Crítica | Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal

“Se eu não sou culpado? Isso inclui a vez que eu roubei um gibi quando eu tinha cinco anos? Eu não sou culpado das acusações apresentadas contra mim.

Uma das maiores polêmicas dos meses passados, ao menos entre as que envolveram o cinema brasileiro, questionou a produção, naturalmente controversa, de uma certa cinebiografia. O longa-metragem em questão, com estreia não prevista, retratará uma notória assassina, que ocupou as manchetes após comandar o assassinato de seus pais. Mas enquanto um dos maiores eventos midiáticos do Brasil recente está prestes a ser representado, o que inclui sua própria protagonista, Hollywood, por sua vez, já acostumou-se em reviver crimes como este. O assassino em série Ted Bundy (Zac Efron), no caso, primeiro a receber essa alcunha, já ganhou inúmeras abordagens no cinema, seja em forma de documentários e até mesmo cinema de ficção – vide o longa de mesmo nome, que estreou em 2002. Na época de seu julgamento, Bundy, tendo matado e violentado uma quantidade imprecisa de mulheres nos anos 70, tornou-se, contudo, celebridade, ultrapassando uma ojeriza unânime da sociedade para se ver, como aponta a palavra em si, “celebrado”. Tão sensacionalista quanto qualquer jornal ou canal de televisão – ora, câmeras transmitiam as sessões no tribunal -, o cinema é capaz também de transformar em espetáculo o que quiser. Assim sendo, o que se propõe de verdadeiro na exploração do charmoso Bundy, alegando inocência, conquistando corações e mantendo um relacionamento amoroso, com a inocente Liz (Lily Collins)?

Como, portanto, trabalhar um crime tão hediondo quanto esse no campo do ficcional, precisando recriar personagens muitas vezes partindo de suas perspectivas pessoais, claramente adoecidas e reprováveis? O que propor com tais narrativas, para justificar uma abordagem a tragédias brutais e que, no caso desses dois assassinos, causadas por figuras aparentemente inocentes? O caminho apurado pelo cineasta Joe Berlinger, entretanto, é provavelmente o mais perigoso nesse sentido. Recusando tratar a figura do personagem central logo de cara com a ameaça e perversão que a caracteriza, o artista prefere brincar com o espectador. Pela maneira como Berlinger encena uma quantidade considerável das cenas envolvendo esse protagonista, um olhar romantizado parece imperar. Zac Efron é a escolha comercial mais clara para encarnar o criminoso, sugerindo um certo perigo em algumas cenas iniciais que, curiosamente, soam mais sensuais que asquerosas. Porém, esse Ted Bundy, atrás dos sorrisos e de uma postura que lembra um meste de cerimônias, é na verdade um ser humano imensamente cruel, que, como o documentário em formato de minissérie Conversando com um Serial Killer: Ted Bundy exemplifica bem, gostava de ter controle sobre suas vítimas, sentir-se Deus. Onde que esse retrato realmente angustiante de uma pessoa com traços simpáticos, embora contendo internamente uma essência pavorosa, consegue se refletir no longa?

Joe Berlinger, ironicamente, também criou o documentário em questão, mostrando conhecer o personagem. Contudo, a sua proposta nessa obra é completamente distinta daquela. Pois aqui, os olhos que encarnamos, a pessoa com quem conversamos, é Liz, namorada de Bundy na época em que os crimes ocorreram. O que Berlinger não consegue reproduzir, porém, é uma ambiguidade, necessária para tornar efetivo o drama que Liz, bastante inocente, vivencia. Ao passo que Bundy começa a ser investigado, sendo preso, escapando da prisão e tendo até que ser recapturado novamente, a personagem de Lily Collins vive uma pungente confrontação interna, em que precisa compreender o que a sua vida com Ted significou, entender o seu passado e as suas ações. Em contrapartida a essa proposta, o comando de Berlinger é, entretanto, muito impreciso. Por uma instância, existe a cena no canil, que explicitamente evidencia um mal intrínseco ao assassino em série – apesar de bem simples e caricata, ao menos questiona algo. Já por outras, o cineasta não é preciso em continuar indo de um núcleo para o outro. Ele anseia verdadeiramente construir esse pretenso intricado estudo. Mas a meta é mais inteligente do que aquilo que Berlinger consegue alcançar. Promove-se à montagem, por exemplo, um ar episódico que questiona a integralidade e também integridade da obra, que aparenta despropósito, romantizando Ted Bundy à troco de nada.

O longa, porém, retrata o afastamento gradual de Liz desse assassino – e, em um certo ponto de vista, o seu possessor, que teve suas mãos em sua garganta várias vezes. Nesse sentido, surge a emancipação de uma figura feminina, que vai alimentando uma culpa interna e precisa a expurgar. Em vista de uma criatura misógina como essa, o que se tenta ser promovido é compreensível: do romântico, higiênico, ao real, visceral. Mas a construção, ao contrário de uma progressão orgânica, passa por momentos de um suposto desenvolvimento que soam abruptos. Conversas com amigos da co-protagonista, o que inclui uma participação de Haley Joel Osment, parecem ser figurantes, apesar de serem, em contrapartida, essenciais. Uma revelação importante ajudaria o espectador a compreender o que acontece dentro de Liz, mas o roteiro prefere usá-la para sustentar um efeito narrativo bastante aleatório, como plot twist. Assim sendo, Berlinger termina nos oferecendo uma empatia por Bundy que é contraditória. Elementos variados surgem, mas que nunca são realmente contraditos. Pois o que de fato significa a aparição da mãe de Ted, despontando do nada? A obra, portanto, é mais um protótipo de provocação que uma provocação em si, pois não se contrapõe as aparências com as verdades – com exceção da última cena. Quando Ted escapa das autoridades, uma música cita que o personagem precisa voltar para o seu amor, e o filme continua dessa forma.

Diante das incongruências na ponte que nunca é concretizada entre quem Bundy aparenta ser e quem Bundy é, ecoa-se mais a romantização de um monstro. Alguns dos derradeiros momentos do longa-metragem, porém, apresentam um breve vislumbre de redenção, justamente por serem, de longe, os mais coerentes. Enquanto a obra, por quase a sua totalidade, não sustenta um propósito mais coeso, Joe Berlinger encontra um meio de soar mais intencionado com uma conversa entre Ted e Liz, que tanto abre quanto encerra o filme. Em frente a uma pessoa extremamente perversa, chocantemente má e vil, que assassinou e estuprou dezenas de mulheres, resta a co-protagonista “acertar as contas” com o homem que por anos esteve ao seu redor. Se o resto do projeto é indeciso entre culpabilizar por fim essa figura misógina ou averiguar a sua pose charmosa de uma maneira mais passiva, a conversa conclusiva resolve essa questão. Pois as vítimas nunca serão as culpadas pelos seus destinos, pelas suas dores e traumas. Esse é um momento, entretanto, que precisaria ter sido construído, mas não respalda nenhuma profundidade dramática ou construção narrativa, visto que o restante da obra aproxima-se do inócuo. Como a execução equivoca-se por grande parte do longa, o resultado denota um vazio imenso, que apenas nos permite questionar o seu próprio conteúdo ao invés de repensarmos este assassino mórbido e o seu impacto no mundo.

Ted Bundy: A Irresistível Face do Mal (Extremely Wicked, Shockingly Evil and Vile) – EUA, 2019
Direção: Joe Berlinger
Roteiro: Michael Werwie
Elenco: Zac Efron, Lily Collins, Kaya Scodelario, John Malkovich, Jim Parsons, Angela Sarafyan, Haley Joel Osment, Grace Victoria Cox, Forba Shepherd, Grace Balbo
Duração: 111 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.