Crítica | Tempo de Caça

“Às vezes é preciso mentir para si mesmo para sobreviver.”

Estreada em circuito popular no Festival de Berlim, a Netflix adquiriu os direitos dessa obra para preencher seu catálogo, uma vez que só tinha estreia prevista para o cinema coreano, fechado em virtude da atual pandemia. E que bom que o streaming recuperou esse longa, mais um exemplar digno da emancipação plurilateral que vem sendo o cinema coreano na última década. Bem como Parasita, Tempo de Caça mistura gêneros diferentes a cada passo da narrativa, passeando entre unidades conhecidas, mas as executando com uma formalidade diferente e única, principalmente no modo como amontoa esses diferentes elementos. 

É uma espécie de 11 Homens e um Segredo com Doce Vingança, num universo distópico sem interesse em discussões remetentes às ficções científicas, mais interessado em usar aquele contexto para criar a atmosfera imersiva de significância ao drama de sobrevivência. O início é bem juvenil, mas surpreendentemente ágil, estabelece o vínculo dos personagens com habilidade enquanto passeia no pós-apocalipse cirurgicamente autoexplicativo. Não é preciso compreendê-lo como um todo, somente entender os princípios geográficos e motivacionais que o circundam. O que levará os personagens a apostarem tudo num assalto ao cassino ilegal, e como funcionará o deslocamento deles na cidade para fugirem de quem quer persegui-los depois. Com esse panorama objetivamente estabelecido, tem-se logo de cara a primeira sequência de tensão, referente ao assalto, que em estruturas tradicionais poderia ser o mote do clímax, ou no mínimo, da metade do filme. Sem nada mirabolante, a cena é uma ilustre demonstração de como se conduzir o suspense somente com artifícios realistas.

Os personagens sentem o peso do amadorismo, e apesar de seguirem devidamente a simplicidade do plano, o “tremer na base” comumente estabelece um vínculo de proximidade que engole a carência de um maior desenvolvimento anterior à ação principal, além de fornecer um grau de imprevisibilidade, tudo parece estar suscetível a erros que podem custar caro. O medo vunerabiliza o quarteto e aos poucos toma forma em temática, complementar àquela distopia e à própria jornada individual. Em um paralelo rápido  com “Parasita”, é também um filme que discute a ingenuidade de “planos” e mostra que o caminho para realizá-los tem toda uma barreira social, que nesse caso nem é exatamente estabelecida porque se sabe que permeia clichês típicos de disparidade de classes e crise política-econômica, então o filme percebe um maior potencial em senti-las através do emocional dos personagens, amplamente explorado após essa cisão.

Principalmente porque a partir desse ponto o heist dá lugar a quase um filme slasher, em que um assassino desconhecido e imortal passa a persegui-los sem um motivo aparente que faça sentido. O perseguidor segue as pistas, mata aqueles que ficaram no caminho dos jovens, mas nunca entra em âmbito pessoal com nenhum deles, embora brinque com essa pessoalidade em nível frente a frente da ação. Essa incerteza de suas motivações o traz um ar bastante ameaçador que vai também amedrontando o grupo pelos mesmos motivos. Enquanto cada situação vai nos envolvendo atmosfericamente no embate, cada um vai fortalecendo os vínculos com o outro em prol do sonho final que diz o término do plano. É quase um novo filme se formando, sobre a amizade idealizada em um futuro promíscuo, desenvolvida em meio a sequências absolutamente angustiantes que só fortalecem a importância daquele conjunto.

O medo então passa a ser não somente de ser pego como também de perder aquele laço, assim o terço final ganha ares surpreendentemente melancólicos, que funcionam tamanha a habilidade como foi costurado o arco da amizade com o arco situacional que fornece a tensão. É incrível como o diretor Sung-hyun Yoon as pensa de forma tão complementares, que mesmo analisando em separado, uma alavanca a outra. Isso se deve muito ao grau de destreza técnica também, o segurar da câmera em planos longos, abertos, que valorizam a ambientação brincando com a paleta de cores de acordo com o tamanho da angústia, acobertada por uma trilha incisiva e sonorização aguçada, sem jamais ditar a cena por completo até a permissão do segurar natural do cineasta. É um arsenal de truques para se trabalhar a urgência, respiros e quaisquer outras características que a história precisa impor em determinados momentos.

Com eles, o cineasta consegue muito com pouco, e sem demasiado esforço, já que a imersão é estabelecida logo cedo. Pensando como filme de suspense situacional, é um longa praticamente completo, exceto pelas últimas resoluções. Li que se planeja fazer uma sequência e transformar esse universo em franquia, talvez por isso que ele não tenha exatamente sido explorado de forma sofisticada ou explicativa. Sendo verdade ou não essa informação, não prejudica tanto a experiência, mas talvez tenha estendido o filme em demasia numa espécie de prólogo de conclusões em aberto não tão coerentes com o que vinha desenhando. De qualquer forma é um baita exercício de gênero, esteticamente vistoso, plural e repleto de entrelinhas discursivas e sentimentais.

Tempo de Caça (Sanyangeui Sigan, Coreia do Sul – 2020)
Direção: Sung-hyun Yoon
Roteiro: Sung-hyun Yoon
Elenco: Le Je Hoon, Ahn Jae Hong, Choi Woo Shik, Park Jung Min, Park Hae See e Bae Je Ki
Duração: 134min.

IANN JELIEL . . . Um aspirante a jornalista que acabou descobrindo no cinema um refúgio para sair da engrenagem robótica da sociedade, como em "Matrix", onde tudo segue uma rotina protocolar implantada na mente. Olho a sétima arte como um quebrador desses paradigmas, capaz de nos fazer refletir sobre qualquer espectro existencialista da humanidade, e ao mesmo tempo nos encantar e entreter com suas milhares de histórias transcendentais em corpo e alma. Por isso, escrevo sobre ela, pois foi nos textos críticos que aprendi a olhá-la dessa forma libertadora, e espero libertar muitos da mesma forma.