Crítica | Tex: O Nascimento de um Herói (2017)

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Ao fim da leitura de O Nascimento de um Herói, saga publicada na Itália em 2017, na Maxi Tex #21, o leitor se sente como se tivesse assistido a um excelente faroeste de conquista de desbravamento de “territórios selvagens” dos Estados Unidos, na primeira metade do século XIX. Escrita por Mauro Boselli e com desenhos de Pasquale Del Vecchio, a trama se propõe a contar o passado do Águia da Noite, mas não aquele passado que conhecemos da série Tex Willer ou de algumas edições da Tex Graphic Novel, por exemplo. O excelente editoral da revista, escrito pelo próprio Boselli, dá conta desse retorno para ainda mais longe no passado. Para o momento em que a gestante Mae Willer e seu esposo Ken Willer integram uma caravana de colonos prestes a se estabelecer no perigoso Vale de Nueces.

O texto é extremamente inteligente na maneira como constrói a história em diferentes fases, começando com a caravana de pioneiros, seguindo para a infância de Tex, depois para a sua juventude e então para um momento com personagem já quarentão, ao lado de seu filho Kit e seus pards Jack Tigre e Kit Carson, momento em que descobrimos ser o ponto de partida da narrativa, a origem do flashback. Roteiros com essa estrutura podem ter problemas de ligação entre os blocos, dada a enorme diferença de tom em cada um deles, mas não é o que acontece aqui. E isso ocorre porque Boselli não foi preguiçoso, usando o recurso narrativo apenas como trampolim para o passado. Ele utiliza desse presente como consequência de um longo aprendizado e como elo final de ligação entre tempos distantes e novas experiências. Uma baita aula de como construir um roteiro bem segmentado e organicamente costurado.

O roteiro dá um grande destaque para Jim Bridger (personagem histórico que é remodelado aqui para integrar o Universo texiano) e é através de sua figura que a família Willer, seus amigos e outros personagens transversais à Conquista do Oeste se encontram, vivem aventuras juntos e contribuem para o aprendizado e sucesso uns dos outros nas mais difíceis empreitadas contra índios belicosos, comancheros, dissidentes mexicanos e diversas categorias de bandidos prontos para roubar gado, dinheiro, roupas e até vender jovens moços e moças para trabalhos forçados ou prostituição, como vemos em avançado ponto da narrativa — com Tex jovem, em sua primeira jornada como condutor de uma boiada, desta feita até a Califórnia. Outros personagens também fazem parte desta longa aventura, como Jim Baker, Gunny Bill, Major Leavitt, Hutch, Rod Vergil e Damned Dick, além de Sam Willer, cuja personalidade é bem utilizada como um contraste ao impulso e inquietações do irmão.

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À direita: Mae Willer grávida de Tex. À esquerda, Tex e o irmão fogem de um bandido.

Os muitos detalhes da arte de Pasquale Del Vecchio, sua exploração do território e constante alternância entre planos abertos e maior aproximação diante dos personagens cria ao mesmo tempo uma boa conexão do leitor com esses indivíduos e uma perfeita colocação no ambiente. A cadência cíclica do roteiro também é amparada pela arte, que sabe utilizar o maior número de simbolismos possíveis (de lugar, de tempo e de caráter emotivo) para nunca deixar o leitor perder o fio da meada e entender que tudo isso está ligado à história de Tex, à coragem de seus pais, aos acontecimentos de sua infância e início de sua juventude. Uma excepcional aventura de colonização que mostra que alguém precisa de muitos heróis em sua vida antes que ele mesmo possa ser chamado de herói. Uma origem digna de Tex.

Maxi Tex #21: O Nascimento de um Herói (Nueces Valley) — Itália, 2017
Editora original:
Sergio Bonelli Editore
No Brasil: Tex Anual n°19 (Mythos, 2017)
Roteiro: Mauro Boselli
Arte: Pasquale Del Vecchio
Capa: Claudio Villa
276 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.