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Crítica | Sweet Tooth – Vol. 1: Saindo da Mata

por Ritter Fan
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Sweet Tooth que, no Brasil, foi publicada com o subtítulo Depois do Apocalipse, que eu decidi retirar de minhas críticas por ser redundante, foi uma série em quadrinhos composta de 40 edições publicadas entre 2009 e 2012 pela infelizmente finada Vertigo Comics e que foi criada, escrita e desenhada por Jeff Lemire, com cores de José Villarrubia e que, recentemente, ganhou uma “continuação”, batizada simplesmente de Sweet Tooth: O Retorno, como parte da estratégia para chamar atenção para a propriedade em razão de sua adaptação televisiva pelo Netflix. Descrita comumente de “Bambi encontra Mad Max“, a obra bebe muito francamente dessas duas fontes, tendo Bambi inclusive como obra diretamente mencionada, com versões dos personagens clássicos povoando os sonhos do protagonista.

No primeiro arco – Saindo da Mata – Lemire, então ainda razoavelmente desconhecido, certamente bem distante do status de pop star dos quadrinhos que merecidamente goza hoje em dia, faz o básico do básico e nos apresenta a Gus, um garoto de 11 anos que é um híbrido de humano com cervo e que vive isolado com seu pai idoso e doente em uma cabana em uma reserva florestal. Sem conhecer o mundo ao seu redor para além do que seu pai extremamente religioso conta, mas sabendo que há algo de terrível ao redor do paraíso em que vive, não demora e Gus, sozinho, é obrigado a encarar esse mundo ao lado do violento Jepperd, que salva sua vida de dois caçadores e promete levá-lo a uma suposta Reserva, onde crianças como ele vivem em paz.

O universo criado por Lemire, assim como a crise por que Gus passa, nada mais do que uma trajetória de amadurecimento, é clichê, ou seja, estamos mesmo em um apocalipse, em que a população mundial foi dizimada por uma praga misteriosa que parece ter surgido juntamente com as crianças híbridas, ainda que a conexão entre esses fatos não fique clara neste primeiro momento para além de Gus ser uma anomalia, por aparentemente ter nascido antes do chamado Flagelo. Mas reparem que, quando uso a palavra clichê, hoje com uma conotação tão negativa, não quero de forma alguma dizer que as escolhas de Lemire são ruins. Muito ao contrário, ele usa os clichês para montar uma história básica, é verdade, mas com muito coração, algo principalmente caracterizado pela pureza de Gus, apelidado de Sweet Tooth (ou Bico Doce, na tradução em português) por Jepperd, já que ele adora chocolates e outras guloseimas do tipo. O menino não entende o mundo em que vive para além da alegorias bíblicas que seu pai contava para ele e dos sonhos/pesadelos que tem, alguns prescientes, outros com uma versão de Bambi e Tambor funcionando como avatares do que sua inocência não o deixa enxergar.

O cenário pós-apocalíptico que vemos na jornada da dupla é bastante, digamos, genérico, do tipo que, sozinho, não segura de forma alguma a premissa. Lemire até se arrisca em não ir muito além nesse arco inicial, mantendo tudo não só muito simples, como também claramente telegrafado desde o início, já que nenhum leitor comprará as intenções puras de Jepperd. Mas o autor não tem pressa, o que, aliás, faz parte de seu estilo indie de escrever, sempre procurando lidar com elementos psicológicos como no excelente O Soldador Subaquático, em um crescendo vagaroso, mas constante que pode não ser repleto de surpresas a cada página, mas que constrói os personagens de maneira cativante.

Gus, claro, é o destaque e sua natureza boa e pura, além de sua aparência peculiar, prende o leitor quase que imediatamente, fazendo-o viver seu sofrimento por estar sozinho, por ter que dar os primeiros passos para fora do mundo que conhecia e por ter que confiar em alguém que acabou de conhecer. O desbravamento do mundo perigoso fora da proteção de nossos pais e de nossa casa é uma das primeiras e mais marcantes experiências de quando fazemos a transição da tenra idade para a adolescência e Lemire simboliza isso muito bem Gus e seu périplo por um mundo moribundo que o vê como uma aberração.

Mas Jepperd é outro personagem fascinante, talvez até mais que Gus. Trata-se de um homem atormentado cuja moral ora está de um lado, ora de outro. Sua presença é imponente e ameaçadora, mas simultaneamente protetora e paternal. Os diálogos, apesar de duros, transparecem genuína preocupação com o bem-estar de Gus que, claro, logo se conecta com o homem mais velho, algo que vem de sua dependência natural e, claro, sua natureza dócil e pura. Jepperd, de certa forma, representa os tons de cinza de um mundo estranho para Gus, já que ele vivia em seu cantinho onde tudo ou era certo ou errado, sem qualquer nuança. Mesmo que, como disse, Lemire telegrafe as intenções de Jepperd desde sua primeira aparição ainda em sonho para Gus, a conexão entre eles transparece como genuína, algo que fica ainda mais forte na medida em que a história se desenvolve e notamos que Jepperd parece ter razões mais profundas para fazer aquilo que faz.

A arte de Lemire é algo que exige costume e adaptação, já que ele não desenha para agradar. Seus traços são simplificados e, aqui, feios mesmo, representando um mundo cada vez mais doente, algo amplificado pelas cores entristecidas e mudas de José Villarrubia. Até mesmo Gus ganha traços que fazem pouco para embelezar o protagonista que ganha feições caricaturais impostas pelo artista talvez para tornar a conexão do leitor com ele sem a futilidade da beleza, ou seja, tornando-a ainda mais legítima e potente. É, portanto, uma arte de corajosamente tende a afastar o leitor, ao mesmo tempo que é a melhor possível para esse universo desesperador e sem saída criado por Lemire.

Neste primeiro volume, Sweet Tooth ainda está tentando andar sem cambalear. O começo é lento e a temática é simples, ainda que seja mais enganosamente simples do que meramente simples. Há pouco avanço narrativo para além do estabelecimento da premissa, com Lemire pedindo paciência ao leitor para descortinar o promissor futuro (para nós leitores, não exatamente para Gus ou Jepperd) que sua história pós-apocalíptica inegavelmente tem.

Sweet Tooth – Vol. 1: Saindo da Mata (Sweet Tooth – Vol. 1: Out of the Deep Woods – EUA, 2009/2010)
Contendo: Sweet Tooth #1 a 5
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Jeff Lemire
Cores: José Villarrubia
Letras: Pat Brosseau
Capas: Jeff Lemire, José Villarrubia
Editoria: Brandon Montclare, Bob Schreck
Editora: Vertigo Comics
Datas originais de publicação: setembro de 2009 a janeiro de 2010
Editora no Brasil: Panini Comics
Data de publicação no Brasil: novembro de 2012
Páginas: 125

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