Crítica | Tartufo (1925)

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O diretor F.W. Murnau, sempre pareceu ter uma fascinação por figuras corruptoras. Desde o demônio que seduz um velho com a juventude eterna em Fausto, até a sedutora amante que tenta convencer um homem a matar a esposa em Aurora. Esse fascínio por figuras corruptoras, e muitas vezes sedutoras, fez da peça Tartufo, de Molière, um material perfeito para o diretor.

Na trama, um neto se afasta do avô depois que este descobre que ele se tornou ator. Sabendo que o avô está sendo influenciado por sua governanta interesseira, ele disfarça-se de mágico para mostrar ao avô o filme “Tartufo”. No filme, Orgon é um homem rico que está sendo manipulado por Tartufo, um golpista passando-se por intelectual religioso que pretende roubar a fortuna do “discípulo”. Cabe a Elmire, a esposa de Orgon, livrar o marido da teia de hipocrisia e mentiras de Tartufo.

Escrito por Carl Meyer, esta adaptação de Tartufo traz muitas características comuns ao trabalho do roteirista, como o uso de uma história moldura, e uma visão crítica ás figuras de autoridade. O texto (revisado por Murnau) ainda traz boas doses de humor satírico para destacar o absurdo da fé cega que Orgon deposita no personagem título. É interessante observar como a obra se utiliza da metalinguagem para abordar os temas que lhe interessam. Ao fazer da história de Tartufo um filme dentro do filme, que é usado por um artista para livrar o avô da governanta mal intencionada, o roteiro de Meyer coloca o cinema como um instrumento para expor hipócritas perigosos, o que fica ainda mais claro com as poucas quebras da quarta parede.

Mas embora seja interessante observar o significado que a história moldura dá ao filme, os maiores méritos do longa metragem encontram-se na trama principal de Tartufo. Murnau constrói o seu filme em torno da disputa do golpista pregador e Elmire pelo coração e mente de Orgon. O diretor faz com que grande parte do humor satírico do filme venha do ponto de vista da esposa de Orgon, que percebe o quão ridiculamente devoto á Tartufo o seu marido se tornou.

Murnau também dá ao filme certo erotismo (para os padrões da época), ao aplicar planos de ponto de vista para expor a luxuria do vilão em relação á senhora Orgon, quando este mira seu decote ou seus tornozelos. A presença desta leve atmosfera sexual na obra é propícia já que a primeira rusga de Elmire com o repelente vilão se dá pela influência do golpista fazer com que Orgon se abstenha de ter uma vida sexual com a esposa, já que seria um “pecado”.

A direção de fotografia de Karl Freund é outro destaque do projeto. Com a justificativa da história de que Tartufo convenceu Orgon á retirar as luzes da casa por serem “Vãs futilidades”, Freund consegue trabalhar com um bonito e atmosférico contraste de luz e sombras, que vai se tornando cada vez mais acentuado á medida em que a influência do vilão vai se tornando mais forte na casa dos Orgon.

Emil Jannings está perfeito no papel de Tartufo, criando um vilão que provoca raiva e asco no público. A escolha por uma interpretação de pantomima para o personagem serve muito ao caráter satírico da obra, já que ver Tartufo andando pela casa com um livro praticamente colado ao rosto, enquanto espiona aqueles á sua volta com olhos maliciosos que espiam aqueles á sua volta não deixa duvida nenhuma sobre o seu mau caráter. Lil Dagover, grande estrela do cinema alemão concede uma força e uma determinação para Elmire, e que passa longe de uma visão romântica e pueril, (parte da motivação da personagem, afinal, é recuperar sua vida sexual matrimonial) que não era comum nas heroínas mais virginais e recatadas do período. Dagover brilha ao contracenar com Janning, equilibrando bem o esforço da personagem em seduzir o golpista para expô-lo, e a repulsa que sente por ele.

Embora seja considerado por muitos uma obra menor de Murnau, Tartufo possui grandes qualidades. Embora fosse se beneficiar de um pouco mais de sutileza, o longa passa uma mensagem que conversava diretamente com a sua época, e que continua atual; cuidado com a hipocrisia de supostos salvadores. Com um elenco principal muito bem afinado, a fotografia sempre evocativa de Karl Freund e uma condução excelente de seu diretor, o filme mostra que uma “obra menor” de Murnau, ainda é uma grande obra.

Tartufo (Herr Tarüffe). Alemanha. 1925
Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Carl Meyer
Elenco: Emil Janning, Lil Dagover, Werner Krauss, Hermann Picha, Rosa Valetti, André Mattoni, Lucie Höflich
Duração: 62 minutos.

RAFAEL LIMA . . . Sou Um Time Lord renegado, ex-morador de Castle Rock. Deixei a cidade após a chegada de Leland Gaunt. Passei algum tempo como biógrafo da Srta. Sidney Prescott, função que abandonei após me custar algumas regenerações. Enquanto procurava os manuscritos perdidos do Dr. John Watson, fiz o curso de boas maneiras do Dr. Hannibal Lecter, que me ensinou sobre a importância de ser gentil, e os perigos de ser rude. Com minha TARDIS, fui ao Velho Oeste jogar cartas com um Homem Sem Nome, e estive nos anos 40, onde fui convidado para o casamento da filha de Don Corleone. Ao tentar descobrir os segredos da CTU, fui internado no Asilo Arkham, onde conheci Norman Bates. Felizmente o Sr. Matt Murdock me tirou de lá. Em minhas viagens, me apaixonei pela literatura, cinema e séries de TV da Terra, o que acabou me rendendo um impulso incontrolável de expor e ouvir ideias sobre meus conteúdos favoritos.