Home FilmesCríticas Crítica | Teatro de Guerra

Crítica | Teatro de Guerra

por Bruno dos Reis Lisboa Pires
60 views (a partir de agosto de 2020)

Lola Arias, já antes de cineasta, uma artista multifacetada, procura por meio de sua arte reestabelecer um diálogo. A artista que já trabalhou com artes plásticas, teatro e música, dessa vez arrisca no cinema uma mistura de todas suas manifestações artísticas para buscar um respiro afetuoso que ronda um capítulo tenebroso na história da Argentina. A Guerra das Malvinas foi um palco sangrento dividido entre argentinos e ingleses, que disputaram, mais do que um espaço de terra, uma ideologia. Aqueles que antes interpretavam soldados, Lola convidou para serem eles mesmos, reencenando de forma terapêutica e formando um elo entre todas as memórias vividas por ambos lados da guerra.

O palco desse teatro é formado por seis atores, três de cada lado da guerra das Malvinas (ou Falklands, como é chamado pela língua inglesa). A ideia vindoura de uma instalação encenada pela diretora tem como propósito apontar o dedo às feridas deixadas naqueles que viveram o conflito, cujas cicatrizes não são necessariamente físicas, mas na memória. Os atores são convidados à trocar experiências e pontos de vista, não de forma conflituosa, mas respeitosa. Olhar no olho de um antigo inimigo, cuja rivalidade não esteve nas mãos de nenhum dos dois.

O que há de mais tocante é a abertura que cada um dos envolvidos com o projeto tem em ouvir o outro. Tanto Argentina quanto Inglaterra apresentam seu lado da briga de forma com que o resultado do filme seja bastante imparcial, e a única constatação é o fardo que estes seis homens carregaram. Os atores agem de forma perdida, o formato documental tradicional resgatado é capaz de capturar momentos de beleza ímpares nos relatos de cada um dos homens.

Distancia-se do evento para elevar nossa emoção a um patamar racional: qual o invólucro do conflito? Seis homens que não se conhecem e agem de forma passional entre si, mas que três décadas atrás dividiam um campo de batalha e apontavam fuzis entre si. O papel de Lola é reunir e integrá-los, não reintegrar um pensamento conflituoso baseado na mentalidade entalhada que envolve a rivalidade entre argentinos e britânicos. Pode ser argumentado que levá-los ao cenário da guerra seria mais efetivo ao reencenar uma memória perdida entre tanta dor, mas o intuito de Lola era desacoplar esse enfrentamento e despir a alma de cada um deles em um palco distante daquele que haviam se enfrentado. É um teatro de afetos e não de ódio cujo intuito é operar uma comunhão naqueles que pouco sabiam, mas tinham muito em comum. Ambos lados viram homens morrerem, e argentinos e ingleses celebram pelas vidas poupadas.

Teatro da Guerra (Teatro de Guerra) — Argentina, 2018 
Direção: Lola Arias
Roteiro: Lola Arias
Elenco: Marcelo Vallejo, Lou Armour, Rubén Otero, David Jackson, Gabriel Sagastume, Sukrim Rai
Duração: 73 min.

Você Também pode curtir

Este site usa cookies para melhorar sua experiência. Presumimos que esteja de acordo com a prática, mas você poderá eleger não permitir esse uso. Aceito Leia Mais