Crítica | Teatro em Transe

estrelas 4

Teatro em Transe (1981) foi o primeiro e único documentário dirigido por Fassbinder. Intercalando trechos de O Teatro e Seu Duplo, de Antonin Artaud e cenas de diversos espetáculos do festival Theater der Welt (Teatro do Mundo), em Colônia, o diretor faz um apanhado das raízes do teatro, passando pelas intenções políticas dessa arte, sua possibilidade de mudar ou não o mundo, os diferentes olhares que se pode ter para o que está no palco e, principalmente, qual é o sentido de “fazer teatro”.

O que o espectador precisa ter em mente é que não se trata de um documentário comum. Não há o formato “entrevista-&-conhecimentos-gerais” e o texto de Artaud por vezes torna tudo simbólico, metafórico, caótico demais. Mas em dado momento da fita percebemos que essa era justamente a intenção. O que no início nos pareciam blocos cênicos parcialmente conectados e com um texto semi-avesso ao que era exibido, de repente toma corpo. E tudo se faz entender.

Lembramos rapidamente dos créditos de abertura, quando fomos informados de que o filme seria dividido em 14 partes e, ao fundo, o coquetel de recepção do evento era mostrado, com toda sua pompa artificial e paradoxal ao cenário e universo artístico que seria mostrado a seguir.

Fazendo uma comparação simples pela linha de longas de Fassbinder desde 1977, com Bolwieser, constatamos imediatamente que Teatro em Transe é uma espécie de “elefante branco” dessa fase, ainda mais deslocado nela que Querelle. Todavia, um olhar mais atento mostraria uma escolha de textos, cenas e composição geral que não quebram com as investigações políticas do diretor aqui em sua Fase História. O gênero e a forma de exibição são outras, mas o conteúdo não é tão diferente assim.

Teatro em Transe é uma forçada [no bom sentido] “continuação real” de Lili Marlene, onde o amor é representado pela relação do público com a peça e dos atores com o público e com a peça; onde não existe ícone ou estrela, já que se trata de uma arte coletiva, uma relação estreitada por Artaud comparando o teatro com a peste, diante de seu poder de mobilização e liberação do inconsciente, após o “esquecimento do corpo”; onde a política é o desprezo dos engravatados aos garçons que lhes servem drinques ou aos governos de diversas camadas em relação aos serviços públicos que deveriam incentivar mas não o fazem.

Percebam que intercaladas as performances e às reflexões surrealistas em off (narradas pelo próprio Fassbinder), há takes de grafites pela cidade, placas e frases de protesto, indicações políticas para os acontecimentos do Outono Alemão, chamada do cineasta para que o público rompa a barreia da teoria ao menos uma vez e participe, intervenha, faça alguma coisa em relação ao que lhe é apresentado, nem que seja pensar e discutir sobre.

Musical e esteticamente experimental, Teatro em Transe é uma inteligente ligação entre cinema e palco, não de forma física, como um colega de Fassbinder, do núcleo do Cinema Novo Alemão, faria anos depois em Pina (2011), mas de forma narrativa e ideológica. É um filme rico e instigante, mas que obviamente vai desagradar aos que não conseguem ver o teatro como uma expressão múltipla de significados ou que não conseguem ligá-lo às mais diversas manifestações políticas de seu tempo histórico.

Teatro em Transe (Theater in Trance) — Alemanha Ocidental, 1981
Direção: Rainer Werner Fassbinder
Roteiro: Rainer Werner Fassbinder (com textos de Antonin Artaud).
Elenco: Het Werktheater, Amsterdam Squat Theater, New York Sombrad Blancas, Mexico Kipper Kids, Kalifornien Magazzini Criminali, Florenz, Pina Bausch und das Wuppertaler Tanztheater, Jérôme Savary, Yoshi Oida
Duração: 91 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.