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Crítica | Sweet Tooth: O Retorno

por Ritter Fan
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  • Há spoilers. Leiam, aqui, as demais críticas de Sweet Tooth.

Como vem acontecendo com certa frequência, autores de séries em quadrinhos já encerradas, ao emplacarem sua obra para servir de base para alguma adaptação audiovisual, aproveitam-se da oportunidade para de alguma forma reviver o material. Faz parte do jogo, claro, e Sweet Tooth, excelente saga pós-apocalíptica de Jeff Lemire em 40 edições que foi publicada pelo finado selo Vertigo da DC Comics entre 2009 e 2013, não ficou imune à essa estratégia, com seu autor retornando à sua criação para aproveitar-se do lançamento da série homônima do Netflix.

O que realmente importa é saber se Lemire trouxe algo de novo à mesa, se ele conseguiu justificar de verdade a existência desta nova minissérie em seis edições batizada singelamente de Sweet Tooth: O Retorno, agora publicado sob o selo DC Black Label. Minha resposta a essa pergunta é não, o autor, aqui, não fez muito mais do que criar uma maneira de repetir seu épico, só que desta vez de maneira extremamente condensada. Mas isso não quer dizer exatamente que essa volta ao seu personagem é imprestável e que não agrega absolutamente nada à mitologia, mas sim, apenas, que Lemire preferiu jogar um jogo seguro e familiar, repisando temas e estruturas, mas abrindo uma porta para eventual continuação, o que não é nenhuma surpresa.

Temos que lembrar que Sweet Tooth – a série original – contou uma história fechada, com começo, meio e fim, que substancialmente lidou com a jornada de um jovem híbrido de humano e servo chamado Gus e apelidado de Sweet Tooth por adorar doces, por um mundo pós-apocalíptico em que a população humana foi devastada por um vírus mortal. Ao seu lado, há o humano Tommy Jepperd, ex-jogador de hóquei durão que começa como vilão, somente para enamorar-se pelo menino como um pai, ajudando a sobreviver ao longo de seu caminho. Ao final, muito anos depois que Jepperd se sacrifica por ele, Gus morre de velho, deixando um belo legado de paz aos híbridos do mundo, em um encerramento redondo e muito bonito que avança décadas no tempo.

Como, portanto, justificar uma continuação, especialmente com o mesmo título (que é o apelido do protagonista)? E a resposta está na própria HQ original. Lá, Gus era um clone e, em O Retorno, ele é novamente um clone, mais ou menos na mesma idade que o conhecemos em 2009, sendo criado por um homem identificado apenas como Padre ou Reverendo, mas cuja tradução direta, Pai, também funciona, que é, ao mesmo tempo, líder religioso e cientista maluco em uma gigantesca cadeia de cavernas debaixo da Terra que, 300 anos depois, serve de abrigo aos últimos humanos (por uns minutos, isso me lembrou muito o terrível De Volta ao Planeta dos Macacos). O objetivo do Padre – evidente amálgama de Abbott e do Dr. Singh – é transformar a nova versão de Gus em um Cavalo de Troia, soltando-o na superfície como um vírus letal aos híbridos, de forma que a humanidade possa retomar seu lugar ao sol.

Como mestre em seu ofício, Lemire conta muito bem sua história que, claro, não segue a objetividade da explicação acima e começa substancialmente da mesma maneira que a primeira edição da série original, com Gus, sem saber quem ele é exatamente, tendo a coragem de ultrapassar a barreira do santuário em que vive recluso, ignorante de que há outros humanos vivendo por ali. Em sua jornada de autodescoberta, ele faz amizade com a menina humana Penny, que faz as vezes de Wendy, e o híbrido Earl, um poderoso Homem Elefante que, claro, faz as vezes de Jepperd na narrativa rápida e muito eficiente, que, por incrível que pareça, segue uma boa lógica interna de forma a repetir os passos do Gus original, agora “revivido” como avatar da destruição de sua própria espécie, sem dúvida uma grande ironia do destino.

A arte de Lemire, depois de tantos anos e de sua desde então mais do que prolífica carreira nos quadrinhos, evoluiu bastante, mas o autor reverte à linguagem visual original de seu trabalho, só que com os refinamentos que foi absorvendo ao longo dos anos, o que resulta em uma obra muito bonita e, mais do que isso, muito fluida e fácil de ler, algo essencial considerando que ele condensa basicamente o que poderia ser uma história de mais 40 edições em apenas econômicas seis. Novamente em parceria com José Villarrubia, que traz uma paleta de cores lúgubre e em tons de cinza permanentes quebrados quase que somente pelo que sobrou da camisa quadriculada do Gus original, a abordagem visual entristecida e desesperançosa é mantida, ainda que por razões diferentes.

Sweet Tooth: O Retorno não era nem de longe uma volta necessária ao material original, mas a minissérie existe e temos que lidar com esse simples fato. Sorte é que Lemire é mais do que apenas um roteirista trivial mesmo quando não tem nada de realmente novo para contar, o que faz da nova história uma leitura simpática, ainda que longe de essencial. Talvez, se ele decidir continuar a saga – o que também é desnecessário, vale dizer, pois a minissérie é autossuficiente – ele consiga agregar mais à mitologia original do que apenas uma nostálgica repetição temática e narrativa que, porém, está vários degraus acima de um mero caça-níqueis.

Sweet Tooth: O Retorno (Sweet Tooth: The Return – EUA, 2020/21)
Contendo: Sweet Tooth: The Return #1 a 6
Roteiro: Jeff Lemire
Arte: Jeff Lemire
Cores: José Villarrubia
Letras: Steve Wands
Capas: Jeff Lemire, José Villarrubia
Editoria: Amedeo Turturro
Editora: DC Black Label (DC Comics)
Datas originais de publicação: novembro de 2020 a abril de 2021
Páginas: 148

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