Crítica | Tex: Satânia, Missão em Devil’s Hole e O Resgate de Montales

Um bom mês de descanso nos separa de O Bando do Vermelho e A Noite Trágica (O Sindicato do Ópio) e este arco da série regular de Tex, o primeiro a se iniciar na década de 1950, começando a ser publicado em 12 de janeiro e terminando e 9 de março. O roteiro de Gianluigi Bonelli começa dando conta de que Tex e Carson foram levados para o QG da 3ª Divisão dos Rangers em Austin, capital do Texas. Esse é o tempo que o protagonista tem para descansar e cuidar dos ferimentos, além de praticar tiros… até que uma nova e perigosa missão surge.

A história começa, como é frequente nas aventuras de Tex, com uma boa perseguição que se expande para diversos lados e coloca o protagonista e seu parceiro Kit Carson na cola de diversos bandidos, não raramente parte do mesmo bando. O bom humor faz parte das conversas, escapadas e busca dos rangers para punir os criminosos, e aqui temos um pouco de flerte também, com a presença da personagem Cora, que na verdade era a grande vilã da saga, a temida Satânia.

Por mais que a tentativa do autor em manter Satânia oculta na primeira parte da história seja uma louvável iniciativa de suspense, os momentos com a personagem tendem a ser majoritariamente truncados, principalmente por conta do gorila e do servo javanês que possuem um papel estranho no enredo. Tive a impressão que houve até uma possível inspiração de Bonelli em Os Assassinatos na Rua Morgue, de Edgar Allan Poe, e nesse ponto reside um paradoxo frente à minha visão geral sobre a presença do gorila na trama, pois eu acho a cena em que ele invade o quarto de Tex uma das mais legais do arco, inclusive tomando vários tiros e tendo uma morte violenta, caindo de cara no chão, ao tombar pela janela.

O fim de Satânia?

A sequência final, com Satânia encurralada, também é muito interessante. Há um fator de urgência e ao mesmo tempo de tragédia acumulada que o roteiro cria com competência, sustentando até a última página da história o encontro da vilã com Tex e Carson, a revelação de sua “identidade civil” (embora o leitor e o próprio ranger já tivessem sacado quem era) e o fim da personagem, que se suicida, jogando-se do penhasco. Curiosamente, o mesmo fim terrível do gorila em quem tanto se fiou nas suas atividades criminosas. E na visão de Tex, um fim melhor do que se tivessem-na capturado.

Os capítulos deste arco: Satânia, No Chifre de Ouro, A Emboscada, No Covil de Satânia, Ataque na Mina, Cilada em Yuma, O Monstro de Satânia, Noite do Horror, O Fim de Satânia.

Satania — Itália, 12 de janeiro a 9 de maço de 1950
Publicação original: 
Tex, 2ª Série — Collana Del Tex #6 a 14
Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Gianluigi Bonelli
Arte: Aurelio Galleppini
Edição lida para esta crítica: Grandes Clássicos de Tex #19 (Mythos, 2009).
96 páginas

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Missão em Devil’s Hole

Esta história é tida por muitos leitores de Tex como uma espécie de “laboratório de maturidade” do personagem. E de fato é possível perceber uma boa mudança no texto de Gianluigi Bonelli, se compararmos esta com as histórias passadas, primeiro na forma como a investigação se dá; depois na forma como ele lida com os muitos bandidos que aparecem na história — e aqui não tem gorilão e nem ocultamento desnecessário do vilão para atrapalhar a narrativa. É certo que a trama poderia ser um pouquinho mais curta, cortando algumas cenas que acabam sendo redundantes… e também conseguiria um final bem mais harmônico se a chegada do Batalhão tivesse sido melhor preparada, mas mesmo assim, o nível de entretenimento, ação e boas ideias de Missão em Devil’s Hole mostram uma considerável mudança no enredo de Bonelli.

Enviado juntamente com Kit Carson para investigar um número frequente de mortes de xerifes em Devil’s Hole, Tex cria um plano que inicialmente nos parece cauteloso demais, e por muitas e muitas páginas ficamos esperando a reentrada de Kit em cena. Esse afastamento, no entanto, não é feito de maneira negativa. É perfeitamente compreensível a ausência do parceiro de Tex e o roteiro o reincorpora na história da melhor forma possível, fazendo uma escalada bem inteligente das tramas e subtramas que os rangers encontram em suas missões. Embora isso já fosse observado claramente em Satânia (digo, de maneira bem estruturada), o tratamento dado à vilã e alguns desvios pouco interessantes do núcleo principal nos impediam de aproveitar todas as novas ondas de perigo. Isso, porém, não ocorre aqui.

O simples objetivo inicial se torna em uma caçada e em um enfrentamento a longo prazo, com Tex assumindo o posto de xerife da cidade, virando persona non grata e lutando ato-por-ato contra os irmãos Bill e Amos Benton e seus homens, uma escolha focada que dá a oportunidade de o autor trabalhar a personalidade de seus vilões e, acima de tudo, marcar uma nova camada de ação/atuação de Tex diante de seus inimigos, cabendo aqui acordos mais ou menos diplomáticos, avisos ameaçadores e espera para uma boa oportunidade de pegar um bandido específico em ação. Isso sem contar a ótima atuação de Tex como xerife temporário.

Tex, o violeiro mexicano.

Infelizmente existe uma colocação abrupta no fim — sem contar que a “aparição” do Batalhão, mesmo tendo uma justificativa amparada pelo roteiro, já que eles foram avisados pela mulher e filho que fugiram do Buraco do Diabo com uma carta de recomendação escrita por Tex –, com sua resolução quase milagrosa, desacelera rápido demais a grande tensão criada pelo roteiro, comprometendo um pouco a história. De todo o ato que se passa no México, vale destacar a arte de Aurelio Galleppini, que tem nesse ato o seu melhor momento.

Missão em Devil’s Hole é um arco tenso, cheio de possibilidades de ação para Tex e, em menor grau, para Kit, além de trazer os já esperados diálogos engraçados do ranger mais algumas estripulias que nós aceitamos de bom grado apenas no recorte desse Universo. Juntamente com O Espião Mefisto é a minha história favorita desde a estreia de Tex até aqui.

Os capítulos deste arco: Missão em Devil’s Hole, Ataque na Noite [depois desse segundo capítulo, o volume que eu li não listava mais a divisão de episódios, então colocarei a seguir os títulos originais dos capítulos restantes] Situazione Pericolosa, Lo Sceriffo di Devil’s Hole, La Valle Degli Spettri, Nelle Mani Degli Outlaws, Lotta Senza Guartiere, Doppio Gioco, Avventura a Piedras Negras, Ai Ferri Corti, L’ultima Carta dei Fratelli Benton.

Missione a Devil’s Hole — Itália, 16 de março a 25 de maio de 1950
Publicação original: 
Tex, 2ª Série — Collana Del Tex #15 a 25
Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Gianluigi Bonelli
Arte: Aurelio Galleppini
Edição lida para esta crítica: Grandes Clássicos de Tex #20 (Mythos, 2009).
119 páginas

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O Resgate de Montales (Ken Logan, o Duelista / Lupe, a Mexicana)

Assim como foi em Missão em Devil’s Hole, Tex começa essa história com um objetivo simples que rapidamente se divide em inúmeros atos de fuga, encontro com amigos e inimigos, perdas e recuperações no andamento da missão… que nesse caso é resgatar Montales da prisão, em mais uma virada política no México, o que coloca, em termos genéricos, essa história na época da Guerra da Reforma (1857 – 1861), e que nos faz olhar de maneira bastante… peculiar a presença de Tex no meio desse conflito, um olhar problematizador que o próprio Gianluigi Bonelli teve, basta ler o bilhete que o ranger deixa para Montales, Drigo e Lupe no final da aventura, dando conta de que já interferiu demais na luta mexicana e que deixaria para eles resolverem essa querela nacional sozinhos.

A progressão da ação aqui é realmente notável. Exceto pelo engate inicial da trama, ainda nas primeiras páginas, temos neste arco a apresentação de um problema atrás do outro e, de maneira muito bacana, vemos Tex perder uma porção de batalhas, o que nos faz curtir ainda mais a jornada, com uma boa dose de ansiedade. O momento em que o protagonista chega ao território mexicano é quando a saga encontra o seu melhor momento, e segue assim até o final, desta vez, com um encerramento bem ritmado, orgânico e interessante.

Os diversos momentos de embate na Sierra e a trama com os índios são os grandes destaques no meio de toda a ação, embora algumas exijam maior suspensão da descrença do leitor. Contudo, a esta altura do campeonato, isso não é exatamente uma novidade. Claro que a gente consegue fazer o recorte de certos “milagres narrativos” como aceitáveis dentro desse Universo, mas é verdade que existem exageros no meio, alguns tornando-se uma pequena pedra no sapato da trama, quando vista em seu todo mais sóbrio e bem pensado.

Com um ritmo bem organizado, personagens simpáticos e dessa vez, uma quantidade bem menor de humor — algo que encontramos mais frequentemente nas tramas em que Kit Carson faz parte, mas ele está ausente aqui –, O Resgate de Montales prova a mudança de tom e tratamento de Bonelli para o protagonista e também para a estrutura de suas histórias. A última aventura antes de Tex entrar no redemoinho que o faria conhecer e casar-se com Lilyth.

Os capítulos deste arco (no original): Ken Logan, il Duellista, Il Guado dei Piute, Lupe, la Messicana, Il Tradimento di El Fierro, Il Covo Sulla Sierra, L’agguato sul Rio Mayo, Tex Alla Riscossa, La Corsa Infernale, Un Turpe Mercato, Battaglia sul Tempio, Una Fuga Rocambolesca.

Ken Logan, il Duellista / Lupe, la Messicana — Itália, junho a julho de 1950
Publicação original: 
Tex, 2ª Série — Collana Del Tex #26 a 36
Sergio Bonelli Editore
Roteiro: Gianluigi Bonelli
Arte: Aurelio Galleppini
Edição lida para esta crítica: Grandes Clássicos de Tex #20 (Mythos, 2009).
118 páginas

LUIZ SANTIAGO (OFCS) . . . . Após recusar o ingresso em Hogwarts e ser portador do Incal, fui abduzido pela Presença. Fugi com a ajuda de Hari Seldon e me escondi primeiro em Twin Peaks, depois em Astro City. Acordei muitas manhãs com Dylan Dog e Druuna, almocei com Tom Strong e tive alguns jantares com Júlia Kendall. Em Edena, assisti aulas de Poirot e Holmes sobre técnicas de investigação. Conheci Constantine e Diana no mesmo período, e nos esbaldamos em Asgard. Trabalhei com o Dr. Manhattan e vi, no futuro, os horrores de Cthulhu. Hoje, costumo andar disfarçado de Mestre Jedi e traduzo línguas alienígenas para Torchwood e também para a Liga Extraordinária. Paralelamente, atuo como Sandman e, em anos bissextos, trabalho para a Agência Alfa. Nas horas vagas, espero a Enterprise abordar minha TARDIS, então poderei revelar a verdade a todos e fazer com que os humanos passem para o Arquivo da Felicidade, numa biblioteca de Westworld.