Crítica | System Crasher

System Crasher plano critico filme

System Crasher — o escolhido da Alemanha para a disputa de Melhor Filme Estrangeiro no Oscar — é diferente das outras histórias típicas sobre uma infância problemática. Sua preocupação não está em acompanhar sua protagonista superando as dificuldades normais da idade. Nesse quesito, o filme é o oposto de Oitava Série (2018), um excelente exemplo do gênero. Apesar de se diferenciar em diversos pontos de Projeto Flórida (2017), System Crasher converge com este por mostrar uma perspectiva infantil para entender algumas mazelas sociais da sociedade contemporânea. 

Na Alemanha, a jovem Benni (Helena Zengel) vive alternando entre lares adotivos e centros educacionais. Aos 9 anos, ela é fruto de uma infância repleta de abusos físicos, de padrastos agressivos e uma mãe completamente omissa. Assim, tais acontecimentos foram cruciais para que ela se tornasse uma criança extremamente violenta — imagine a Matilda, só que mil vezes pior. No entanto, quando Michael (Albrecht Schuch) é encarregado de ser seu tutor, ele acredita que ela pode ser salva, antes que seja enviada para um manicômio.

É interessante como a primeira cena de System Crasher resume todo o resto da narrativa. Primeiro, vemos os pés pequenos de Benni cobertos por uma meia rosa. Nada mais inocente do que isso. Logo depois, a câmera sobe e vemos aquela menina deitada cheia de fios na cabeça. O filme é como uma grande tentativa entender como aquela figura angelical, loira e de olhos azuis, se tornou, praticamente, uma personificação de um espírito anarquista.

Afinal, o nome do filme ainda não foi traduzido para o Brasil, mas Benni é essa transgressão do sistema, uma anomalia no funcionamento das instituições sociais. Mais do que isso, ela é apenas uma dentre tantas outras crianças que tiveram uma formação de caráter prejudicada por conta de negligência parental. Inclusive, essa, frequentemente, acaba sendo um reflexo da falta de um planejamento financeiro adequado.

No entanto, apesar de tudo isso estar no subtexto de System Crasher, o longa quer saber menos das causas que levaram a tal estado, e mais das consequências. Neste sentido, a diretora Nora Fingscheidt se apoia em uma violência explícita e crua, que choca justamente em contraste com a pureza visual de Benni (a escalação de Zengel é perfeita). 

Como uma enorme bomba-relógio, ela está sempre pronta para liberar seu espírito livre e fugir. A própria câmera tremida de Fingscheidt faz mais do que acompanhar suas inúmeras — e até repetitivas — fugas. Assim como os outros adultos da trama, é como se o enquadramento tentasse alcançá-la, mas Benni é mais rápida. Ou melhor, inalcançável.

Todavia, longe de cair em um maniqueísmo barato, a protagonista não é uma figura totalmente sádica. Pelo contrário, há diversas sequências nas quais vemos uma genuína felicidade e inocência, principalmente com a comovente relação com Michael. No fundo, ela é essa menina que nunca teve a atenção necessária quando criança. Por isso, Zengel é essencial como atriz ao trazer um sorriso tão honesto e humanizador. 

No fim, a obra alemã de Fingscheidt acaba sendo como um filme de terror. Entretanto, não falo aqui de jumpscares ou do “pós-terror”. Semelhantemente a Bom Comportamento (2017), ela é essa intensa experiência sensorial de um sentimento de constante ansiedade de sua protagonista.

Muito do poder imagético de System Crasher reside justamente no contraste entre a figura da pessoa que pratica os atos e as ações em si. Ao longo do filme, vai ficando claro que Benni ainda é uma criança como qualquer outro, mas mimetiza, sem entender a importância, aquilo que cresceu vendo. 

SPOILERS!

Essa dicotomia inocência-crueldade se evidencia principalmente na última cena, quando o filme se encerra com ela correndo, de braços abertos, por um telhado de um aeroporto, enquanto a imagem congela logo quando pula para “voar”. Sem entender as consequências de seu ato, a imagem que persiste é justamente a de seu sorriso, ou seja, a da inocência. Um fim um tanto sádico quanto irônico, apesar de fazer sentido.

System Crasher (System Crasher) – Alemanha, 2019
Direção: Nora Fingscheidt
Roteiro: Nora Fingscheidt
Elenco: Helena Zengel, Albrecht Schuch, Gabriela Maria Schmeide, Lisa Hagmeister, Maryam Zaree, Melanie Straub
Duração: 125 minutos

MICHEL GUTWILEN . . . Já toquei uma gaita com Sergio Leone, lutei contra o sistema com Ken Loach, me apaixonei com James Gray, xinguei minha mãe com Xavier Dolan, tive uma crise de ansiedade com Darren Aronofsky, fui a um baile de máscaras com Stanley Kubrick e nasci do útero de de Naomi Kawase. Um constante indeciso. Acredito que não há verdades absolutas na crítica cinematográfica, com uma exceção: Star Wars - The Last Jedi é maravilhoso e isso é irrefutável — leve essa última frase na brincadeira....ou não.