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Crítica | Tangerinas (2013)

por Gabriel Tukunaga
257 views (a partir de agosto de 2020)

O cinema é uma grande fraude”. Em uma das passagens de Tangerinas, filme estoniano dirigido pelo georgiano Zaza Urushadze, esta frase é apresentada aos telespectadores. Conquanto a cena possa parecer banal diante toda a conjuntura do roteiro, a proclamação de tal mote exibe um dos expoentes da película. Sendo a sentença proposital ou não, a obra consegue um feito quase inédito quando comparada às produções hollywoodianas que abordam a guerra. Primeiramente, Tangerinas consegue criar uma atmosfera ímpar ao não privilegiar o lado conhecido desses grandes conflitos, — as bombas, armas, destruição, explosões e os efeitos especiais por vezes forçados e infindáveis — dando maior ênfase ao viés ideológico dessas hostilidades, principalmente através de um protagonista que é civil, não apresenta nenhuma preferência partidária e um cenário que não, não é um campo de batalha!

Em meio a uma incessante gama de produções cinematográficas pós 11 de setembro e invasão ao Iraque que se mostram repetitivas, panfletárias, tendenciosas e medíocres, o filme de Urushadze é inovador. Como o próprio diretor disse, acaba não sendo sobre a guerra em si; e sim sobre os valores humanos e a humanidade em condições extremas. Chega a ser surpreendentemente gratificante contemplar uma película que não apresenta os Estados Unidos, a Europa ou qualquer outra nação como salvadora e defensora da pátria. A guerra é exibida como desnecessária e animalesca, como o caminho mais distante para obter a paz, em que nenhum dos lados é íntegro.

Tangerinas é um filme histórico que se passa na Guerra da Abecásia, no início da década de 1990. A disputa por esse pequeno território teve início com a dissolução da União Soviética, no final da Guerra Fria. O recém-independente Estado da Geórgia travava uma luta pela região com separatistas da própria Abecásia que, por sua vez, recebiam o apoio de russos, chechenos e outros povos. Apesar de ficcional, a película de Urushadze poderia muito bem ter acontecido durante o conflito — não somente devido ao roteiro, como também à ambientação e às personagens, visto que algumas foram baseadas em pessoas que o diretor realmente conheceu.

Ivo (Lembit Ulfsak) e Margus (Elmo Nüganen) trabalham no meio rural com a produção de tangerinas, típicas da região. O início da guerra forçou seus parentes, que moravam com eles, a voltarem para a Estônia. Os dois homens, todavia, continuaram resistindo para permanecerem no local em que viveram durante toda sua vida. O cotidiano dos fazendeiros é por fim afetado quando um grupo de chechenos entra em conflito armado com um de georgianos, próximo à propriedade dos produtores de tangerinas. Com a morte de quatro dos seis militantes, Ivo e Margus conseguem salvar o checheno Ahmed (Giorgi Nakashidze) e o georgiano Niko (Misha Meskhi). É claro que as desavenças ideológicas dos combatentes sobreviventes iriam proporcionar conflitos. No entanto, perante a promessa de que não irão matar um ao outro sob o teto de Ivo, uma espécie de guerra fria — a referência não poderia ser mais clara — é sucedida entre Ahmed e Niko.

A desenvoltura de Tangerinas é espetacular. Apesar de não trazer muita inovação com a câmera e a montagem, a ambientação é sensacional. Contrapondo os cenários clássicos de filmes baseados em guerras, as cenas são extremamente simples e se passam inteiramente na aldeia isolada de Ivo e Margus. A fotografia, apesar de esteticamente elegante, não deixa o telespectador esquecer de que um grande conflito está acontecendo. A hostilidade e superficialidade do combate são traduzidas com leveza através das imagens de uma paisagem bonita e, ao mesmo tempo, melancólica.

Tangerinas consegue, com sutiliza, prender o telespectador. Não são efeitos especiais ou um roteiro cheio de reviravoltas que mantém um bom ritmo para a película. Na verdade, o oposto ocorre: as ótimas atuações do elenco, centrado em quatro personagens, mesclam o temor da guerra com a sensibilidade que ainda existe no ser humano. Um exemplo extremamente pertinente é a personagem Ivo, que constrói uma empatia incrível. Mesmo sendo indócil em alguns momentos, o solidário homem não impede que a guerra destrua seu humor, apresentado em diversas cenas — ainda que interrompido por algum inconveniente, nos remetendo de maneira ríspida ao ambiente de guerra. Em suma, a obra questiona também a maneira de retratar esses grandes conflitos, demonstrando que, por trás de todas as proezas bélicas e ideológicas, também existe um ser humano.

A simplicidade, destreza e delicadeza do filme estoniano são concretizadas através dos diálogos. Tanto Ahmed quanto Niko mostram-se dispostos a defender a qualquer custo suas ideologias. Contudo, fica em aberto o questionamento comum à máquina da guerra: afinal, eles sabem qual o fundo desse ódio? O que é esse rancor imposto por alguém — quem? — que se mostra desvantajoso para todos os lados e é desumano? Tangerinas consegue ser um filme antibélico sem se tornar piegas, e despertar, especialmente com seu desfecho, um otimismo acerca do rumo que toma a humanidade. A película de Urushadze nos lembra que temos nossas individualidades e virtudes que, apesar de muitas vezes se perderem em meio a ideologias e espectros materialistas, fazem parte da essência do ser humano e podem ser o caminho para a destituição dos discursos de ódio e ascensão de, por fim, um ambiente realmente humanitário.

Tangerinas (Mandariinid) — Estônia, Geórgia, 2013
Direção: Zaza Urushadze
Roteiro: Zaza Urushadze
Elenco: Lembit Ulfsak, Elmo Nüganen, Giorgi Nakashidze, Misha Meskhi, Raivo Trass
Duração: 87 min

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6 comentários

Michel Gutwilen 6 de março de 2020 - 16:43

Não só sobre sobre o óbvio questionamento dos valores e as motivações da guerra, que apontam sua insignificância e incoerência, mas também um filme principalmente sobre manter os costumes como forma de combater a barbárie através de um mínimo de civilidade. Cortar madeira, preparar comida, tomar um chá, não proferir um palavrão, a reza de manhã transformam a casa nesse ambiente sagrado onde o mal não entra. Se Ivo precisa agir como um mediador para provar que Ahmed e Nika não são tão diferentes assim, com o passar do tempo os dois começam a interagir por conta própria. Pode ser uma coisa pequena, mas me incomoda todo o diálogo metalinguístico no qual os personagens falam que aquilo não é cinema, supondo a aproximação do filme de um possível cinema-verdade, quando na verdade Tangerines segue até uma estrutura bem convencional de arco dramático como forma de trazer uma mudança para seus protagonistas. Acho que faria mais bem ao filme se tivesse se assumido definitivamente como uma parábola moderna e tentasse fugir de um certo realismo que a direção de Urushadze tenta trazer, diferentemente da trilha sonora extremamente melancólica e poderosa que vai para o outro lado. No mais, uma bela história anti-guerra e humanitária.

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Liliane de Paula Martins 9 de setembro de 2017 - 12:23

Assisti só hoje esse maravilhoso (Tangerinas) e me encantei com a história com a aridez das fotografias e a amizade entre os vizinhos Margus e Ivo.

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Claudia Facchini 17 de março de 2015 - 18:24

Assisti ao “Tangerinas”no fim de semana e realmente me surpreendeu. É um filme honesto com si próprio, com os personagens, com o espectador. Não engana com fotografias lindas ou efeitos visuais. É uma crítica profunda ao absurdo da guerra, travada num plano cotidiano e humano, e ainda ao próprio cinema. Muito bom filme e parabéns pela crítica, que está muito bem construída!

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Gabriel T 19 de março de 2015 - 22:34

Exatamente Claudia, descreveu o filme perfeitamente: ele é honesto. O fato da fotografia não ser tão bem trabalhada criou, para mim, um contraponto entre o ambiente hostil da guerra e a paisagem bela em que se passa a película. A crítica é espetacular, principalmente por ir no cerne da questão, a questão da humanidade — se é que existe uma — na guerra. Tal crítica consegue se diferenciar e sair daquela coisa banal que sempre vemos em filmes do tipo. Urushadze acertou na mão e conseguiu, simultaneamente, construir uma crítica sólida, entreter e representar o ambiente hostil. É extremamente gratificante receber um elogio destes, muito obrigado! =)

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João Loureiro 22 de fevereiro de 2015 - 09:52

Ótima crítica sobre um belíssimo filme que representa um olhar sensível sobre a humanidade em meio a desumanidade de uma guerra. A premissa de “Tangerinas” tem similaridade com o ótimo “Terra de ninguém” com a “vantagem” deste nos remeter ao ambiente hostil de uma guerra sem estarmos necessariamente em uma trincheira como o filme bósnio, mas ambos são filmaços à sua maneira. Dos indicados ao Oscar de filme estrangeiro este ano, creio que este ao lado de “Ida” e “Leviatã” são excepcionais, com suas histórias brilhantes e singulares! Parabéns pela crítica! Abraços!

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Gabriel T 24 de fevereiro de 2015 - 16:21

Acho o tema dos conflitos proporcionados pela dissolução da União Soviética espetacular. E o cinema do leste europeu está sabendo retratar essas guerras de maneira ímpar, sensível e que difere muito (ainda bem!) da truculência repetitiva, panfletária e artificial de Hollywood. Também havia notado a similaridade entre as duas películas que, de fato, são sensacionais! Muito obrigado pelo comentário e pelo elogio! =)

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