Crítica | Terra Prometida (1975)

O vocábulo “terra prometida” logo lembra ao crítico que vos escreve à questão de Canaã, terra histórica do povo hebreu descrita na Bíblia. Sempre vista como objeto de desejo, a terra prometida dos judeus foi, também, um objetivo distante da sociedade judaico-cristã. A ideia de um local ao longe, uma meta a ser alcançada, é algo que, de certa maneira, justifica escolhas estético-narrativas de Andrzej Wajda ao conceber a linguagem cinematográfica de sua obra Terra Prometida, adaptada do livro homônimo de Władysław Stanisław Reymont.

Terra Prometida conta a história de três amigos, um judeu, um polaco e um alemão, oriundos de famílias pequeno burguesas, cujo grande sonho de vida é montar uma bem sucedida fábrica durante o boom de industrialização do final do século XIX. Nesse contexto, os três são acompanhados ao longo do percurso até alcançar seu objetivo conjunto e, também, glórias pessoais. Durante esse tempo, descobrem as pequenas nuances do mundo industrial e da fortuna.

Dentro do cinema polonês, Andrzej Wajda é visto como um excelente contador de histórias. Sua capacidade é tanta que, observando sua filmografia, percebe-se que consegue unir passado e presente por meio das fortes temáticas de suas películas. Assim o faz em Danton, Cinzas e Diamantes e, ainda, em Terra Prometida. Por mais que 80 anos separem o tempo diegético e o tempo real, a luta de classes, a manipulação das massas e desigualdades sociais conectam esses dois tempos, aparentemente, distintos.

A primeira cena do filme é elemento chave para entender os debates que o diretor traz ao filme. Expondo seus anseios a respeito da construção da fábrica, os três protagonistas são vistos de maneira leve pela câmera de Wajda – contradizendo a forte marcação de movimentos de câmera e enquadramentos intrusivos que marcam o estilo do realizador. Em bosques e em uma bela casa de campo, a mise en scène conduz o espectador a entender a plenitude e aura sonhadora dos personagens; seja por meio de uma clássica iluminação hollywoodiana, uma leve banda sonora ou por destacar os protagonistas do fundo a partir de sua relação cromática. Neste ponto, vê-se, também, uma atuação mais próxima do naturalismo – fatores estes futuramente subvertidos.

Há, no entanto, uma ruptura com o estilo  adotado nos primeiros minutos do filme. Ambientado durante a Segunda Revolução Industrial, na segunda metade do século XIX, o filme inevitavelmente apresenta um dos principais problemas da industrialização massiva: o aumento das populações urbanas e a gigantesca oferta de mão de obra. É aqui que Wajda decide romper e retornar com seu brutal e intrusivo estilo de filmagem. Apresentando o proletariado, o diretor opta por uma encenação mais pesada, que desconforta o espectador; o sofrimento das camadas mais pobres é encenado de maneira forte, através de bruscos movimentos de câmera e com o uso de distorções de lente – cria-se, dessa maneira, um ambiente inóspito, pesado, representando o martírio de grande parte da população polonesa.

É nesse cenário que os três protagonistas se lançam para construir seus sonhos e desenvolver sua famigerada fábrica. Deixando o inicial conto de fadas, vêm-se envoltos em um mundo falido, decrépito: o mundo real. A então idealização da riqueza e do ambiente industrial é trucidada pela imponente assinatura de Andrzej Wajda. No meio de atrocidades, condições subumanas de trabalho e exploração da mão de obras, os três amigos são parte de um universo agressivo, de opressão, que ao longo dos anos os corrompe. Tudo isso repleto da típica mise en scène do diretor, com enquadramentos intrusivos, sempre destacando o horror da, sempre muito próxima, face dos personagens.

Mostrando clara referência aos trabalhos de atuação de Jerzy Grotowski e Vsevolod Meyerhold, recorrentes na filmografia do leste europeu, Wajda é capaz de introduzir o elemento do grotesco de maneira exemplar. No princípio, um trabalho de atores mais biomecânico é marcado como caracterização do proletariado, mostrando, assim, um contraste entre os burgueses e o povo trabalhador que anseia por uma vida digna. Terra Prometida é um filme sobre contrastes. Enquanto as camadas mais pobres da população são maquiados de maneira a remeter ao expressionismo, a parcela nobre da sociedade é apresentada de modo naturalista.

Essas distinções, no entanto, vão sendo dissipadas ao longo do filme. A pompa e a elegância da riqueza vai tomando contornos mais fortes, superando a estética grotesca das condições quase escravagistas do trabalhador polonês. A nobreza, agora, assume a totalidade da estética de Wajda. Quanto mais os protagonistas caminham pelos escombros da alta sociedade mais crescem os episódios perturbadores. Desde mortes, até métodos de tortura psicológica, profissionais de colarinho branco são desmistificados e apresentados como monstros – para isso, o método de atuação e capacidade invasiva da câmera, com suas distorções imagéticas, são fundamentais.

Além de realizar um exercício de desnudar a burguesia do século XIX, Andrzej Wajda denuncia abusos dos empregadores perante a facilidade de se contratar mão de obra barata. Característica do cinema do diretor polonês, denunciar abusos e represálias à classe trabalhadora, é um movimento retomado em Terra Prometida. Por mais que seja um drama específico de três personagens, Wajda dá conta, assim como em toda sua filmografia, de tocar em assuntos políticos e sociais que marcaram sua vida.

Tão importante quanto a questão social do filme, observar a maneira como o diretor conduz a caminhada dos protagonistas até seu grande objetivo é impressionante. Assim como a alta sociedade é deposta e vista como algo malévolo, os sonhos dos protagonista são vistos como algo menos romântico do que imaginavam. Em um mundo de moral questionável, os três caminham por lugares tortuosos com a incansável câmera instável de Wajda sempre ao seu lado. Em dado momento, conseguindo o capital necessário, constroem sua fábrica. 

Contudo, por mais humanista que fosse, Wajda sempre se apresentou como um pessimista em seus filmes. O sonho durou pouco tempo. A tão falada fábrica entra em chamas. O mundo de perversidade e sabotagem que vemos não permite o sucesso dos rapazes. O sonho vira pó. É nesta sequência em especial que o diretor consagra sua maestria dentro de Terra Prometida. Nesta cena, a mise en scène não está voltada para compreensão espaço temporal – pequenas elipses e cortes brancos são artifício para tal desorientação. Aquilo que importa, a devastação emocional dos personagens e a queda de sua fortaleza industrial, é marcado através de uma poluição visual agoniante, mas de beleza capaz de deixar qualquer um atônito.

Wajda é único. Seus filmes são únicos. Considerado por Lech Walesa um ícone cultural polonês, o diretor é também visto dessa maneira pelo crítico aqui presente. Por mais que seja ambientado no final do século XIX, Terra Prometida é atual até os dias de hoje e o será até o fim da humanidade. Seguindo aquilo que Foucault prega, relações de poder são elementos inatos à vida em sociedade. Entender a maneira como Wajda constrói a luta de classes dentro do filme por meio de sua linguagem atordoante é um excelente exercício a ser feito.

Gravado em 1974, adaptado de uma obra de 1899, mas com temáticas ainda pertinentes nos anos 2000. Articulando a mise en scène de maneira a incomodar o espectador e fazê-lo refletir a respeito do papel do proletariado é um objetivo mais do que atingido pelo diretor. Em paralelo, acompanhar o desenvolvimento e a destruição dos sonhos dos protagonistas devido ao modus operandi da alta classe social é algo que faz de Terra Prometida filme atemporal. Será que vivemos tão distantes dos tempos proto-industriais? Somos os mesmo desde 1890? Não mudamos desde 1974? É isso que Wajda indaga em mais uma de suas obras primas.

Terra Prometida (Ziemia obiecana) – Polônia, 1974
Direção: Andrzej Wajda
Roteiro: Andrzej Wajda, Władysław Stanisław Reymont
Elenco: Daniel Olbrychski, Wojciech Pszoniak, Andrzej Seweryn, Kalina Jędrusik, Anna Nehrebecka, Bożena Dykiel, Andrzej Szalawski, Stanisław Igar, Franciszek Pieczka
Duração: 179 min.

FREDERICO FRANCO . . . Estudante de cinema de Porto Alegre, RS, que pretende ser professor de cinema. Ocupo meu tempo com literatura, música e cinema. No mundo da literatura, Borges é meu padrinho; na música, sou regido pelo sintetizador de Charly García; e, junto de Michael Snow e Michelangelo Antonioni, caminho pelo mundo do cinema.