas inesquecíveis mortes e um elemento fantasioso que oprime e perturba personagens e espectadores. Um filme que por muitos motivos fez escola e, mesmo que não seja uma obra-prima, tem uma importância conceitual muito grande para o gênero terror, principalmente para diretores que não estão apenas preocupados em gerar o medo puro e simples, mas em também criar, através da beleza, uma porta de entrada para o macabro sobrenatural.

Suspiria (Itália, 1977)
Direção: Dario Argento
Roteiro: Dario Argento, Daria Nicolodi (baseado na obra de Thomas De Quincey)
Elenco: Jessica Harper, Stefania Casini, Flavio Bucci, Miguel Bosé, Barbara Magnolfi, Susanna Javicoli, Eva Axén, Rudolf Schündler, Udo Kier, Alida Valli, Joan Bennett, Margherita Horowitz, Jacopo Mariani, Fulvio Mingozzi, Franca Scagnetti
Duração: 98 min.

Você Também pode curtir

19 comentários

Matheus Oliveira 17 de agosto de 2020 - 18:17

Então fui assistir ao filme sem saber absolutamente nada sobre a história e eu não gostei muito. Assim esteticamente falando o filme é uma obra prima, extremamente bonito, acho que é o filme mais bonito que já vi na vida, os cenários, a iluminação… Espetacular!. Entretanto o mesmo não pode ser dito sobre o roteiro, achei muito fraco, com diálogos bem infantis e não senti uma naturalidade na trama, ela começa bem lenta, dando a entender que a película vai para um determinado direcionamento, aí do meio para o final temos a apresentação do plot verdadeiro – que são bruxas. Achei bem interessante, de verdade, até então estava acontecendo um festival de coisas estranhas, e essa como posso dizer “inserção” de bruxas na trama ajudou a justificar bem, porém achei bem apressado, poderia ter tido um desenvolvimento melhor.

Responder
Luiz Santiago 18 de agosto de 2020 - 01:10

@disqus_MV6v42lVIt:disqus essa é praticamente a maldição dos gialli. Estética sublime e narrativa que não necessariamente nos agrada. Mas para mim, Suspiria não foi um desses casos. Eu adorei o filme, como você certamente percebeu pela crítica, apesar de entender esses pontos que você levantou.

Responder
Claudio 3 de julho de 2020 - 14:54

Era uma vergonha nunca ter visto esse filme, principalmente por gostar muito do Dario Argento e esse ser um filme importante na filmografia dele. Gostei menos do que esperava, lindo sem dúvidas, mas acho que a expectativa jogou contra nesaa hora. Vale o de 2018???? Ou a vida é curta pra perder tempo com coisas médias 😂

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de julho de 2020 - 14:54

Se você não gostou tanto desse assim, não sei bem o que dizer sobre a refilmagem do Guadanino. Eu gostei bastante da versão dele, mas como sua experiência com o original já não foi tão boa, digo que será uma aposta e tanto. Mas sou daquele time do “dê uma chance, pelo menos quando tiver tempo”. Hehehehehehehe

Responder
Claudio 3 de julho de 2020 - 16:08

Vi que você fez a critica do de 2018. Vou ver só pra te contrariar lá 😂.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 3 de julho de 2020 - 16:34

Assim que eu gosto!

Responder
Claudio 3 de julho de 2020 - 14:54

Era uma vergonha nunca ter visto esse filme, principalmente por gostar muito do Dario Argento e esse ser um filme importante na filmografia dele. Gostei menos do que esperava, lindo sem dúvidas, mas acho que a expectativa jogou contra nesaa hora. Vale o de 2018???? Ou a vida é curta pra perder tempo com coisas médias 😂

Responder
jv bcb 26 de junho de 2020 - 03:55

No começo eu não tava gostando, o roteiro é uma merda, mas é fascinante do ponto de vista artístico/conceitual constatar que isso pouco importa, o filme não é sobre enredo ou desenvolvimento de personagens, o filme é uma representação áudio visual de um pesadelo, feito da forma mais estilizada possível, e nisso ele é brilhante, uma verdadeira obra prima, as cores chapadas e saturadas na direção de arte e nas luzes fortes em contraste com as sombras, o ritmo da montagem nas sequências de terror, os movimentos de câmera lentos em harmonia com a duração dos planos, a trilha sonora chamativa, com sintetizadores que contrastam com momentos de silêncio, e a tosqueira dos planos detalhes nos assassinatos, do sangue, dos zooms, tudo isso cria uma atmosfera de terror infantil, é como se fosse um pesadelo de uma criança, tudo é muito lúdico, e isso deixa o filme assustador, pois o sentimento de medo na infância sempre é maior, é como se aquele sentimento menos cético de quando éramos criança voltasse por um momento.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 26 de junho de 2020 - 18:46

Essa sensação da maioria dos espectadores. Como eu gosto muito de giallo, esse tipo de relação se torna bem mais fácil de abraçar logo de cara. São obras em que o enredo acabam tendo uma importância secundária (o que não significa que não tenham seus muitos problemas, dentro desse recorte) e a maneira como isso é mostrado (o mistério, a investigação, que são dois pilares dramáticos do gênero) é o que vai marcar a obra. Alguns conseguem abraçar os filmes pode esse ângulo, mas tem espectadores que não curtem de jeito nenhum!

Responder
JC 30 de março de 2020 - 10:24

Rapaz, que coisa, adoro Giallos, adoro Dario, assisti o remake…e amei o Remake e não consegui gostar tanto desse 😐
Acho que não entrei no filme, como costumo entrar. Acho que um dia tentarei dar uma nova chance a ele, vendo num quarto escuro e sozinho.
A trilha sonora já conhecia, excelente.

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 30 de março de 2020 - 12:06

Já eu prefiro esse aqui. Coisinha linda demais!

Responder
Erica Patricia 12 de janeiro de 2020 - 20:33

Filmaço do começo ao fim trilha sonora show! Só queria saber como o Dário argento conseguiu ter a lendária atriz Joan bennett no elenco perfeita como Madame Blanc

Responder
Luiz Santiago 🌮😈🐂½ 12 de janeiro de 2020 - 21:23

Ela está realmente sensacional no papel!

Responder
Anônimo 29 de março de 2019 - 03:27
Responder
Luiz Santi⚡GADO 29 de março de 2019 - 05:21

Com certeza! Na semana de estreia, 11 d abril!

Responder
Eloísa 28 de março de 2019 - 22:07

Embora eu goste bastante de Inferno, não posso negar que Suspiria é o melhor filme da Trilogia das Três Mães. Você assistiu ao novo longa, dirigido pelo Luca Guadagnino?

Responder
Luiz Santi⚡GADO 28 de março de 2019 - 23:04

Ainda não vi o novo longa, mas verei por ocasião do lançamento aqui no Brasil! Crítica do lançamento será minha 😀

Responder
Rafael Lima 28 de março de 2019 - 14:14

Lembro que algum tempo atrás em uma resenha publicada aqui mesmo no Plano Critico, debati com um colega como uma direção soberba poderia elevar um roteiro problemático, usando justamente “Suspiria” como exemplo. Como você bem apontou, o filme possui alguns diálogos e comportamento de personagens lamentáveis (e não acho que a proposta do filme de criar um pesadelo conceitual através da magia justifique isso).

Mas “Suspiria” sendo uma experiência muito mais sensorial do que narrativa, o peso desses problemas narrativos diminui até (quase) não importarem. A atmosfera onírica que Argento constrói aqui, auxiliado pela fotografia repleta de cores e a trilha icônica do Goblin é tão fascinante que te puxa pra dentro desse delírio horrível (no bom sentido) e não te solta até o fim. A estética que Argento sempre construiu para a violência é elevada aqui á um nível totalmente novo. E claro, temos a Suzy de Jessica Harper, que com seu carisma, acaba funcionando como nossa guia nesse mundo macabro que o Argento propõe aqui. Um dos melhores trabalhos do Argento, com certeza, e talvez o seu filme mais atmosférico.

PS: Chegou a conferir o remake do Guadagnino? Vai fazer a resenha aqui no PC?

Grande abraço!

Responder
Luiz Santi⚡GADO 28 de março de 2019 - 16:42

É o tipo de filme com um fortíssimo apelo estético, com um Universo que acaba diminuindo bastante os problemas que o roteiro traz. Como disse na crítica, ainda acho que esse Universo cabe perfeitamente uma contextualização para tais comportamentos, mas no fim das contas, independente disso, a obviedade de um lugar com bruxas mostrado com esse rigor de direção, fotografia e música não poderia ter um resultado diferente… É simplesmente arrebatador!

Verei o remake na semana de estreia do filme aqui no Brasil (novamente adiado, agora para dia 11 de abril) e escreverei a crítica sim!

Responder

Escreva um comentário

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais