Crítica | Tex Graphic Novel #8: Sangue e Areia

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  • Sobre a numeração da série, favor ler o primeiro parágrafo desta crítica.

Antes de Sangue e Areia eu já havia lido uma única história de Chuck Dixon no gênero western, uma história da Liga da Justiça na Terra-18 intitulada Cavaleiros da Justiça. Escrevendo para a Sergio Bonelli Editore, o americano fez uso de uma série de bons elementos do gênero faroeste e com uma toada diferente, inclusive na apresentação da intriga principal e na colocação do protagonista na história, sofrendo apenas parcialmente pela forma como as coisas se encaminham no fim. Esse tipo de sensação tem sido recorrente na série, ao menos para mim, e faz com que o leitor almeje mais páginas nas tramas destas Tex Graphic Novel, onde possivelmente essas histórias poderiam ter um melhor desenvolvimento na arrancada final.

Diferente de O Vingador e Justiça em Corpus Christi, que mostram Tex ainda na juventude, em aventuras até mesmo antes do assassinato de seu irmão, Sangue e Areia está ambientada durante a carreira do Ranger Tex, que em uma missão solitária, acaba chegando a Cinnamon Wells, local onde uma quadrilha de assaltantes acabara de roubar o banco e matado o xerife, o que obviamente faz com que o Águia da Noite entre para a posse (grupo de homens armados reunidos pelo xerife para um serviço específico) que irá caçar os bandidos. Já de cara há uma desconfiança no ar, não em relação a Tex, mas ao jovem xerife substituto que agora precisa assumir o lugar do veterano morto.

Como em qualquer série de quadrinhos regular, Tex também tem os seus clichês e coisas que qualquer leitor que já passou da terceira história saberá esperar. Uma perseguição, um crime e um intenso tiroteio são algumas das coisas que temos constantemente em Tex. Os bons roteiros, em qualquer tipo de mídia, acabam fazendo bom uso dos clichês, tornando-os interessantes por serem um “jogo seguro” entregue com outras cores ou a partir de uma premissa que arrisca novas ideias. E Chuck Dixon espera para fazer isso no deserto. Como o início é muito rápido e claramente o autor queria tirar os personagens de Cinnamon Wells e levá-los para um lugar de perigo, temos as ações mais curiosas desse volume acopladas às dificuldades do árido, uma dica que nos é dada desde a pequena e bacana introdução da aventura: “Condado de Yuma, Arizona. O vento do deserto sopra dos montes Gila. Às vezes traz chuva. Geralmente traz calor e poeira. Hoje, só traz encrenca…”.

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Em dado momento da narrativa Tex precisa escolher como lidar com no mínimo três problemas imediatos, tendo mais alguns outros a tiracolo e tudo isso vindo de uma série de acontecimentos em pleno deserto, onde muitas surpresas esperam a todos. O conto aqui não fica apenas na perseguição bem ilustrada (embora eu goste muitíssimo mais da arte de Mario Alberti em Frontera! do que aqui) e no elogiável trabalho de cores, mais uma vez realizado por Matteo Vattani. A quebra de expectativa acaba sendo uma das coisas mais legais da edição por centrar os problemas no deserto e colocar Tex à mercê delas, como qualquer pessoa estaria nesse espaço geográfico (e isso provavelmente deve ter irritado alguns leitores menos simpáticos a experimentos com a linha dramática do personagem). Evidente que isto não é novo na jornada do personagem, mas por não ser de uso frequente — ou seja, o deserto não só utilizado como passagem, mas como cerne da aventura, ocupando praticamente todo o volume — é interessante acompanhar quando isso acontece.

A resolução também é de se elogiar e faz jus ao título em português, bem mais do que ao título original da aventura, Cinnamon Wells. Eu já havia citado uma pequena sensação de “falta de mais espaço” ao término da GN, mas neste caso não se trata de algo que diminua a saga. Aqui, o fim tem sua lógica narrativa mantida e os eventos estão sem cifras ou mistérios desnecessários, talvez expondo uma leve piscadela para uma continuação, não uma ausência de narrativa. O que acontece, em menor grau, é o que acabou atrapalhando bastando Desafio no Montana, por exemplo: o contraste do desenvolvimento mais compassado e bem realizado no início e no meio e uma correria ou uso de cortes mais abruptos no final. Sangue e Areia é uma história com Tex enfrentando intensas provações no deserto. E onde não um, mais uma porção de problemas e decisões precisarão ser tomados em curtíssimo prazo.

Tex: Cinnamon Wells (Tex Romanzi a Fumetti #8) — Itália, setembro de 2018
Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Tex Graphic Novel n°7 (Editora Mythos, maio de 2019)
Roteiro: Chuck Dixon
Arte: Mario Alberti
Cores: Matteo Vattani
Capa: Mario Alberti
52 páginas

LUIZ SANTIAGO (Membro da OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.