Crítica | Testemunha de Acusação (Conto), de Agatha Christie

Testemunha de Acusação é certamente um dos contos mais conhecidos de Agatha Christie (e cuja fama seria engordada pela adaptação que a própria autora faria dele para o teatro). A obra foi publicada originalmente em uma revista, nos Estados Unidos (sob o título Traitor’s Hands), em janeiro de 1925, e foi um grande sucesso. Sua publicação no Reino Unido aconteceria apenas em 1933, na coletânea de contos O Cão da Morte.

Na obra, conhecemos o Sr. Mayherne, um advogado que está conversando com o mais recente cliente, o belo jovem Leonard Vole, que foi preso sob a acusação de ter assassinado de uma senhora idosa, Miss Emily French. O jovem Vole conta como conheceu a Srta. French (quando a ajudou a pegar alguns pacotes que ela deixou na Oxford Street) e como, por coincidência, ele a encontrou novamente naquela mesma noite, numa festa em Cricklewood. A senhora pediu que ele lhe fizesse uma visita e uma improvável amizade (vista com olhos libidinosos e aproveitadores por quem estava de fora) se formou entre os dois. Mas no momento em que o conto se passa, a Srta. French está morta. E deixou a sua fortuna para o jovem Vole.

A construção do conto é tão simples e ao mesmo tempo tão cheia de detalhes e desdobramentos que nos espanta. Temos a impressão de que a obra tem muito mais páginas, e a quantidade de implicações apresentadas sugere-nos ter lido durante muito tempo sobre esses indivíduos, sobre as manias do advogado, a confiança inabalável do réu em sua absolvição e o ódio indomável de sua esposa austríaca, que faz de tudo para que ele seja condenado. Não se trata, porém, de uma narrativa onde o leitor é convidado a conhecer o cenário, depois os personagens, suas motivações e, enfim, chegar ao clímax, daí indo para as consequências. Nada disso. Testemunha de Acusação nos insere rapidamente no lugar do acusado (injustamente?), um homem que, apesar de ter ações que são verdadeiras munições para a procuradoria, nos passa uma clara visão do que a inocência pode trazer para uma pessoa — e a sua construção psicológica é feita de modo rápido, mas muito preciso e impactante pela Rainha do Crime. Nem tudo, porém, é assim tão simples.

A autora não dá muitos detalhes do processo, apenas destaca os seus pontos principais, suprimindo o tempo de algumas ações e trabalhando muito bem o passar dos dias e o que acontece nos bastidores, na difícil jornada do advogado de defesa para tentar provar a inocência de seu cliente (destaque máximo para uma certa visita noturna). As condições da coleta de provas são ótimas, aparecem entre surpresas no meio do caminho e mudam não só a visão do advogado para com o caso, mas também a do leitor para com os principais personagens. Já ao fim, quando tudo é posto às claras e o problema chega ao seu desfecho, vem a grande cereja ética e moral, juntamente com uma crítica ao processo judiciário e uma exposição da astúcia de algumas pessoas… um dos finais mais cruéis e ao mesmo tempo interessantes de um conto de mistério. Uma daquelas obras que realmente fazem jus à fama que têm.

The Witness for the Prosecution (Reino Unido, EUA, 31 de janeiro de 1925)
Publicação original:
Sob título Traitor’s Hands.
Autora:
 Agatha Christie
Editora original: Odhams Press (parte da coletânea O Cão da Morte, 1933)
Edição lida para esta crítica: Testemunha de Acusação e Outras Histórias (L&PM, 2011)
Tradução: Rodrigo Breunig
35 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.