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Crítica | Tartufo (1925)

por Rafael Lima
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O diretor F.W. Murnau, sempre pareceu ter uma fascinação por figuras corruptoras. Desde o demônio que seduz um velho com a juventude eterna em Fausto, até a sedutora amante que tenta convencer um homem a matar a esposa em Aurora. Esse fascínio por figuras corruptoras, e muitas vezes sedutoras, fez da peça Tartufo, de Molière, um material perfeito para o diretor.

Na trama, um neto se afasta do avô depois que este descobre que ele se tornou ator. Sabendo que o avô está sendo influenciado por sua governanta interesseira, ele disfarça-se de mágico para mostrar ao avô o filme “Tartufo”. No filme, Orgon é um homem rico que está sendo manipulado por Tartufo, um golpista passando-se por intelectual religioso que pretende roubar a fortuna do “discípulo”. Cabe a Elmire, a esposa de Orgon, livrar o marido da teia de hipocrisia e mentiras de Tartufo.

Escrito por Carl Meyer, esta adaptação de Tartufo traz muitas características comuns ao trabalho do roteirista, como o uso de uma história moldura, e uma visão crítica ás figuras de autoridade. O texto (revisado por Murnau) ainda traz boas doses de humor satírico para destacar o absurdo da fé cega que Orgon deposita no personagem título. É interessante observar como a obra se utiliza da metalinguagem para abordar os temas que lhe interessam. Ao fazer da história de Tartufo um filme dentro do filme, que é usado por um artista para livrar o avô da governanta mal intencionada, o roteiro de Meyer coloca o cinema como um instrumento para expor hipócritas perigosos, o que fica ainda mais claro com as poucas quebras da quarta parede.

Mas embora seja interessante observar o significado que a história moldura dá ao filme, os maiores méritos do longa metragem encontram-se na trama principal de Tartufo. Murnau constrói o seu filme em torno da disputa do golpista pregador e Elmire pelo coração e mente de Orgon. O diretor faz com que grande parte do humor satírico do filme venha do ponto de vista da esposa de Orgon, que percebe o quão ridiculamente devoto á Tartufo o seu marido se tornou.

Murnau também dá ao filme certo erotismo (para os padrões da época), ao aplicar planos de ponto de vista para expor a luxuria do vilão em relação á senhora Orgon, quando este mira seu decote ou seus tornozelos. A presença desta leve atmosfera sexual na obra é propícia já que a primeira rusga de Elmire com o repelente vilão se dá pela influência do golpista fazer com que Orgon se abstenha de ter uma vida sexual com a esposa, já que seria um “pecado”.

A direção de fotografia de Karl Freund é outro destaque do projeto. Com a justificativa da história de que Tartufo convenceu Orgon á retirar as luzes da casa por serem “Vãs futilidades”, Freund consegue trabalhar com um bonito e atmosférico contraste de luz e sombras, que vai se tornando cada vez mais acentuado á medida em que a influência do vilão vai se tornando mais forte na casa dos Orgon.

Emil Jannings está perfeito no papel de Tartufo, criando um vilão que provoca raiva e asco no público. A escolha por uma interpretação de pantomima para o personagem serve muito ao caráter satírico da obra, já que ver Tartufo andando pela casa com um livro praticamente colado ao rosto, enquanto espiona aqueles á sua volta com olhos maliciosos que espiam aqueles á sua volta não deixa duvida nenhuma sobre o seu mau caráter. Lil Dagover, grande estrela do cinema alemão concede uma força e uma determinação para Elmire, e que passa longe de uma visão romântica e pueril, (parte da motivação da personagem, afinal, é recuperar sua vida sexual matrimonial) que não era comum nas heroínas mais virginais e recatadas do período. Dagover brilha ao contracenar com Janning, equilibrando bem o esforço da personagem em seduzir o golpista para expô-lo, e a repulsa que sente por ele.

Embora seja considerado por muitos uma obra menor de Murnau, Tartufo possui grandes qualidades. Embora fosse se beneficiar de um pouco mais de sutileza, o longa passa uma mensagem que conversava diretamente com a sua época, e que continua atual; cuidado com a hipocrisia de supostos salvadores. Com um elenco principal muito bem afinado, a fotografia sempre evocativa de Karl Freund e uma condução excelente de seu diretor, o filme mostra que uma “obra menor” de Murnau, ainda é uma grande obra.

Tartufo (Herr Tarüffe). Alemanha. 1925
Direção: F.W. Murnau
Roteiro: Carl Meyer
Elenco: Emil Janning, Lil Dagover, Werner Krauss, Hermann Picha, Rosa Valetti, André Mattoni, Lucie Höflich
Duração: 62 minutos.

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