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Crítica | Tell Me a Story – A Série Completa

por Felipe Oliveira
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Quando ouvimos falar de Kevin Williamson, é inevitável lembrar do trabalho que alavancou a sua carreira como roteirista, trabalho este que se tornou um marco revolucionário para o subgênero slasher: Pânico. Lançado em 1996, nos três anos seguintes, era notório o interesse de Williamson em trazer tramas de terror e suspense protagonizadas por adolescentes, e dos quatro títulos lançados entre este período, três caíram no gosto da cultura pop como clássicos slasher. Após o sucesso de Dawson’s Creek, era difícil ver o roteirista envolvido em algo que cativasse e arrastasse mais uma vez uma legião de fãs, até surgir a adaptação de Diários de um Vampiro, e enquanto a atração ficava mais forte na CW, o também escritor de Hidden Palms repetia a parceria com Wes Craven com Pânico 4, em 2011. Nem tudo tende a ser sinônimo de sucesso, mas pondo na balança o histórico de Williamson, era um impasse de idas e vindas de séries que mal emplacavam com o público, mas encontravam seu cancelamento ou desgosto no meio do caminho; The Following, Time After Time, e agora chegamos na produção em análise, antes do seu retorno à franquia de Scream que encerrou as filmagens no ano passado: Tell Me a Story. A moral da história: outra criação do Kevin que amargou, tendo a chance de seguir em frente, descartada.

Baseada na atração mexicana Érase una vez, produzida pela rede Blim, Tell Me a Story tinha em seu escopo um thriller psicológico que reimaginava os contos de fadas sob um viés contemporâneo, neste caso, contextualizando as mais conhecidas histórias com toques sombrios, enquanto dialogava numa abordagem americana. Ainda que a proposta parecesse não ir muito longe, era tentador a magia de uma série antológica que, bem como outros projetos, tanto na TV quanto no cinema  que remodelaram os contos de fadas em outras linguagens, se colocava a brincar com os elementos já fixados em gerações, buscando liberdade para atrair este e novos públicos.

A produção original que durou apenas uma temporada, criada e escrita por Marcos Osorio Vidal (El Jardín de Bronce, Supermax), em cada capítulo ao longo dos 12 episódios, inseriu um conto sendo impresso em moldes modernos. Enquanto a versão criada por Williamson para CBS preferiu adaptar no seu formato três histórias, sendo elas Chapeuzinho Vermelho, Os Três Porquinhos e João e Maria. A graça de ter mais de um tema numa antologia, é poder avaliar de maneira individual quanto ao seu desenvolvimento, mas como gancho final desta releitura subversiva, o escritor de Scream idealizou as partes dessa reimaginação se convergindo, ilustrando a síntese desse universo conectado e de consequências.

Bem, contar com três histórias, funcionava a favor de uma possível chance de qualidade para Tell Me a Story, que, ao tempo que se mostrava ambiciosa, não conseguia manter um nível apreciável para seu desdobramento. Para a reimaginação da Chapeuzinho, a trama apresentava Kayla (Danielle Campbell) tendo de se mudar com o pai viúvo (Sam Jaeger) para a casa da avó (Kim Cattrall) após a morte da mãe. Em meio a resistência para aceitar a situação, a jovem terminou bloqueando qualquer relação saudável com o pai e a avó, mas rapidamente se enturmou com os questionáveis novos colegas da escola, Laney (Paulina Singer) e Ethan (Rarmian Newton). Fechando as altas aventuras da Chapeuzinho, ela descobre que seu ficante da noite anterior, Nick (Billy Magnussen), era também o seu professor. Com tanta coisa para transpor o conto em um retrato atual, Williamson decide apelar para um contorno problemático, sem esquecer que na versão mais popular da fábula, a personagem se via em perigo quando fazia um trajeto diferente no caminho que trilhava com uma cesta para casa de sua avó. Nessa releitura, a jovem conhecida por sua capa de chuva vermelha, desfrutava de resultados embaraçosos como sequelas de escolhas imprudentes. E mesmo que óbvio, o roteiro tentava driblar a confirmação de quem seria o lobo à espreita a fim de manter a quase ausente nuvem de suspense, como incremento de valorização para a vindoura subversão, da agora Chapeuzinho que não se deixaria distrair e ser engolida pelo lobo.

Já o segundo conto clássico adaptado na série, Os Três Porquinhos, ingressou em um leque interessante ao debruçar a fábula num contexto de vingança e inversão de papéis. Esqueça a conhecida versão dos irmãos porcos tendo seus aposentos visitados por um Lobo Mau disposto a desfazer tudo com apenas um sopro, e imagine um novo lado onde tal Lobo teve sua ira atraída por um trio de criminosos. Assim, a fábula de Williamson transformava o Lobo em uma figura digna da pele de cordeiro, como vítima e protagonista da trama ao qual Jordan (James Wolk) perde sua noiva Beth (Spencer Grammer), baleada durante um assalto realizado numa joalheria por três indivíduos com máscaras de porcos: os irmãos Eddie (Paul Wesley) e Mitch (Michael Raymond-James) e Sam (Dorian Missick). Se a Chapeuzinho trazia a adolescência em sua imprudência, essa remodelagem colocava um pouco mais de tempero ao incrementar um melodrama numa história de vingança, em que o Lobo Jordan “farejava” um a um dos assaltantes, para então, ir soprar em suas portas.

Se os Três Porquinhos recebia alguns pontos por caracterizar uma ótica mais empolgante, o terceiro e último elemento da primeira temporada da série, João e Maria, se mostrava o exemplo forte de que o programa poderia ir muito longe na criatividade e acerto narrativo ao adicionar ao histórico de adaptações e reimaginações dos dois irmãos, um complexo arco dramático sobre diferenças, busca por independência e cumplicidade. Sem bosque, sem casa doce e bruxa, o público foi apresentado a Hannah (Dania Ramirez), uma veterana do exército embalada numa instável relação familiar. Enquanto esse conflito parecia inconciliável, ela era arrastada para o universo problemático do irmão Gabe (Davi Santos), um dançarino e dependente químico que clamava por sua ajuda após se envolver num homicídio. Certamente, um ato para encobrir um crime não terminaria ali, e foi a partir disso que acompanhamos até onde as migalhas trariam consequências para os irmãos que representavam Maria e João, unidos pela trilha de desavenças e complicações que sempre o seguiam, porém, desabrochava o pensamento mútuo de que viviam para se apoiarem, e que só tinham isso.

A escolha de desenvolver três histórias que se interligavam, terminou adotando um comprometimento que poderia se tornar favorável ou não ao show, pois, a logicidade e estrutura idealizaram um limite que, se desse certo, repetiria a dose com mais três histórias, ao contrário do modelo da série mexicana. As reimaginações de Tell Me a Story eram curiosas, mas nem todas funcionaram tão bem, caindo no marasmo de ir e vir, excedendo o arco da sua linha de interesse narrativo e aproveitamento da trama. No fim do seu primeiro ano, Williamson conseguiu mais uma vez um voto do público, com uma média aceitável para as subversões e obviedade de retratos novelescos dos contos de fadas.

Dito isso, o anúncio da renovação para uma segunda temporada veio com as expectativas da audiência que queria mais dessas histórias inspiradas em fábulas que se conectavam. Ainda mais novelesca, o retorno de Tell Me a Story bagunçava progressivamente os elementos e aspectos que compunham as fantasias originais, repetindo o artifício de entretenimento do que representava os respectivos contos adaptados.

Os selecionados da vez, foram a Cinderela, A Bela Adormecida e A Bela e a Fera. A primeira, trazia Simone (Ashley Madekwe), com novo nome para a conhecida Ella, tendo a trama da jovem moça otimista que era maltratada por sua madrasta e filhas, agora num contexto de disputa de poder e herança. A anos afastada da família, Simone retorna com toda sua personalidade forte e independência após o falecimento repentino do seu pai, um homem rico, o qual não tinha uma boa relação. No meio disso, Simone desconfia de que tal morte pode ter sido planejada por sua madrasta Veronica (Garcelle Beauvais), no intuito de obter todo patrimônio do falecido esposo para ela e seus filhos, Ron (Caleb Castille) e Derek (Christopher Mayer). Nessa novela das 19h que não rende muito além das tentativas de suspense e conflitos de poucas substâncias, talvez o ponto mais convincente seja Madekwe com uma personagem determinada e que se destaca por sua busca por uma possível justiça.

Com A Bela Adormecida, o caldo era mais denso ao compor mais uma inversão de papéis com a conhecida Bela sendo representada por Tucker (Wesley), um escritor de best-sellers sofrendo um bloqueio criativo, até que, em meio a pressão para entregar outro livro, é revelado as suas inspirações para suspenses tão bem vendidos e elogiados: um segredo fatal embebido num passado traumático que se transforma em caos. E nesta ponta, chegamos na Malévola, ou como é chamada na adaptação, Olivia (Campbell), tendo sua ideia de recomeço numa nova cidade abalada pelo Belo Adormecido. Bem como a mudança na história de Os Três Porquinhos,  a fábula da Bela trazia uma subversão constante dos lados, de quem era mocinho e vilão em suas narrativas; mas claro, dando o triunfo do protagonismo para a Malévola. O arco era denso, e se João e Maria tiveram o ápice na temporada anterior, esta versão da fábula poderia ser o exemplo que mais correspondeu para a proposta sombria do programa, mas até o seu desfecho, já tinha se perdido demais dando voltas, e por último, caindo na obviedade e saídas fáceis.

Trazendo a segunda  aposta como inversão de papéis, Williamson idealizou como seria se o Disney Channel adaptasse uma versão independente de A Bela e a Fera num telefilme, mas também, se tal versão pudesse ter um pouco de suspense. Daí veio a novela das 18h, trazendo a Bela, como a Fera, e a Fera como o Belo – poderia ser menos criativo? Assim, somos apresentados a Ashley, uma cantora de música Country que se torna a Fera após sofrer um atentado em um dos seus shows. Envergonhada, ela decide viver escondida em seu “castelo”. O seu maior escape e fio de esperança é através de Beau (Eka Darville), Belo, chefe de segurança, o qual passa a nutrir uma relação amorosa com a Fera. Incrementando essa versão estranha de O Guarda-Costas, Williamson trazia o conflito de uma família de frequentes picuinhas, com Carrie-Anne Moss interpretando a matriarca, Rebecca.

Colocar  elementos técnicos como o filtro da cinematografia como representação simbólica das respectivas fábulas, exemplo disso, o arco de A Bela e a Fera sempre acompanhado de uma cor amarela, junto de detalhes azuis aqui e ali como sinal da presença da Cinderela se conectando, foi só mais um recurso óbvio utilizado em Tell Me a Story, que em seu segundo ano, abraçou ainda mais uma abordagem novelesca para sua premissa que ao tempo que se aproximava mais de uma fantasia contemporânea com traços “sombrios” de suspense, perdia o encanto. Talvez, essa síntese seria melhor aproveitada se no escopo definisse um cenário para a reimaginação dos contos, ainda que sob a ótica de um plano procedural, ao contrário das ideias distintas que mais beiravam um melodrama raso do que a composição obscura que pretendia.

Tell Me a Story (EUA, 2018 – 2020)
Criação: Kevin Williamson
Direção: Vários
Roteiro: Vários
Elenco: Danielle Campbell, Paul Wesley, James Wolk, Billy Magnussen, Billy Magnussen, Billy Magnussen, Billy Magnussen, Matt Lauria, Natalie Alyn Lind, Sam Jaeger, Carrie-Anne Moss, Davi Santos, Ashley Madekwe, Garcelle Beauvais
Duração: 44 a 50 min (Cada episódio – 20 episódios no total)

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