Crítica | Ted Bundy (2002)

Há algum tempo, especialistas em comportamento e trabalhos acadêmicos de origens distintas se preocupam em debater a ode aos psicopatas na sociedade contemporânea. O que se conclui, na maioria das reflexões, é o glamour por detrás de existências que dentro de uma perspectiva ética, não deveria ser tratada com tanta honraria. Basicamente, o que observamos no bojo da cultura pop é a transformação de alguns assassinos em séries em heróis representantes de determinados grupos que se sentem numa comunidade imaginada de adoradores do mal. A discussão é complexa e requer bastante espaço para argumentação, coisa que na crítica em questão será delineada apenas como provocação para outros debates maiores.

Com o lançamento da nova cinebiografia de Ted Bundy, criminoso responsável pelo primeiro emprego do termo serial killer dentro do entendimento que temos hoje sobre essa definição, os ânimos da mídia e da sociedade civil estão agitados, principalmente pela opinião de uma das vítimas que conseguiu escapar das garras do assassino, queixosa da forma heroica e contemplativa que o cinema insiste em tratar tais figuras, algo que no mínimo, reflete a dinâmica adoecida das relações no tecido social composto por seres humanos degradados.

Figura perversa e violenta, conhecida por seu charme e comportamento de homem comum ao atrair suas vítimas sem ao mínimo uma troca de desconfianças, ao longo de sua vida, Ted Bundy sentiu o sabor da fama: teve documentários que retrataram os seus atos, músicas inspiradas em seus crimes, o fusca que serviu de condução para as suas vítimas foi comprado em leilão por um roqueiro e depois exposto num museu para curiosos. Estranho, não? Thomas Harris, escritor que marcou presença num dos dias de julgamento do criminoso, em 1979, anotou detalhes dos depoimentos de Bundy para compor duas aberrações literárias que ganharam tratamento de luxo no cinema: Frances Dolarhyde, em Dragão Vermelho, e Bufallo Bill em O Silêncio dos Inocentes.

Charmosos, os psicopatas cinematográficos, literários e televisivos, em geral, exprimem o melhor que nas artes, ao menos no que tange a construção da tensão, o estabelecimento dos conflitos internos e externos dos personagens, bem como o exercício da linguagem na construção de imagens, condução de som e elaboração de cenários por onde transitam as histórias. Pensado pelo âmbito artísticos, estamos diante de obras de arte. No entanto, pelo lado humano e contextual, alguns casos refletem cicatrizes ainda abertas na sociedade, em especial, a história de Ted Bundy, também transformada em cinebiografia em 2002, dirigida por Matthew Bright, realizador que assinou o roteiro juntamente com Stephen Johnston.

Confuso, inconsistente e vago. Esses são alguns dos tantos problemas apresentados pela produção que peca por construir de maneira errônea o personagem que deveria transmitir asco e pavor, mas em sua primeira metade não passa de um “idiota” tratado como “fracassado”. É a velha história sobre se dedicar a fazer algo e fazer bem feito. Ao longo dos 99 minutos de Ted Bundy, acompanhamos um cara que gosta de viver perigosamente. Realiza pequenos furtos, mente compulsivamente, masturba-se sem pudor algum na rua, próximo à janela de uma de suas vítimas na perspectiva voyeur. Michael Reilly Burke, intérprete do serial killer, exibe charme e beleza para justificar a atração de algumas mulheres por seu tipo alto, de conversa atraente e cativante, preâmbulo que logo revela o lado monstro, ao executar as suas vítimas sem piedade alguma.

Na sociedade racista e de aparências em que vivia, Bundy não passa desconfiança. Branco, olhos claros, bem vestido e com postura galanteadora, o personagem ganha a confiança de mulheres que ainda não tinham experiência alguma com o alto grau de violência urbana que cresceu vertiginosamente conforme as sociedades foram ganhando cada vez mais amplitude, zonas periféricas e adentraram numa espécie de atualização do mal-estar proposto por Freud em outras circunstâncias históricas. Além de atuar em um centro de apoio que atende pessoas desestabilizadas por telefone, Ted Bundy possui o que nós conhecemos no popular como “lábia”, recurso malando que o fez inventar ótimas histórias sobre as suas origens, inclusive sobre a sua mãe, perfil de mulher que o inspirou, no quesito físico, a escolher o padrão de vítimas que iria ceifar diariamente em sua sede absurda por violência para alimento da alma perturbada.

Como estratégia narrativa, os realizadores trocaram o nome das vítimas e de outros personagens que atravessaram a vida de Bundy. Lee (Boti Bliss) aparece como a sua companheira que ajudava no disfarce. Neurótica e irritante, é alguém que queria do namorado algo que ele jamais teve como fornecer: amor romântico tradicional, com posições sexuais “respeitosas” e sem vulgaridade. Inicialmente ele tenta, mas logo depois é tomado por intensa fúria, irritado com a tranquilidade do sexo domiciliar. Numa passagem inquietante, ele a coloca numa posição de “submissão” e pede que ela se cale e finja estar morta. Aborrecida e assustada, Lee obedece, mas isso é apenas o começo da sua desconfiança e estranhamento diante do comportamento “anormal” do companheiro, algo comprovado quando os crimes começam a ser revelados e a primeira prisão de Bundy causa um furor intenso na sociedade.

Com imagens de arquivo, releituras de cenas reais ocorridas na área externa do presídio em que se encontrava, além das fotografias de sua juventude e fase adulta, Ted Bundy apresenta um exercício de linguagem cinematográfica pouco inspirador. Tom Savini, o mago das imagens, responsável pela maquiagem do antagonista Jason, da franquia Sexta-Feira 13, e dos zumbis de George Romero em Despertar dos Mortos, ganha função desperdiçada na criação dos corpos das vítimas, bizarros como devem ser numa narrativa em condições semelhantes, mas sem impacto algum por conta dos problemas narrativos, sendo o roteiro, a sua execução e a composição sonora uma pedra no meio do caminho da estética do filme.

Errônea em determinados trechos, o que deveria causar repulsa, torna-se um espetáculo do nonsense. Se fosse por conta de escolhas irônicas nós até entenderíamos, mas o que se pode observar é a presença música no lugar e na hora errada. Kennard Ramsey deve ter se esforçado, alguns trechos musicais não chegam a ser inspiradores, mas dão conta do básico. O problema está na edição de Paul Heiman, profissional que deve ter recebido as marcações para ajustes musicais cheio de inconsistências. No campo da identidade visual, Ted Bundy é eficiente diante do seu orçamento. A presença das cores opacas dá a entender o clima retrospectivo pretendido, elementos captados pela direção de fotografia de Sonja Rom, também adequada ao que é demonstrado dramaticamente.

Sem fazer jus ao horroroso trajeto de vida do personagem biografado, o filme deflagra pouco uso da experiência em cenas bem pontuais, em especial, o desfecho de Bundy na preparação para a cadeira elétrica, sentença recebida por seus crimes no tribunal. Há uma perda de tempo hedionda no trecho em que os guardas colocam a fralda e os algodoes em seu ânus, para evitar que se “borre”, como aponta um personagem. A penetração de algo em sua região anal surge como o único medo e pavor de uma pessoa com postura tão complexa como Bundy. Dá para acreditar?

O psicopata alegou que “ao estar numa situação de domínio da vida do outro”, um assassino sente o que é “ser Deus”. Dentro de sua filosofia, Ted Bundy “foi” Deus várias vezes. Colecionador de mais de 200 cartas na prisão, oriunda de mulheres que diziam ser fãs, um dos mais infames assassinos em série da história contemporânea viveu para confirmar o seu status de ídolo pop. Ganhou defensores, pessoas que seguiam o seu estilo, dentre outros admiradores de sua “obra”. Retratado em outras obras ficcionais do mesmo quilate, Bundy ganhou melhor radiografia de sua postura psicologicamente macabra em produções documentais. Em 2019, com o lançamento do filme com Zac Efron no papel do personagem, o seu legado macabro voltará com toda força. Basta saber como a cultura da mídia trabalhará essas projeções.

Ted Bundy (idem-Estados Unidos/Inglaterra, 2002)
Direção: Matthew Bright
Roteiro: Stephen Johnston, Matthew Bright
Elenco: Michael Reilly Burke, Boti Bliss, Julianna McCarthy, Jennifer Tisdale, Michael Santos, Annalee Autumn, Steffani Brass, Samantha Tabak, Eric DaRe
Duração: 99 min.

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.