Crítica | Também Fomos Felizes

Também Fomos Felizes (1951) YASUJIRO OZU PLANO CRITICO

O foco central na filmografia de Yasujiro Ozu após a 2ª Guerra Mundial foi explorar as mudanças sociais e ideológicas pelas quais o Japão passou a partir do conflito. De maneira singela, começamos a observar isso em Discurso de um Proprietário (1947), tendo o diretor a partir deste ponto tocado em temas que não eram alheios a ele, mas inseridos em uma realidade social em transformação, portanto, mais cheia de incertezas e apostas, o que adiciona toda uma camada de bela melancolia às películas do diretor daí em diante. Na fase mais conhecida de sua carreira, ou seja, nos filmes que vão de As Irmãs Munekata (1950) até o seu último longa, A Rotina Tem Seu Encanto (1962), esta seria a principal base dos roteiros. Também Fomos Felizes, claro, se encaixa nessa categoria.

O texto de Ozu aqui, novamente em parceria com Kôgo Noda, nos faz acompanhar uma família da qual se destaca Noriko (Setsuko Hara), jovem adulta de 28 anos e ainda solteira, que vive com o irmão médico Koichi (Chishū Ryū), a cunhada Fumiko (Kuniko Miyake), os sobrinhos e os pais, Shukichi (Ichirō Sugai) e Shige (Chieko Higashiyama). Os primeiros minutos do filme dão a verdadeira face do cotidiano desta família. Eles vivem em paz, compartilhando com muito carinho momentos à mesa, pequenas surpresas do dia a dia e uma ou outra travessura e frases engraçadas que as crianças fazem ou falam. Como em qualquer família e como em qualquer cotidiano, temos aqui o marasmo, a falta de ação, a repetição de uma rotina que o diretor jamais deixa ficar cansativo, e notem que estamos falando de um filme de duas horas de duração. O impecável trabalho no rimo interno e externo da história sustenta essa observação do cotidiano interessante do começo ao fim.

Ozu atestou, algum tempo depois, que sua intenção aqui era deixar clara a vivência do ciclo da vida através da família de Noriko e de como este ciclo está repleto de surpresas, especialmente porque o mundo à nossa volta segue em constante transformação e exige que nos adaptemos ou dialoguemos com ele. Assim como em seu filme anterior da Trilogia Noriko, Pai e Filha (1949), a mulher solteira — ainda mais que o homem — causa um certo desconforto e preocupação às pessoas mais velhas, que cobram logo o matrimônio “antes que seja tarde“. Este é um aspecto ainda mais forte para as sociedades Orientais do que as Ocidentais, e a quebra ou comportamento fora do esperado que o diretor explora aqui (inclusive sugerindo a possibilidade de Noriko ser lésbica, em dado ponto da história) é um elemento maravilhoso de se ver, ainda mais quando acompanhado com um rigor estético que engrandece os laços familiares e fraternos.

O fato de Noriko tomar a decisão por si mesma — e em seu tempo — é parte das mudanças previstas nesta “Nova Era”, onde a mulher passa a ter independência e onde o choque de realidade frente ao comportamento feminino ganha maior relevo em obras como as de Ozu, onde o espectador não precisa focar na ação (que assumidamente não existe), mas no significado que os diálogos, os planos, as expressões, os objetos têm para a história. Podemos aproveitar de tudo um pouco no longa, das brigas familiares e entre amigos, até os diálogos sobre dificuldades financeiras, novas perspectivas de trabalho e realização de sonhos. E quanto a este último aspecto, devo destacar a soberba cena em que Noriko conta para Tami (Haruko Sugimura) sobre sua decisão de casamento, resultando em uma reação impagável da mulher mais velha, certamente uma das mais bonitas, emotivas e fofas que eu já vi no cinema dentro do contexto de casamento.

Mais uma vez olhando para a vida como uma construção cheia de momentos perigosos e outros inesquecíveis e até felizes, Bakushû mostra um pouco o orgulho que é viver e ter experiências e disposição para aconselhar os mais jovens e lembrar-se com carinho de tudo o que já se passou ao longo da vida. E como parte deste constante ciclo, à medida que as gerações mais antigas só querem paz e descanso, as mais novas precisam batalhar para fazer com que sua colheita futura seja tão rica quanto os sonhos do presente. Até que eles se lembrem, em idade avançada, o quanto foram felizes.

Também Fomos Felizes (Bakushû) — Japão, 1951
Direção: Yasujiro Ozu
Roteiro: Yasujiro Ozu, Kôgo Noda
Elenco: Setsuko Hara, Chishû Ryû, Chikage Awashima, Kuniko Miyake, Ichirô Sugai, Chieko Higashiyama, Haruko Sugimura, Kuniko Igawa, Hiroshi Nihon’yanagi, Shûji Sano, Toyo Takahashi, Seiji Miyaguchi, Tomoka Hasebe, Kokuten Kôdô
Duração: 125 min.

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Depois de recusar o ingresso em Hogwarts, fui abduzido pelo Universo Ultimate. Lá, tive ajuda do pessoal do Greendale Community College para desenvolver técnicas avançadas de um monte de coisas. No mesmo período, conheci o Dr. Manhattan e vi, no futuro, Ozymandias ser difamado com a publicação do diário de Rorschach. Hoje costumo andar disfarçado de professor, mas na verdade sou um agente de Torchwood, esperando a TARDIS chegar na minha sala de operações a qualquer momento.