Crítica | Terremoto (2018)

O terror da responsabilidade e do legado familiar é algo muito tratado em círculos europeus de conservadores. Nesse filme, o diretor John Andreas Andersen evoca o desastre natural e o fatídico heroísmo individual para revelar o discurso conservador em prol de uma sociedade que preserve o futuro da família sob esses moldes.

Com um melodrama bem extenso, o longa-metragem norueguês que quer alcançar, por meio do suspense, o terror da natureza, com terremotos e tremores, e soa bem inesperado em sua apresentação ao público. As primeiras cenas remetem a um estilo documentarista de jornal, sobre o fato do perigo dos tremores em Oslo, capital da Noruega. Logo em seguida, um zoom out (quando a câmera aumenta o campo de visão de algo particular para algo geral) se afasta de fotos que ilustravam consequências de um terremoto para mostrar uma silhueta de um casal na contra-luz. O que o diretor quer alinhar para o resto do filme, em uma cena sutil em imagem e explícita sonoramente, é como o desastre começa do íntimo e vai para o geral, do drama familiar para o terror natural.

Dessa forma, o diretor justifica a ideia dramática que vai carregar dois terços do filme. Estabelece-se posteriormente qual a situação desse casal, em que o desenvolvimento vai sendo puxado pela relação do pai com a filha, e o trabalho de geólogo desse pai que vive distante da capital depois de deixar um legado heroico na cidade. Esse pai protagonista se chama Kristian, interpretado pelo ator Kristoffer Joner. Ele entrega a melancolia e o desespero para a abordar a temática conservadora da história. O personagem acaba sendo um tremor de alta magnitude na escala paterna, uma instabilidade que não resiste a visita da filha em sua casa. Kristian parece conviver com o trauma de que a qualquer momento haja tremores em Oslo, e suas mãos tremem constantemente, e seu próprio contexto gravado pela fotografia é tremido, pois ele vive em um constante terremoto, depois do que sofreu. Embora haja clareza quanto a esse sentimento do protagonista, na interpretação e na imagem, o ator consegue ainda incorporar o trauma do herói como fato, em uma dimensão realista que o filme dispõe pelo contexto. Desse jeito, sua volta à cidade para investigar uma morte por tremores em um túnel acaba colocando-o diante de sua responsabilidade profissional e paternal de maneira direta, especialmente com sua filha.

Mas antes dessas responsabilidades se tornarem agravantes durante o filme, a narrativa se preocupa em contextualizar o que houve com o casal do início, em um paralelismo de cenas com as mesmas ações em dinâmicas familiares. Uma ação com a ex-esposa verbaliza o que aconteceu com o casamento; outra ação não-verbal faz o público conhecer uma outra pessoa que sente a ausência do pai, assim como a filha de Kristian sentia. Como esposo, ele falha em iluminar a caixa de energia que sua ex-mulher ajeita, enquanto em outra cena, com a órfã chamada Marit, ele precisa de ajuda dela para o trabalho de geólogo. Logo, o grande dilema do protagonista é que sua funcionalidade social era levada mais em conta – como heroísmo – do que sua funcionalidade matrimonial, por isso ele não conseguia manter sua família unida.

O discurso conservador, aqui, pode ir mais além do que apontar a inversão de prioridades sobre a funcionalidade de Kristian na sociedade. Na verdade, se torna também um aterrorizante exercício para saber o que de fato deve ser prioridade quando se pensa em legado. Isso se enfatiza no trabalho do diretor ao mostrar que o desastre exacerba o íntimo de uma família. Acaba sendo uma dramaturgia que se aproveita do terror natural para refletir implicitamente sobre a natureza social da família. Comprova-se tanto isso que acontece uma diretriz na linguagem do filme, ao implicar que a paternidade seja colocada em prática como foco, não o trabalho de geólogo.

Percebe-se, assim, que quando a ação do terremoto vai se iniciar, qualquer aspecto impessoal inerente a ela, como o trabalho de geologia ou telas de computador, são apagados. As supostas ações heroicas e sociais ditas e reportadas no começo do filme, que faziam Kristian famoso e traumatizado, nunca são colocadas em prática na imagem, pois a família é colocada em primeiro lugar. O filme não sente pena em mostrar um certo desapego lógico e emocional com civis no desastre, porém, também não é insensível quanto a pessoas não envolvidas no drama familiar. Os desvios de foco em mostrar outras pessoas são para aumentar a tensão, que valoriza o tempo investido no melodrama  dos dois primeiros atos do longa-metragem, para que os personagens centrais colocados em tela, a família de Krisitian, sejam importantes o suficiente para uma emoção à flor da pele nos minutos finais. 

Pode parecer clichê em ideia puramente roteirizada, ou até ludibriante, mas quando existe uma conjunção de engrenagens do gênero terror com pontuações dramáticas – envolvendo estritamente o drama da responsabilidade social com o familiar – resolve-se tudo muito bem em uma explosão na tela. Com computação gráfica e cenografia engajadas para acomodar um choque de realidade a um pai, suspende-se seu tremor das mãos ao entender a expansão do seu terremoto interno. Até nisso ele acaba afetando também seus familiares, seja positivamente (quando o filho atina ao senso de perigo mais cedo, por causa do pai), seja negativamente, ao se isentar de acalmar a filha.

A conclusão não é novidade, especialmente conhecendo o projeto do discurso conservador que se desenrola na apresentação do filme. No entanto, a subjetividade emocional de enfocar na relação familiar para objetivar no desastre natural, administra tanto um valor comovente quanto de custo para uma produção bem alocada no cinema de Oslo. E mesmo que de nada valha envolver um homem que precisou de um terremoto para olhar atentamente para a família, ao menos a jornada de Marit, interpretada por Kathrine Thorborg, possa ser olhada com cuidado pelo espectador, em vista de ser uma coadjuvante espelhada em forma de adulta na filha de Kristian. Porque diferente da criança que reconhece o pai, a adulta precisou passar pelo terremoto para sofrer o luto de verdade. A dramaticidade do filme pode não ter camadas complexas, mas tem exemplos suficientes para complementarem num realismo doloroso, mesmo com uma mensagem esperançosa e mais uma chance à boa paternidade.

Terremoto (Skjelvet) – Noruega, 2018
Direção: John Andreas Andersen
Roteiro: Harald Rosenløw-Eeg, John Kåre Raake
Elenco: Kristoffer Joner, Ane Dahl Torp, Jonas Hoff Oftebro, Edith Haagenrud-Sande, Kathrine Thorborg Johansen, Fredrik Skavlan, Stig R. Amdam, Catrin Sagen, Ingvild Haugstad, Ravdeep Singh Bajwa, Tina Schei, Hang Tran.
Duração: 106 min.

DAVI LIMA . . . Depois de uma onda de experiência na infância com Terror e Comêdia Romântica ao lado da irmã cinéfila, fui transferido para uma Galáxia Muito Muito Distante, Há Muito Muito Tempo Atrás. A Força conhecida inspirou comentários sobre várias obras artísticas, porém foi preciso ter um contato com alienígenas de uma língua circular e entender que existe brasilidade em Star Wars que compreendi que o fracasso é o melhor professor para melhorar a argumentação. Então Roger Ebert ensinou que o cinema é uma máquina de empatia e Hans Rookmaaker mostrou que a estética vem do Divino. E cá estou aqui, tentando entender os mistérios da forma e do conteúdo para formar a arte, e estudando como pesquisar e lecionar História para compreender como a temporalidade faz mais obra prima que textos críticos. Sempre firme e forte para duvidar de um filme, até mesmo se for do Steven Spielberg, e apreciar o audiovisual na mesma medida.