Crítica | Tentáculos (1998)

O que é pior do que colidir com um iceberg? É você colidir com algo que não conhece. Assim a campanha publicitária de Tentáculos se estabeleceu, filme com mesmo nome do clássico esquizofrênico da década de 1970, lançado no auge das imitações de Tubarão. Pode parecer a proposta de uma refilmagem, mas o contexto e a abordagem são totalmente diferentes. E o nome original também, pois a ideia de fazer referência aos membros de articulação tentacular foi exclusivo do equivocado lançamento brasileiro. Numa referência divertida ao clássico moderno Titanic, de James Cameron, a produção usa e abusa de piadas, efeitos especiais e visuais duvidosos e diverte mais nas explosões que nos momentos de ataque da criatura do título.

Sob a direção de Stephen Sommons, Tentáculos é um filme com ecos de outra produção sobre desastre: O Destino de Poseidon. No enredo, dirigido com base no roteiro escrito pelo próprio cineasta, um grupo de mercenários decide assaltar um luxuoso transatlântico, mas sequer imaginam que a iniciativa já é um fiasco antes mesmo do ato, pois a tripulação foi tomada por um monstro gigantesco que talvez seja um polvo ou lula gigante. O que saberemos, posteriormente, é que a criatura tem enormes tentáculos e muito apetite. Em determinado trecho do filme, um personagem alega que seu amigo “não foi devorado, mas na verdade ingerido como bebida”. Daí, teremos a dimensão do que é o monstro, mais assustador por suas descrições, não quando é visto.

Dentre os integrantes do grupo que está prestes a ser devorado pelo monstro, temos John Finnegan (Treat Williams) e Trillian Snt. James (Famke Janssen), elegantes e com “cara” de criminosos em trajes galantes, graças aos figurinos de Shelley Bolton. Eles são os únicos personagens relativamente memoráveis deste filme que se estabelece como uma vaga lembrança em nosso imaginário cinéfilo graças aos seus elos referenciais. Ele é da era posterior ao fiasco de Velocidade Máxima 2, produção responsável por comprovar que desastres em navios nem sempre podem resultar em filmes empolgantes. Sem conflitos e necessidades dramáticas que nos permita qualquer aproximação catártica com as vítimas em potencial, Tentáculos naufraga vertiginosamente. E nem sequer diverte.

Com Mark Dobrescu na direção de fotografia, o filme é um festival de usos ineficientes do POV. Há vários deles, assustadoramente empregados de maneira pouco orgânica. Geralmente os filmes com monstros, voltados ao esquema de sustos, utilizam o ponto de vista como uma alternativa econômica e eficiente de pregar peças em seu público, recurso tão comum quanto o jump scare. O único POV que funciona é o da abertura, interessado em emular as cenas iniciais de Tubarão. Mas é só isso. Na condução sonora, Ken Williams emprega todo tipo de parafernália instrumental para o desenvolvimento da trilha barulhenta e vertiginosa da trama repleta de cenas de ação. Os efeitos visuais são muito ruins. Produzidos pela equipe de Adam Stern, delineiam a virtualidade da criatura que talvez devesse ser apresentada para o público por meio de recursos mais simples, tais como os animatrônicos, por exemplo, pois a artificialidade deixa o filme ainda pior do que já é.

Ao longo de seus 92 minutos, Tentáculos é uma aventura bem abaixo da média. O elenco famoso pode ter dado ao filme a pompa desmerecida, mas nós, espectadores críticos, sabemos o poder deste tipo de publicidade que reluz, mas que não é ouro. Há diversos sons de trovões, roubos estilosos, ladroes talentosos na arte do crime e uma criatura sanguinária. Mas nada disso convence. É tudo distribuído de qualquer maneira, sem algum impacto ou relevância dramática. As histórias da vida real envolvendo tentáculos são mais assustadoras que o filme em si. Há algum tempo, um polvo atacou uma blogueira chinesa que tentou comê-lo vivo. O rosto saiu ferido e ele provavelmente nunca esquecerá. Outro vídeo que viralizou foi a caçada por um caranguejo, empreendida por um polvo faminto na Austrália. Histórias assim parecem mais impactantes que o filme em questão, um festival de bizarrices grandiosamente entediante.

Tentáculos ( Deep Rising – Estados Unidos, 1998)
Direção: Stephen Sommers
Roteiro: Stephen Sommers
Elenco:Treat Williams, Famke Janssen, Anthony Heald, Kevin J. O’Connor, Wes Studi, Derrick O’Connor, Jason Flemyng, Cliff Curtis, Clifton Powell, Trevor Goddard, Djimon Hounsou, Una Damon, Clint Curtis, Linden Banks, Warren Takeuchi
Duração:  98 min

LEONARDO CAMPOS . . . . Tudo começou numa tempestuosa Sexta-feira 13, no começo dos anos 1990. Fui seduzido pelas narrativas que apresentavam o medo como prato principal, para logo depois, conhecer outros gêneros e me apaixonar pelas reflexões críticas. No carnaval de 2001, deixei de curtir a folia para me aventurar na história de amor do musical Moulin Rouge, descobri Tudo sobre minha mãe e, concomitantemente, a relação com o cinema.