Crítica | Suspíria: A Dança do Medo (2018)

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O Suspiria original, de 1977, é certamente um dos filmes de terror mais bonitos que existe. Dirigido e co-escrito por Dario Argento, baseado em Suspiria de Profundis, de Thomas De Quincey, o longa conseguiu, mesmo com seus problemas de coesão, marcar o giallo e criar uma espécie de escola para os terrores mais escrupulosos que viriam a partir de então, não como única, mas como uma das principais referências. A primeira notícia de que seria realizado um remake de Suspiria apareceu em 2008. O longa seria dirigido por David Gordon Green, teria no elenco estrelas como Isabelle Huppert, Janet McTeer e Isabelle Fuhrman, e uma abordagem operística no roteiro. Devido a problemas financeiros, o projeto foi aposentado e só voltou à tona no Festival de Veneza de 2015, quando Luca Guadagnino anunciou que pré-produzia um “remake” sobre icônica primeira parte da Trilogia das Mães.

Algo muito importante dito pelo diretor em todo o processo anterior ao lançamento da fita é que não se trata, de fato, de uma refilmagem do clássico italiano, mas de uma homenagem que ele faz ao primeiro Suspiria, destacando a poderosa emoção que sentiu ao ver o filme pela primeira vez e destacando, sob um olhar mais cru, cínico e macabro a força intransigente da maternidade. Com efeito, Suspíria: A Dança do Medo (2018), carrega apenas a premissa do original: uma escola de dança na Alemanha, comandada por bruxas, recebe em seu quadro uma jovem e misteriosa dançarina americana. A partir daí, a obra adota um caminho bastante diferente, a começar pela ousada ambientação política, que acaba servindo perfeitamente para encobrir alguns desaparecimentos de dançarinas da escola. O roteiro se vale do ambiente majoritariamente feminino e fortemente enraizado na realidade política da Alemanha em 1977 (mesmo ano em que se passa o primeiro filme).

Juntamente com diversos aspectos da direção, o texto é assumidamente influenciado pelos filmes de Rainer Werner Fassbinder, especialmente o quarteto formado por As Lágrimas Amargas de Petra von Kant (1972), A Viagem de Mãe Küster para o Céu (1975), o filme político e coletivo Alemanha no Outono (1978) e o provocador e “crepuscular” A Terceira Geração (1979). No núcleo do texto, o modelo de construção narrativa que é assumidamente teatral, ou melhor ainda, um balé incomum, anunciado já nos créditos de abertura como “seis atos e um epílogo ambientados em uma Berlim dividida“. O fundo político do Outono Alemão (mais sobre isso no box adiante) se funde bem à tapeçaria de fantasia, mérito do roteiro que infelizmente é pisoteado pela montagem em quase todos os atos, sempre com o mesmo padrão: cenas de grande impacto emocional, visual ou de contexto para a história são interrompidas de maneira seca e tendo na sequência um núcleo narrativo de pouca ou nenhuma importância imediata para a obra. Um constante e incômodo adicionar de água fria na fervura que acaba desequilibrando parcialmente os atos.

Nota Rápida Sobre o Outono Alemão

De 7 de abril a 18 de outubro de 1977, a Alemanha Ocidental passou por um intenso momento de manifestações e crise política que entrou para a História como “Outono Alemão“. A onda do “terrorismo de extrema esquerda” e o recrudescimento do Estado para políticas de controle da população e permanência intensa da polícia no cotidiano das pessoas fizeram que muitas vozes se levantassem e questionassem — quase sempre violentamente — os lados da moeda, procurando encontrar um caminho que não indicasse o flerte da Alemanha dos anos 1970 com as ideias que deram origem ao III Reich, nos anos 1930. No meio de todo esse processo de manifestações de rua, explosão de bancos e todo tipo de reunião e divulgação de ideias em distintos espectros políticos, podemos destacar os seguintes eventos como principais, praticamente todos mostrados neste Suspiria de 2018: o assassinato de Hanns-Martin Schleyer (o odiado Presidente da Confederação de Empregadores da Alemanha Ocidental); o sequestro do avião da Lufthansa (famoso caso do voo 181, que desencadeou a operação “Fogo Mágico” em Mogadíscio, na Somália); e o posterior suicídio na prisão de Andreas Baader, Gudrun Ensslin e Jan-Carl Raspe, da RAF, Fração do Exército Vermelho.

SPOILERS!

Existe um aspecto muito curioso neste roteiro em relação ao tratamento dos personagens. A impressão que eu tenho é que texto e direção procuraram manter o máximo de barreiras possíveis entre público e mulheres, impedindo uma conexão maior com as pessoas e fazendo com que as três colunas-guia do enredo (política, arte e magia) fossem realmente as coisas com as quais a gente se importasse, em intensidades diferentes, claro. A marca mais íntima do longa de 77 é diminuída e, em seu lugar, eleva-se o silêncio (outra diferença colossal entre os filmes, uma vez que a trilha sonora é um dos primorosos aspectos do anterior) e o quê as personagens fazem passa a ter maior importância. Nossa curiosidade se acende a cada novo suspiro ouvido pelos corredores — e o filme tem um bom, mas não perfeito, trabalho de mixagem de som para ressaltar isso –, a cada nova piscadela aos outros filmes de Argento nesse Universo (A Mansão do Inferno e O Retorno da Maldição: A Mãe das Lágrimas) e para a ascensão de Susie (Dakota Johnson) na Companhia, primeiro como uma dançarina estranhamente talentosa e depois com a confusa revelação dela como sendo a verdadeira Mater Suspiriorum, num dos poucos momentos do filme em que achei o roteiro displicente, mesmo que rapidamente.

Como as muitas maternidades são o foco da atenção do diretor Luca Guadagnino, não espanta a sua insistência em mostrar uma figura materna (real ou figurativa) agindo poderosamente em cada um dos atos, sempre cuidando para que o ideal de concepção e futuro nascimento de uma “velha filha” ou “filha-mãe” viesse acontecer. Aí entram as excelentes cenas de dança, que servem como um feitiço invocatório, de preparação e revelação que quase sempre cai na esteira sexual, vide a personagem de Dakota Johnson abrindo-se voluptuosamente no chão, depois pulando, e então comparando seus sentimentos como se fossem os de um ato sexual… animal. Literalmente falando. Mais adiante, Madame Blanc (a bárbara Tilda Swinton, que também interpreta o Dr. Klemperer, sob pseudônimo de Lutz Ebersdorf; e a pseudo-Mãe Helena Markos) cita o sexo como uma possibilidade metafórica para o papel que Susie poderia assumir na Companhia, e não é à toa que a jovem escolhe ser as mãos: símbolo da expressão de atividade, poder e dominação, além das noções de proteção no início e abandono no fim, através das frases “colocar a mão” e “tirar a mão“.

Essa visão simbólica é coroada no Sabbath ou Coven final, cena de uma beleza e força ritualísticas estonteantes, o tipo de sequência que nos adiciona uma provocativa nota mental: “dá vontade, não é A Bruxa?”. Neste momento, amplia-se o aspecto de terror (com marca gore), a larga simbologia psicológica/psicanalítica nas relações entre filhas e mães e uma última e bela mudança estética de Guadagnino e do fotógrafo tailandês Sayombhu Mukdeeprom (o mesmo de Me Chame Pelo Seu Nome). Percebam que o filme tem uma moderada e fria presença de cores primárias em praticamente toda a sua duração, e como havia a influência de Fassbinder na conceitualização do espaço, um pouco do estilo de Michael Ballhaus, seu do fotógrafo recorrente (e indicado ao Oscar na categoria por Nos Bastidores da Notícia, Susie e os Baker Boys e Gangues de Nova York) é também incorporado aqui, o que justifica a ausência de filtro corretor, dando a aparência mais crua e metálica da imagem, e lembrando, pela escolha das lentes, algo documental ou fortemente teatral em uma porção de cenas.

Na lista, também podemos adicionar elementos muito caraterísticos do cinema dos anos 70 que o diretor evoca, como whip zoom, frequente exploração do espaço através de planos gerais, numa gangorra de aproximação e afastamento dos indivíduos enquanto caminham ou correm pelo cenário (marca do diretor, por sinal) e uma forma às vezes um tanto banal de utilizar a câmera lenta. Dos cortes rápidos e enigma na instigante sequência de abertura da película (onde a personagem de Chloë Grace Moretz é mostrada como alguém de extrema importância, mas depois de ter seu sumiço bem justificado pelo roteiro, volta ao final, completamente inútil e deslocada) até o banho de sangue na cena de ritual e possessão da nova Mãe dos Suspiros, percebemos que Guadagnino adota abordagens sensivelmente diferentes,  dando ao filme uma sensação de quase independência em cada um dos atos. O baita trabalho da equipe de maquiagem e os bons efeitos da obra (à exceção da manifestação de luz numa espécie de prisma, que atrai Susie) também  enfatizam essa nossa impressão.

Aqui há um trabalho bem pensado com o uso do silêncio, mas a trilha composta por Thom Yorke, do Radiohead, é igualmente bem utilizada na obra. Ela integra momentos muito importantes e ajuda a delinear melhor a atmosfera de algumas cenas, mas nessa versão não está colocada como uma entidade também geradora do horror, como no original. Suspíria: A Dança do Medo é um filme de estranhas sensações maternais. Acompanhamos essa ideia da gestação ao parto do mal, tratado de modo diferente por cada uma das mulheres que o abraça, basta ver o comportamento de Markos, Blanc e Susie frente a isso. Ao cabo, a Mãe dos Suspiros entende que sua posição no mundo deve ser marcada por culpa e vergonha, como uma mãe que não pode evitar o nascimento de crias ruins. Seu olhar para o nazismo na narração ao Dr. Klemperer, relembrando os últimos momentos da esposa — vivida por Jessica Harper, a mocinha do primeiro Suspiria –, mostra essa questão com todas as letras. Agora que mais uma batalha foi travada e vencida, a força mortal que acompanha as Três Mães tem um novo corpo para viver. Como tudo, em qualquer plano de existência, vemos aqui o fim de um domínio de força vital e maligna e o início de um outro. O mal, como sabemos, sempre renasce, e cada um que o detém irá utilizá-lo por diferentes meios, mas com um mesmo fim. A dança do medo deve continuar…

  • Agradeço a insistência do meu amigo Fernando Campos (mais conhecido como MZ ou parte do Neotrianguloso — alô, alô, Guns!) para que eu visse este filme, que até então não passava nem perto do meu radar de interesses imediatos. E também pela excelente conversa e troca de ideias que tivemos pouco antes de eu começar a escrever a presente crítica.

Suspíria: A Dança do Medo (Suspiria) — Itália, EUA, 2018
Direção: Luca Guadagnino
Roteiro: David Kajganich (baseado nos personagens de Daria Nicolodi e Dario Argento)
Elenco: Chloë Grace Moretz, Tilda Swinton, Doris Hick, Malgorzata Bela, Dakota Johnson, Angela Winkler, Vanda Capriolo, Alek Wek, Jessica Batut, Elena Fokina, Mia Goth, Clémentine Houdart, Ingrid Caven, Sylvie Testud, Fabrizia Sacchi, Renée Soutendijk, Fred Kelemen, Greta Bohacek, Jessica Harper, Toby Ashraf
Duração: 152 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.