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Crítica | Tetro (2009)

por Guilherme Rodrigues
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Laços de sangue são difíceis de serem quebrados, por mais necessário que seja rompê-los para o próprio bem estar, algo sempre permanece, seja uma memória, um traço de personalidade, um nome, uma promessa. É por essa reminiscência que Bennie (Alden Ehrenreich), o protagonista de Tetro, um jovem de 17 anos, vai para Buenos Aires em busca de seu irmão mais velho, Angelo (Vincent Gallo), um outrora promissor escritor que decidiu fazer um retiro de escrita e simplesmente desapareceu da vida de todos, deixando somente uma carta para o caçula, que a guarda como um tesouro precioso.

Mas Angelo já não existe mais, pelo menos não como Bennie lembrava. Seu irmão reaparece na vida do protagonista como uma sombra por trás da porta, mais fantasma do que pessoa, para na cena seguinte irromper do seu quarto, tal qual uma força da natureza, mesmo com a perna quebrada, derrubando móveis e despertando subitamente Bennie. Um homem de polaridades, que agora vive pelo nome de Tetro, trabalhando como iluminador em um teatro próximo, que abandonou tudo relacionado à família, inclusive a escrita de seu livro.

A escolha de Gallo para viver esse gênio recluso é uma grande sacada, visto que o próprio autor possui essa aura de artista incompreendido que só se solidificou ao longo dos anos, com suas próprias obras conquistando reações adversas da crítica. Tetro é um personagem que vai do amor ao ódio em um piscar de olhos, carismático e repulsivo ao mesmo tempo, um contraponto muito eficaz ao protagonista que apresenta certa ingenuidade ao lidar com essa nova fase do irmão, sempre com um sorrisinho no rosto. Nesse caso, escalar Ehrenreich também fornece certa textura a Bennie, na época um novato, cujo tempo não pesava tanto quanto em Gallo/Tetro.

Os irmãos carregam o conflito central do longa, um querendo se distanciar o máximo possível do passado, o outro querendo desvendá-lo, criando esse movimento narrativo onde pouco a pouco a trama novelesca, envolvendo inveja entre irmãos, traição entre parentes e revelações de parentescos vai se revelando, e mostra o quanto o passado ainda prende os personagens. O novo nome de Angelo, “Tetro”, nada mais é do que a repaginação do sobrenome familiar, enquanto um conflito muito similar ao do pai e tio da dupla principal começa a se formar entre os dois, com Bennie também entrando no mundo da escrita.

Mas Tetro não é um drama cínico, onde filhos são condenados a viver a sombra do pai, repetindo os mesmos movimentos. De certa forma, aqui Coppola encara os mesmos temas de família e geração que na trilogia Poderoso Chefão, mas em um clã marcado pela arte, não pelo crime, e onde os pecados de uma geração não são necessariamente pagos pela outra.

Conforme se aproxima da conclusão, Tetro abandona os espaços pequenos da casa de Tetro e do bar onde trabalha, e os sentimentos se intensificam assim como a trilha sonora,  assumindo com força total a veia de ópera do longa, com direito a orquestra em cena. Apesar da intensidade, tudo se encerra com uma frase bem simples: “nós somos família”. Aqui ninguém morre sozinho na Itália, mas sim caminha lado a lado com seu parente em direção a escuridão, longe das luzes que distraem daquilo que importa.

Tetro – 11 de Junho 2009, EUA
Direção: Francis Ford Coppola
Roteiro: Francis Ford Coppola
Elenco: Vincent Gallo, Alden Ehrenreich, Maribel Verdú, Carmen Maura, Klaus Maria Brandauer.
Duração: 126 min.

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