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Crítica | Terror em Silent Hill- Regresso para o Inferno

Emulando uma partida.

por Felipe Oliveira
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Talvez seja uma tarefa difícil lembrar de outro cineasta que conseguiu voltar para uma franquia duramente recepcionada pelo público e crítica especializada como Christophe Gans, responsável pelo primeiro filme de Silent Hill, terror psicológico inspirado na série de jogos da Konami. O fato do diretor francês retornar a direção depois de 20 anos soa até respeitoso, além de oferecer uma nova chance de levar a lore do game para as telonas. E se em 2006 as adaptações de jogos estavam em alta, e em 2012 a experiência em 3D era a nova moda aplicada às produções, a fase atual na indústria vive da promessa de fazer uma adaptação fiel ao universo que se inspira. Então, chegamos a Terror em Silent Hill: Regresso para o Inferno, com altas expectativas depois que Gans e o produtor Victor Hadida compartilharam que o longa seria mais próximo do segundo jogo, e assim como o primeiro filme, acrobatas e dançarinos seriam contratados para dar autenticidade às criaturas da cidade neblinada. Com tudo isso em mente, era de esperar uma adaptação digna, capaz de agradar crítica, público externo e fãs dos jogos, porém, o que temos aqui é uma oportunidade que não convence o retorno à Silent Hill.

De fato, Return to Silent Hill mantém a lore do segundo jogo ao contar a história de James Sunderland (Jeremy Irvine) na tentativa de corrigir às críticas da primeira adaptação, mas parece que nesse caminho Gans levou a ideia de “fidelidade” a sério demais ao esquecer de compor uma narrativa cinematográfica para sua premissa. Resumidamente, o resultado sugere um filme baseado em um gameplay, ou que o cineasta focou tanto em honrar os jogos que não escreveu um roteiro para as telas e sim de um vídeo que alguém registrou e postou no Youtube. No primeiro indício de que Gans insere aspectos de jogos parece interessante, mas ao mesmo tempo deslocado ao vermos uma câmera em primeira pessoa ser utilizada numa cena de briga de bar. O público bem sabe que está assistindo a uma nova adaptação, mas não é como se algum momento iríamos jogar, ou quando Sunderland voltasse à cidade é como se entrássemos juntos? A sacada aqui não poderia ser mais óbvia: remeter a audiência ao jogo, não pela nostalgia e sim pela sensação de “estar no jogo”.

A nova chance de Gans em adaptar mais uma história dos jogos de Keiichiro Toyama se perde em meio a promessa de ser algo fiel, afinal, o cineasta leva isso muito ao pé da letra, quase que literal na ideia de que estava contando a história da maneira correta. Certamente há acrobatas por debaixo das próteses das enfermeiras (Bubble Head) e Pyramid Head, mas além de ter deixado de lado as representações psicológicas dos monstros sobre os traumas, repressão sexual, por exemplo, o cineasta insiste em aplicar um filtro o qual a fotografia parece a de um jogo. Nesse sentido, o universo que mistura CGI e efeitos práticos parece criado inteiramente com computação, e essa mesma técnica respinga no protagonista. A cena o qual acorda e se olha no espelho questionando sua lucidez, há uma ambiguidade por ele se sentir fora da realidade e a audiência perceber que o frame parece do jogo… se Gans acreditou que estaria lançando uma nova moda de adaptar jogos, o efeito transmite amadorismo e artificialidade ao entregar um filme com estética de um game lançado em 2001.

É de se imaginar que em algum momento durante às conversas de como adaptar fielmente Silent Hill 2 para os cinemas essa seria uma forma interessante de honrar o universo, porém nesse caminho, terminaram criando um mundo sem substância o qual suas temáticas — que só pela história dos personagens possui uma densidade — se perdem na tentativa de fazerem um filme simbólico. Há muitas ideias que parecem incompletas ou que não encontraram o jeito mais criativo de combinar aspectos genéricos ao gênero com o senso de claustrofobia dos cenários, sequências e visuais que se assemelha ao jogo. É uma bagunça narrativa que em nenhum momento consegue fazer jus a história, e Gans parecia mais preocupado em fazer o público sentir que estava com o console de Playstation durante a sessão.

Se Paul W. s Anderson detém o título de adaptar uma das maiores sagas de jogos sobre zumbis para os cinemas ao seu próprio estilo e ainda assim oferecer um entretenimento absurdo pelo seu exagero, Christophe Gans vai ficar com o título de conseguir fazer o pior filme inspirado em um jogo de terror, afinal, não é sempre que temos o privilégio de voltar a Silent Hill, e quando se tem a chance, o cineasta não sabe o que fazer com isso, a não ser oferecer um gameplay com cosplay dos personagens.

Terror em Silent Hill- Regresso para o Inferno (Return to Silent Hill – França, Alemanha, Reino Unido, EUA – 2026)
Direção: Christophe Gans
Roteiro: Christophe Gans, Sandra Vo-Anh (baseado no jogo de Hiroyuki Owaku e Keiichiro Toyama)
Elenco: Jeremy Irvine, Hannah Emily Anderson, Robert Strange, Evie Templeton, Alana Maria, Pearse Egan, Eve Macklin, Emily Carding, Martine Richards, Howard Saddler
Duração: 106 min

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