Crítica | Tempo de Melodia

Tempo de Melodia é o começo do fim de um ciclo dentro dos estúdios Disney; o ciclo dos filmes-pacote, obras de baixo custo e considerável retorno. Uma necessidade imperativa na época, tendo como objetivo a manutenção da empresa mesmo em tempos de guerra e pós-guerra. Essa “crise” na indústria, felizmente, não devorou a capacidade imaginativa de Walt Disney. Embora deixasse de produzir obras-primas como Pinóquio e Fantasia, os longas-metragens mantiveram uma qualidade uniforme. Por falar nestes clássicos, Fantasia é definitivamente uma das maiores inspirações para a realização de tais produtos em formato de pacote, principalmente Música, Maestro! e Tempo de Melodia, ambos adotando a música popular dos anos 40 para permear os seus inúmeros curtas; Fantasia, por sua vez, se moldava de acordo com algumas composições clássicas de músicos atemporais. A diferença mais gritante, porém, não seria nem essa, mas a disparidade dos orçamentos, que justifica animações sem o mesmo apreço artístico – mas longe da mediocridade. Por fim, quando se há de comparar Música, Maestro! com Tempo de Melodia, é inevitável um desacordo do primeiro com o segundo; afinal, eis uma obra ligeiramente inferior, certamente esquecível.

Apesar do orçamento reduzido, é inegável que a técnica nesta mistura de animação e música permaneceu graciosa, assim como em Música, Maestro!. Trees, situado no meio do filme, é um espetáculo. Em um primeiro plano, o segmento poderia muito bem ter feito parte da obra de 1940, por ser um curta mais perto daquele esmero estético. Curiosamente, Bumble Boogie, uma outra realização deslumbrante, realmente passou pelas cabeças dos artistas responsáveis por Fantasia, não dessa maneira como fora apresentada, mas em alusão ao fato da peça ser inspirada em Flight of the Bumblebee, de Nikolai Rimsky-Korsakov, uma composição que não sucedeu à seleção daquelas mentes criativas. Já dentro do contexto deste filme, os animadores alcançam com tal curta a coesão mais eficaz entre música e animação, enquanto, na narrativa, uma abelha foge, literalmente, da melodia. Tão minuciosamente orquestrado quanto rítmico em sua totalidade, Bumble Boogie prova ser superior aos seus outros “aliados”, em razão do anterior conto de amor, Once Upon a Wintertime, ter sido uma menor porta de entrada para o filme, após a abertura, propriamente dita, ter sido embalada pela fraca canção homônima ao título da obra, Melody Time.

Dentre os curtas que não encontram um ajuste adequado, Blame It on the Samba é uma redundância do que já havia sido apresentado em Você Já Foi à Bahia?, com a própria paleta de cores remetendo aos momentos psicodélicos do longa, além do live-action invadir o mundo animado nos dois casos. A aparição de Aracuã, um hiperativo personagem que, aqui, serve como rival para o Pato Donald e José Carioca, é divertida, mas a diversão não vai além. The Legend of Johnny Appleseed, por sua vez, fracassa em ser a salvação do filme, caracterizando-se pela sua narrativa bucólica, com condições de ser um futuro clássico individual, caso o entorno cinematográfico convencesse. Em um penúltimo olhar, Little Boat tem a cara da Disney, por apresentar, como protagonista, um pequeno barco rebotador, em um mundo de embarcações com faces personificadas, cartunescas. A história, todavia, não encontra vida para um prosseguimento firme e forte, mas uma mensagem questionável, com o pai se comportando de maneira pouco relacionável. As próprias problemáticas são assombrosas, com um “garotinho” sendo levado para o meio do mar depois de se envolver em uma tragédia que, por bem ou por mal, foi claramente acidental.

As falhas, enfim, acontecem em proporções maiores durante o encerramento do filme, com Pecos Bill, o curta mais fraco de todos, sendo, inicialmente, extremamente longo. Apesar do visual agradável e o começo, novamente, promissor, o relacionamento da animação com o live-action é quase inexistente, não justificando o uso de atores reais. A história, para mais exemplos negativos, não vai a lugar algum que não seja o término dela mesma. Já a amizade de Pecos Bill com o seu cavalo é bastante dúbia, visto que, ao final do conto, somos levados a comprar um comportamento obsessivo do animal, o qual, em um filme infantil, deveria ter sido criticado, talvez mostrando-se consequências negativas dele – o envolvimento não cativa. A superficialidade é uma constante. Outrossim, o fim dado à namorada de Pecos é de extremo mau gosto, e o “herói-título”, atirando aleatoriamente em índios, não tem o mínimo de carisma que Mogli, o Menino Lobo, outro homem criado por animais, possuiria décadas depois, no longa-metragem homônimo. O que falta em Tempo de Melodia é carisma suficiente para carregar uma animação por mais de uma hora, para que a animação seja lembrada e relembrada para além dessa uma hora. 

Tempo de Melodia (Melody Time) – EUA, 1948
Direção: Jack Kinney, Clyde Geronimi, Hamilton Luske, Wilfred Jackson
Roteiro: Winston Hibler, Harry Reeves, Ken Anderson, Erdman Penner, Homer Brightman, Ted Sears, Joe Rinaldi, William Cottrell, Jesse Marsh, Art Scott, Bob Moore, John Walbridge
Elenco: Roy Rogers, Trigger, Dennis Day, The Andrews Sisters, Fred Waring and the Pennsylvanians, Freddy Martin, Ethel Smith, Frances Langford, Buddy Clark, Bob Nolan, Sons of the Pioneers, The Dinning Sisters,
Bobby Driscoll, Luana Patten
Duração: 75 min.

GABRIEL CARVALHO . . . Sem saber se essa é a vida real ou é uma fantasia, desafiei as leis da gravidade, movido por uma pequena loucura chamada amor. Os anos de carinho e lealdade nada foram além de fingimento. Já paguei as minhas contas e entre guerras de mundos e invasões de Marte, decidi que quero tudo. Agora está um lindo dia e eu tive um sonho. Um sonho de uma doce ilusão. Nunca soube o que era bom ou o que era ruim, mas eu conhecia a vida já antes de sair da enfermaria. É estranho, mas é verdade. Eu me libertei das mentiras e tenho de aproveitar qualquer coisa que esse mundo possa me dar. Apesar de ter estado sobre pressão em momentos de grande desgraça, o resto da minha vida tem sido um show. E o show deve continuar.