Crítica | Teerã: Cidade do Amor

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O amor não é uma coisa fácil. E mais dia menos dia, machuca. É por este caminho que o diretor Ali Jaberansari dirige e co-escreve (juntamente com Maryam Najafi) o longa-metragem Teerã: Cidade do Amor (2018). O longa acompanha três personagens solteiros em busca de um par: um ex-campeão de fisiculturismo, uma secretária gordinha que trabalha em uma clínica de beleza (notem a ironia) e um cantor religioso de funerais que se vê depressivo (outra ironia) quando seu noivado termina. De maneira progressiva, vemos esses personagens se conectarem de alguma forma e, pelo menos por um breve momento, encontrarem alguma felicidade no contato com o outro.

Em alguns aspectos, o filme funciona como uma comédia de ordem social ou de costumes. A pressão social para o casamento e a cultura iraniana estão colocadas nas entrelinhas, mas não ocupam um real espaço narrativo no roteiro, que está mais preocupado em observar a reação desses indivíduos frente ao contato com terceiros, ao interesse do outro, partindo de um ponto negativo e terminando em um momento de felicidade que abraça a melancolia logo em seguida, como se este cenário não permitisse o amor por muito tempo. Ou como se procurasse estender o máximo possível o período de procura dos solitários, cuja ciranda de amores nos lembra imediatamente o poema Quadrilha, de Drummond.

Passando pela chateante repetição das cenas no início, o espectador logo entende a proposta de crônica de amor que o texto traz, indo de uma apresentação e acompanhamento dos personagens em seus cenários originais e ligando-os a outros indivíduos que já tínhamos visto em cena. É uma perspectiva interessante e até divertida, mostrando como é possível os encontros menos prováveis em uma grande cidade. E como as exigências das pessoas tendem, a longo prazo, fazer com que elas acabem sozinhas, muitas vezes sem nem prestar atenção nos tesouros que estão bem diante de seus olhos. Do meio do filme para frente, o texto explora a preciosidade desses encontros e a maneira como certas expectativas são construídas e frustradas em pouco tempo. O dilema da vida, na realidade, só que aqui tratado de modo bem próximo, romanceado e um tantinho amargurado.

Destaque para a forma como o roteiro explora o personagem gay interpretado por Amir Hessam Bakhtiari, cuja sexualidade reprimida vai pouco a pouco ganhando cores e recebendo um olhar delicado e cuidadoso do diretor, bem condizente com a posição de indivíduos LGBT que vivem em Teerã ou em qualquer outra cidade fundamentalista ou perigosa para pessoas homossexuais ao redor do mundo. Diversas origens familiares, profissões, tipos físicos, gêneros e pulsões… todos procurando algum amor, buscando a sua própria identidade em um meio urbano frio e impessoal. A sina das “cidades do amor” em tempos líquidos e corridos como os nossos.

Teerã: Cidade do Amor (Tehran: City of Love) — Irã, Reino Unido, Países Baixos, 2018
Direção: Ali Jaberansari
Roteiro: Ali Jaberansari, Maryam Najafi
Elenco: Forough Ghajabagli, Mehdi Saki, Amir Hessam Bakhtiari, Behnaz Jafari
Duração: 102 min.

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.