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Crítica | “Sweet Edy” – Edy Star

Música e desafio.

por Iago Iastrov
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A safra em que Sweet Edy (1974) foi lançado, pela Som Livre, foi uma safra e tanto! Vamos começar pelo fato de que o Brasil vivia, há 10 anos, sob uma censura ditatorial e, paradoxalmente, num momento em que a androginia começava a ganhar espaço nos palcos brasileiros. Edy Star, artista baiano que se apresentava na boate Number One, no Rio de Janeiro, e já tivera a experiência conceitual da Sociedade da Grã-Ordem Kavernista Apresenta Sessão das 10 (1971) ao lado de Raul Seixas, Sérgio Sampaio e Miriam Batucada, teve seu primeiro álbum solo viabilizado após ser visto pelo presidente da Som Livre, João Araújo. Produzido por Guto Graça Mello, o disco reuniu canções encomendadas a diversos ícones da MPB. A gravação aconteceu quando os Secos & Molhados já haviam lançado seu primeiro disco, o grupo Dzi Croquettes performava desde 1972 nos palcos paulistas e cariocas, e Alice Cooper realizava em 30 de março de 1974 seu show no Anhembi, com público recorde de 158 mil pessoas, ou seja, uma atmosfera cultural na qual identidades de gênero não-normativas e teatralidade encontravam lugar na música popular.

Entre boogie woogie (Boogie-woogie Do Rato), samba-rock (Pro Que Der Na Telha de Moraes Moreira e Luiz Galvão), tango-rock (Coração Embalsamado de Getúlio Côrtes), rock teatral (Claustrofobia de Roberto e Erasmo Carlos, que expressa a clausura imposta pelo regime) e experimentação psicodélica (Conteúdo de Caetano Veloso), Sweet Edy constrói sua sonoridade sem ficar em um território musical fácil e conhecido. Guto Graça Mello conduziu a produção equilibrando a fineza harmônica da MPB com a soltura crua do rock, criando atmosferas que oscilam entre intimismo, cinismo e galhofa. Edyth Cooper, de Gilberto Gil, homenageia Edy através da comparação explícita com Alice Cooper, criando pontes entre a persona do artista baiano e as referências norte-americanas do shock rock, enquanto Superestrela (Leno e Raul Seixas) e a faixa-título, Sweet Edy (Renato Piau e Sérgio Natureza) trabalham a autoafirmação lírica sem simbolismos complicados. O álbum é composto por um vocabulário que não dá pra categorizar com facilidade, e explora as possibilidades de um artista que canta, performa e desafia expectativas de masculinidade num país cristão e militarizado.

A escolha de regravar Esses Moços (Lupicínio Rodrigues, 1948, originalmente na voz de Francisco Alves) mostra uma atitude pouco comum no contexto do glam, já que conecta o projeto com a cultura radiofônica que formou Edy na Bahia. A letra, que na versão original abordava uma geração de rapazes vista com desconfiança pela sociedade conservadora do pós-guerra, tem outros sentidos quando reinterpretada por um artista que se tornaria, pouco depois, o primeiro músico brasileiro a se declarar publicamente homossexual (em entrevista à revista Fatos & Fotos em 1975), transformando a canção num atravessamento temporal entre duas gerações de dissidência. Enquanto isso, faixas como Briguei Com Ela e Eu Sou Edy Star (ambas do próprio Edy) trabalham a autoafirmação de forma direta, sem os véus poéticos que caracterizavam parte da MPB da época, e Olhos de Raposa (Jorge Mautner) traz uma concepção entre o erótico e o fantástico. O disco faz um resgate das tradições musicais brasileiras e incorpora elementos do rock internacional, experimentando e rindo de tudo isso, sem que um aspecto cancele ou subordine o outro.

Sweet Edy vendeu poucas cópias e a crítica falou menos da música e mais da persona de Edy. Em 2011, o álbum foi relançado pela Joia Moderna e em 2019, ganhou edição especial em vinil holográfico, numerado em 500 cópias, um reconhecimento que mostra sua relevância como um dos trabalhos inaugurais na construção de repertórios musicais LGBTQIA+ no Brasil. Hoje, é um artefato histórico de um artista que, através da música e da performance, recusou os binarismos de gênero e as fronteiras estéticas, abrindo caminhos para que outras expressões pudessem se afirmar na música brasileira das décadas seguintes.

Sweet Edy
Artista: Edy Star
País: Brasil
Lançamento: 1974
Gravadora: Som Livre
Capa: Edy Star
Estilo: MPB, pop rock, glam, funk, psicodélico, blues rock, rock
Duração: 33 min.

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